quinta-feira, 30 de junho de 2016

A Internacional Comunista (final)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi extraído de algumas páginas do livro “A Crise do Movimento Comunista”, escrito por Fernando Claudin - dirigente expulso do Partido Comunista Espanhol em 1965, juntamente com Jorge Semprun -. Foi publicado na França em 1970, e posteriormente no Brasil com tradução e Introdução de José Paulo Netto. No livro, Claudin, através de uma abordagem metodológica fiel a Marx, desenvolve uma investigação minuciosa que abarca cerca de meio século de História: da fundação da Internacional Comunista (1919) à invasão da Checoslováquia (1968).

Em novembro de 1936, o VII Congresso dos Sovietes aprovou uma nova Constituição – a Constituição Stalinista – que oferecia uma idílica imagem da sociedade soviética, modelo de democracia sem precedentes, liberdade, humanismo, etc. Nas palavras de Stalin: “A nova constituição consagra o fato, de alcance histórico universal, de a URSS entrar em uma nova etapa de desenvolvimento; na etapa de coroação da edificação da sociedade socialista e a transição gradual à sociedade comunista”.

No momento em que um terror massivo se abatia sobre a sociedade soviética, Stalin apresentava-a ao mundo como o reino da liberdade, “a liberdade de palavra, de imprensa, de reunião (...) a inviolabilidade pessoal, a inviolabilidade de domicílio, de correspondência; a democratização completa do sistema eleitoral”, embasado no sufrágio universal. E todas estas liberdades são verdadeiras, autênticas, não estão falseadas como na putrefata democracia burguesa, e nem pela exploração do homem pelo homem, e têm como sólido fundamento “a propriedade dos meios de produção”. 

Entre esse espelho da mais perfeita democracia proletária e a liquidação física das personalidades mais representativas da velha guarda revolucionária, não mais existia nenhuma contradição e só os anti-soviéticos empedernidos encontrariam alguma. Tratava-se de pessoas que se degeneraram moral e politicamente, enquanto que a massa do povo, sob a sábia direção de Stalin, avançava triunfalmente no rumo do comunismo. Eram – segundo as científicas caracterizações stalinistas –“monstros”, “lacaios dos fascistas”, “agentes dos serviços de espionagem da burguesia estrangeira”. Numa palavra: “inimigos do povo”.

A História “demonstra” que todas as revoluções tiveram seus traidores, seus renegados, convertidos em “insignificantes moscas contra-revolucionárias”, frente à grandeza da revolução em marcha. Dos milhões de “moscas contra contra-revolucionárias”, ainda mais insignificantes, enviados para os campos de extermínio, ou exterminados sem necessidade de campos, verdadeiramente não valia a pena falar. E, sobretudo, não se podia falar, porque nesse aspecto era difícil encontrar precedentes históricos “comprobatórios”.

Comparativamente ao terror stalinista, o da grande revolução francesa parecia uma bagatela. E, além dessa falta de precedentes históricos, o extermínio de milhões de moscas ínfimas era quase impossível de compatibilizar com a luminosa Constituição stalinista, modelo de liberdade e humanismo. Conseqüentemente, essa faceta da vitoriosa edificação do socialismo foi guardada em segredo, sob sete cadeados, o mais sólido dos quais, no interior da URSS, era o próprio terror e o que se lhe seguia em eficácia, a total incomunicabilidade do mundo soviético com o exterior, e vice-versa (a organização dasdelegações intelectuais ou operárias à URSS era parte do mecanismo dessa incomunicabilidade:constituía a sua folha de parreira).

Apesar de todas as precauções, o segredo foi revelado no exterior das fronteiras soviéticas, mas os comunistas e amplos setores do movimento operário não podiam – no sentido mais literal do termo – acreditar nas denúncias. A própria dimensão monstruosa dos fatos tornava-os inverossímeis para qualquer operário que tivesse um mínimo de confiança no Partido Comunista e em seus dirigentes. Só caluniadores profissionais, agentes da burguesia e do fascismo, poderiam atribuir-lhes tais crimes e semelhante duplicidade. E os comunistas não tinham um mínimo de desconfiança: tinham fé ilimitada, religiosa, nos dirigentes soviéticos. Era essa a essência da formação marxista que receberam nas fileiras da IC.

Uns,  sobreviventes das primeiras gerações de militantes comunistas, eram produto da “bolchevização”: seu universo mental, seus hábitos, seus esquemas ideológicos, permitiam-lhes encontrar justificativas para tudo que vinha de Moscou, bem como argumentos para “explicá-lo” aos neófitos da nova igreja. Estes constituíam, na segunda metade dos anos 30, o grosso dos efetivos da IC nos países capitalistas. Formavam a geração do antifascismo e dos planos qüinqüenais. Chegaram à luta revolucionária sob o signo do ódio ao fascismo e do entusiasmo ilimitado pelo mundo inédito que surgia das ruínas da velha Rússia. Esse mundo, que a revista URSS em Construção apresentava como o paraíso terrestre.

Entre as principais características desses novos comunistas – além da sua combatividade antifascista – figuravam a absoluta carência de espírito crítico ante tudo que levasse o selo soviético e o “praticismo”, como se dizia na gíria do partido. A teoria era, para eles, uma preocupação menor, uma vez que todos os problemas importantes vinham resolvidos “de cima” e seu principal alimento teórico eram as obras de Stalin.

Concluindo: foi dessa geração de comunistas que saíram o conjunto de quadros médios e alguns dos principais dirigentes dos partidos comunistas de todo o mundo nas etapas seguintes, as da Resistência, da Libertação, dos governos de “União Nacional”, da Guerra-Fria e da nova fase do Terror Stalinista. Esse é um dado a reter, pois facilita a compreensão do comportamento dos partidos comunistas depois da dissolução da Internacional Comunista.

Uma pergunta final: Os comunistas não-soviéticos, vinculados à direção e ao aparato da Internacional, que viveram em Moscou naqueles anos, como, por exemplo, o chamado Cavaleiro da Esperança, alguns completando sua educação marxista, conheciam o interior do mecanismo do terror stalinista e suas verdadeiras dimensões? Problema importante, mas de resolução impossível, antes que se conheça o inteiro teor de alguns arquivos, que começaram a ser abertos por Gorbachev e Boris Yeltsin, e que não se abrirão totalmente enquanto não chegar o segundo Outubro soviético.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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