quarta-feira, 29 de junho de 2016

Como a Petrobras foi parar no fundo do poço


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Estevão de Luna Freire

Fatos relevantes no 1º. semestre de 2016: O balanço da Petrobrás relativo ao 1º. trimestre de 2016, registrou um prejuízo de R$ 1,246 bilhões, determinado por: a) maiores despesas de juros e variações monetárias e cambiais negativas; b) redução de 7% da produção de petróleo e gás natural (Brasil e exterior); c) queda de 8% na venda de derivados no mercado doméstico; d) aumento dos custos com depreciação; e) maiores gastos com ociosidade de equipamentos, principalmente de sondas.

A Petrobras concordou com o China Exim Bank um financiamento no valor de US$ 1 bilhão, para fornecimento de equipamentos e serviços por parte de empresas chinesas. No dia 23/05 Petrobras informou que colocou títulos no mercado de capitais internacional, no valor de US$ 6,75 bilhões e vencimentos de 5 e 10 anos, a juros de 8,625 a 9,0%, para atender necessidades corporativas e fazer caixa.



A Petrobras vendeu para Pampa Energia sua participação na Petrobras Argentina (PESA), e para a Southern Cross Group 100% da Petrobras Chile Distribución Ltda. (PCD). No dia 07/06 Petrobras deu início ao processo competitivo para a venda dos seus terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL) no Rio de Janeiro e no Ceará, com termelétricas associadas a esses terminais, dando continuidade a venda de ativos para reduzir a dívida e fazer caixa.

Balanço do exercício 2015: A Petrobrás registrou um prejuízo (recorde) de R$ 34,836 bilhões em 2015 e de R$ 36,938 bilhões no 4T-2015, ocasionado por: i) impairment (ajuste) de ativos e de investimentos, principalmente em função do declínio dos preços do petróleo e incremento nas taxas de desconto, reflexo do aumento do risco Brasil pela perda do grau de investimento (R$ 49,748 bilhões); ii) despesas de juros e perda cambial (R$ 32.908 milhões). O prejuízo de 2015 supera em 61% o registrado em 2014, de R$ 21,587 bilhões. O endividamento líquido foi de US$ 100,379 bilhões em 31.12.2015, 5% inferior (em dólar) em relação a 31.12.2014, sendo a empresa de capital aberto mais endividada da América Latina e Estados Unidos. Os investimentos foram de R$ 76,315 bilhões, 12% inferiores a 2014 (R$ 10,825 bilhões).

Plano de Negócios 2010-2014: Em 21/06/2010 a Petrobrás divulgava o seu ambicioso PN 2010-2014, com investimentos previstos de US$ 224 bilhões. A meta de produção de petróleo era fixada em 3,9 milhões boe em 2014 e projeção de 5,4 milhões boe em 2020.

Plano de Negócios 2015-2019: Em 29/06/2015 a Petrobrás anunciava o seu novo Plano já em plena crise financeira, com investimentos reduzidos para US$ 130,3 bilhões. A produção de petróleo em 2015 foi de 2,7 milhões boe. A meta projetada para 2020 foi reduzida para 3,7 milhões boe. São estimados desinvestimentos recordes de US$ 15,1 bilhões no biênio 2015-2016 e de US$ 42,6 bilhões no biênio 2017-2018.

Causas: A utilização da Petrobrás como instrumento para atender aos fins políticos do Governo e seu partido foi a principal causa desta profunda crise em que ela se encontra. Várias decisões estratégicas e macro-econômicas levaram também o Brasil à recessão atual. “Lava Jato” não é causa, mas consequência, e o prejuízo causado pela corrupção sistêmica, como divulgado pela imprensa, pode atingir R$ 42 bilhões. O Governo promoveu um elevado nível de investimentos, com subsídios, para implantação de estaleiros em todo o Brasil, formação de mão-de-obra, e vários projetos com motivação política, criando uma capacidade não sustentável. O próprio BNDES foi manipulado para garantir apoio à política econômica do Governo.

É provável que grande parte desta capacidade seja simplesmente destruída, com esta crise, resultando num enorme desperdício de recursos para o país. Foram desperdiçados também recursos para uma refinaria no Maranhão, que deu em nada, outra no Ceará, reforma na Abreu e Lima para processar o tal petróleo venezuelano, além da compra da refinaria de Pasadena que resultou em US$792 milhões de perdas. A SeteBrasil, em recuperação judicial, é um exemplo de má gestão de risco. Outra decisão nefasta, de caráter puramente populista, foi a mudança da legislação para o pré-sal com a obrigatoriedade da Petrobrás ser operadora com participação mínima de 30% em cada bloco, o que reduziu a possibilidade de dividir riscos e investimentos com outras empresas, contribuindo para o aumento da sua dívida.

*Um boe é a quantidade de energia contida em um tambor do óleo cru.

Estevão de Luna Freire (estevaodlf@gmail.com) escreve de

Milano, na Italia.

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