terça-feira, 3 de maio de 2016

Uma história do Gulag


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O livro “GULAG, uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”, escrito por Anne Applebaum, lançado no Brasil em 2004 pela Ediouro Publicações S.A. foi dedicado àqueles que descreveram o que aconteceu.

Abaixo um resumo da Introdução, apenas:

Esta é uma história do GULAG. Uma história da vasta rede de campos de trabalhos forçados que outrora se espalhavam por todo o comprimento e toda largura da URSS, das ilhas do Mar Branco às costas do Mar Negro, do Círculo Ártico às planícies da Ásia Central, de Murmansk a Vorkuta e ao Casaquistão, do centro de Moscou à periferia de Leningrado.

A palavra GULAG é um acrônimo de Glavinoe Upravlenie Lagerei (Administração Central dos Campos). Com o tempo passou a indicar não só a administração dos campos de concentração, mas também o próprio sistema soviético de trabalho escravo, em todas as suas formas e variedades: campos de trabalhos forçados, campos punitivos, campos criminais e políticos, campos femininos, campos infantis, campos de trânsito. De modo anda mais amplo GULAG veio a significar todo o sistema repressivo soviético, o conjunto de procedimentos que os presos outrora denominaram “o moedor de carne”: as prisões, os interrogatórios, o traslado em vagões de gado sem aquecimento, o trabalho forçado, a destruição de famílias, os anos de degredo, as mortes prematuras e desnecessárias.

O GULAG tinha precedentes na Rússia czarista, nas turmas de trabalho forçado que operaram na Sibéria desde o Século XVII até o início do Século XX. Quase imediatamente após a Revolução Russa, ele assumiu sua forma moderna e mais familiar, tornando-se parte parte integral do sistema soviético, O terror em massa, contra oponentes reais ou pretensos, foi parte da Revolução desde o começo. No verão de 1918, Lenin, o líder revolucionário, já exigira que indivíduos “indignos de confiança” fossem encarcerados em campos de concentração fora das cidades principais. Em 1921 já havia 84 campos d concentração em 43 províncias, a maioria destinada a “reabilitar” esses primeiros inimigos do povo. 

A partir de 1929 os campos adquiriram nova importância. Naquele ano, Stalin resolveu usar o trabalho forçado tanto para a industrialização da URSS quanto para explorar os recursos naturais no extremo norte, quase inabitável do país. Também naquele ano a polícia secreta soviética passou a assumir o controle do sistema penal soviético, lentamente arrebatando do Judiciário todos os campos e prisões. Com o impulso das prisões em massa em 1937/1938, os campos entraram num período de rápida expansão. No final da década de 30 podiam ser encontrados em cada um dos doze fusos horários da URSS.

Ao contrário da idéia corrente, o GULAG não parou de crescer quando chegou o final dos anos 30. Ao invés disso, continuou a expandir-se durante toda a II Guerra Mundial e a década de 40, atingindo seu apogeu no início dos anos 50. Nessa época, os campos já desempenhavam um papel crucial na economia soviética: produziam um terço do ouro do país, boa parte do seu carvão e madeira e muito de tudo o mais.

No decorrer da existência da URSS, surgiram pelo menos 476 complexos distintos de campos, consistindo em milhares de campos individuais, cada um dos quais tendo de algumas centenas a milhares de pessoas. Os presos trabalhavam em quase todas as atividades imagináveis – derrubada e cortes de árvores, transporte dessa madeira, mineração, construção civil, manufatura, agropecuária, projetos de aviões e peças de artilharia – e, na realidade, viviam num Estado dentro do Estado, quase numa civilização em separado.

O GULAG tinha suas próprias leis, seus próprios costumes, sua própria moralidade e até sua própria gíria. Gerou sua própria literatura, seus próprios vilões, seus próprios heróis, e deixou sua marca em todos que passaram por ele, fosse como presos, fosse como guardas. Anos após de libertados, os habitantes do GULAG muitas vezes eram capazes de reconhecer os condenados nas ruas, simplesmente pelo “olhar”.

