terça-feira, 28 de junho de 2016

A Liquidação dos Kamaradas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Na segunda metade dos anos 30, quando Stalin desencadeou o terror contra os kamaradas da velha guarda bolchevique e a milhões de cidadãos soviéticos, viviam na URSS, como exilados, desempenhando funções na Internacional ou de seus partidos, numerosos dirigentes e quadros dos partidos comunistas europeus, que se encontravam na clandestinidade sob os regimes fascistas ou reacionários da Alemanha, Itália, Polônia, Hungria, Iugoslávia, Bulgária, etc.

A repressão de Stalin também se abateu sobre eles, sob o pretexto de afinidades ou cumplicidades com o trotskismo, o bukharinismo, etc. As vítimas, invariavelmente, eram acusadas de estar a serviço da polícia de seus respectivos países e da espionagem capitalista. No XVIII Congresso do partido soviético, Manuilski chegou a dizer em seu Informe que os partidos comunistas da Polônia, Iugoslávia e Hungria estavam “infiltrados de policiais”. Entre os comunistas iugoslavos assassinados pela polícia secreta de Stalin, estavam os dois primeiros secretários do partido, Filip Filipovitch e Syma Markovitch, bem como Yosip Tchizinski, que ocupava o posto em 1937.

Toda a direção do partido iugoslavo foi liquidada nesse ano, à exceção de Yosip Broz Tito, a quem a Internacional encarregou de constituir uma nova direção. O mais atingido, entretanto, foi o Partido Comunista Polonês. K. S. Karol, em seu livro Visa pour La Pologne, relata: “Sem qualquer processo ou explicação, os dirigentes comunistas poloneses que se encontravam na URSS foram presos e fuzilados – em janeiro de 1938 -. A primeira vítima foi Adolf Varski, veterano do movimento operário, amigo de Lenin e Rosa de Luxemburgo, retirado da vida política há muitos anos – tinha 71 anos -. Lenski, considerado o mais fiel stalinista polonês, Vera Kostzevra, que fora, na Sibéria, companheira de desterro de Stalin, Henrik Walek e todos os demais tiveram o mesmo destino.

E como a lista não estivesse completa, foram chamados os kamaradas que combatiam na Espanha, na Primeira Brigada Internacional, que levava o nome do herói polonês da Comuna de Paris, Jaroslaw Drombovski: Prochniak, antigo membro do Comitê Executivo da IC, Brand, Bronkovski, Bronski e muitos outros, que acorreram a este encontro com a morte.centenas de dirigentes menos importantes foram deportados para os campos de concentração da região polar.

Em abril de 1938, a Internacional decretou oficialmente a dissolução do Partido Comunista Polonês, infiltrado de agentes provocadores, trotskistas e outros inimigos da classe operária. Os militantes receberam ordem para se dispersarem, sendo solenemente advertidos de que toda iniciativa de reconstrução do partido seria considerada uma provocação. O que o regime psidulkista não conseguira ao longo de largos anos de luta sem quartel, a Internacional realizou em horas: a extrema esquerda deixou de existir como força organizada, na Polônia. Foram liquidados também comunistas alemães, italianos e de várias outras nacionalidades.
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O texto acima foi extraído de algumas páginas do livro “A Crise do Movimento Comunista”, escrito por Fernando Claudin - dirigente expulso do Partido Comunista Espanhol em 1965, juntamente com Jorge Semprun -. Foi publicado na França em 1970, e posteriormente no Brasil com tradução e Introdução de José Paulo Netto. No livro, Claudin, através de uma abordagem metodológica fiel a Marx, desenvolve uma investigação minuciosa que abarca cerca de meio século de História: da fundação da Internacional Comunista (1919) à invasão da Checoslováquia (1968).


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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