O número total de prisioneiros nos campos costumava girar em torno de 2 milhões, mas o número total de cidadãos soviéticos que tiveram alguma vivência nos campos na condição de presos políticos ou comuns, é muito maior. De 1919, quando o GULAG iniciou sua maior expansão, a 1953, quando Stalin morreu, as melhores estimativas estimam que cerca de 18 milhões de pessoas passaram por esse enorme sistema.

Como sistema de trabalho em massa que envolveu milhões de pessoas, os campos desapareceram com a morte de Stalin. Embora ele houvesse acreditado a vida toda que o GULAG era essencial para o crescimento econômico soviético, seus herdeiros políticos bem sabiam que os campos, na realidade, eram um dos motivos para o atraso nacional e a política de investimentos deturpada. Dias após a morte de Stalin, seus sucessores começaram a desmantelá-los.

No entanto, os campos não desapareceram por completo. Em vez disso, eles evoluíram. Durante toda a década de 70 e o início da década de 80, alguns foram reformulados e usados como cárceres para uma nova geração de ativistas, de nacionalistas anti-soviéticos e de criminosos. Ainda nos anos 80, o presidente americano Ronald Reagan e seu equivalente soviético, Mikhail Gorbachev, discutiam os campos da URSS. Gorbachev – ele próprio neto de prisioneiros do GULAG – só começaria a dissolver os campos em 1987.

Contudo, embora tenham durado tanto tempo quando a URSS e milhões de pessoas tenham passado por eles, a verdadeira história do GULAG não era de modo algum bem conhecida até recentemente, mesmo os fatos concisos até aqui relacionados, mesmo que sejam familiares à maioria dos estudiosos da história soviética, não penetraram na consciência popular ocidental. “O conhecimento humano”, escreveu Pierre Rigoulot, historiador francês do comunismo, “não se acumula conforme os tijolos de uma parede, que se eleva gradualmente, acompanhando o trabalho do pedreiro. Seu desenvolvimento, mas também sua estagnação ou recuo, depende da estrutura social, cultural e política” .

Poder-ser-ia dizer que até agora inexistia a estrutura social, cultural e política para o reconhecimento do GULAG.  

Intelectualmente, americanos e europeus ocidentais sabem o que aconteceu na URSS. Em 1962/1963, “Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch”, o aclamado romance de Alexander Soljenitsin sobre a vida nos campos, foi publicado no Ocidente em diversos idiomas. Em 1973,“Arquipélago Gulag”, a história oral dos campos que Soljenitsin escreveu, tornou-se motivos de muitos comentários quando lançado. Durante a década de 80 – os anos da glasnost – foram feitas muito mais revelações sobre o GULAG, e também elas receberam a devida publicidade no exterior.

Para muitas pessoas, porém, os crimes de Stalin não inspiram a mesma reação visceral que os de Hitler. Na época dos grandes julgamentos de Moscou, enquanto Stalin arbitrariamente condenava aos campos milhares de membros inocentes do Partido, o dramaturgo Bertold Brecht disse que “quanto mais inocentes eles são, mas  merecem morrer” (Robert Conquest, “O Grande Terror”).

Ao fim da II Guerra Mundial, enquanto os campos de Hitler eram liberados, os de Stalin se expandiam. Agora, a II Guerra Mundial pertence a uma geração anterior. A Guerra Fria também já acabou e as alianças e dissenções que ela produziu mudaram de vez. Hoje, a esquerda e a direita ocidentais competem entre si a respeito de outras questões. Ao mesmo tempo, a ameaça do terrorismo à civilização ocidental torna ainda mais necessário o estudo da velha ameaça comunista a essa mesma civilização.
Em outras palavras, a “estrutura cultural, social e política” mudou. No final da década de 80, na URSS de Mikhail Gorbachev, começou a aparecer uma enxurrada de documentos a respeito do GULAG e pela primeira vez os jornais publicaram histórias a respeito da vida nos campos de concentração soviéticos.

Talvez o mais importante: o livro não faz justiça à história dos “degredados especiais”, os milhares de indivíduos que freqüentemente eram arrebanhados ao mesmo tempo e pelas mesmas razões que os presos do GULAG, que eram enviados não para os campos, mas para as longínquas aldeias de degredo, onde muitos milhares morreram de inanição, frio e excesso de trabalho. Embora a história desses degredados esteja estreitamente vinculada a do GULAG, contá-la por inteiro exigiria outro livro com a extensão deste. Esperamos que algum dia alguém o escreva.

Assinale-se que o GULAG não surgiu prontinho do nada. Em vez disso refletiu os padrões gerais da sociedade russa de então. Se os campos eram imundos, se os guardas eram brutais, se as turmas de trabalho eram desleixadas, isso em parte se deve ao fato de que a imundície, a brutalidade e o desleixo eram abundantes em outras esferas da vida soviética. Se a vida nos campos era horrível, insuportável, desumana, se a mortalidade era alta, isso tampouco chegava a ser surpresa: em certos períodos a vida na URSS também era horrível, insuportável e desumana, e a mortalidade se mostrava tão elevada fora quanto dentro dos campos.

De resto, tampouco é coincidência que os primeiros campos tenham sido estabelecidos imediatamente após a sangrenta, violenta e caótica Revolução Russa. No decorrer da Revolução, do terror imposto depois dela e da subseqüente Guerra Civil, pareceu a muitos que a própria civilização fora destruída de modo permanente.  “Sentenças de morte eram impostas arbitrariamente”, escreveu o historiador Richard Pipes, “pessoas eram fuziladas sem motivo ou libertadas de modo igualmente imprevisível”.

A partir de 1917 todo o conjunto de valores de uma sociedade ficou de pernas para o ar: a riqueza e a experiência acumuladas durante uma vida inteira tornou-se uma desvantagem, o roubo era glamorizado como “nacionalização”, o assassinato virou parte da luta em prol da ditadura do proletariado.  O aprisionamento inicial de milhares de pessoas por Lenin, simplesmente porque antes tinham riqueza ou títulos aristocráticos, não chegava a ser estranho ou despropositado.

No inverno de 1941/1942, quando um quarto da população do GULAG pereceu de inanição, talvez um milhão de habitantes de Leningrado tenham também morrido de inanição, isolados pelo bloqueio alemão.

É bem verdade que os moradores de Leningrado morriam em casa, ao passo que o GULAG destroçava vidas, destruía famílias, arrancava os filhos dos pais e condenava milhões a viverem a milhares de quilômetros de seus familiares.

A população do GULAG e a população do restante da URSS compartilhavam muitas outras coisas além do sofrimento. Dentro e fora dos campos era possível encontrar as mesmas técnicas de trabalho desleixadas, a mesma burocracia criminosamente estúpida, o mesmo descaso sombrio pela vida humana.  

Na URSS de Stalin, a diferença entre a vida nos campos e a vida fora deles era apenas de grau. Talvez por isso, o GULAG foi muitas vezes descrito como a quintessência do sistema soviético. Mesmo na gíria dos presos, a vida fora do arame farpado era não a “liberdade” e sim a bolshaya zona, a zona prisional grande, maior e menos letal que azona pequena do GULAG, mas não mais humana, e certamente não mais humanitária.

Finalmente, em retrospecto, deve ser assinalado que na Alemanha nazista os primeiros alvos foram os aleijados e os retardados. Posteriormente, os nazistas se concentraram nos ciganos, nos homossexuais e, finalmente, nos judeus. Na URSS, as vítimas foram, primeiro “a gente de antes” (supostos partidários do antigo regime) e depois “os inimigos do povo”, termo vago que abrangia não apenas os pretensos opositores políticos do regime, mas também certos grupos nacionais e étnicos caso eles parecessem, por motivos igualmente vagos, ameaçar o Estado Soviético ou o Poder Stalinista.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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