segunda-feira, 13 de junho de 2016

Da Desinformação ao Terrorismo

Mikhail Gorbachev e Yuri Andropov: dupla da mentira

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Em novembro de 1982, Yuri Andropov se tornou o primeiro oficial do KGB a liderar a União Soviética. Uma vez entronado no Kremlin, ele usou a máquina de Inteligência estrangeira para apresentar a si próprio ao Ocidente como um “comunista moderado”, um homem sensível, caloroso, ocidentalizado. Foi descrito como alguém que apreciava drinques ocasionais de uísque, que gostava de ler romances ingleses e amava ouvir jazz americano e a música de Beetowen. No entanto – segundo Ion Pacepa, chefe da Inteligência romena, que o conhecia bem -, Andropov não era nada disso -.

Já doente quando chegou ao Poder, Andropov não teve tempo de fazer muito mais, senão projetar sua imagem. Ele, no entanto, olhou pela sorte de um seu protegido, um jovem profissional comunista, vigoroso e insensível, o qual, como o mundo em breve descobriria, compartilhava da opinião do seu mentor sobre a importância da mentira e das operações de influência, Mikhail Gorbachev.

Gorbachev começou sua carreira, tal como Andropov, em Stavropol, e Andropov não demorou a conseguir a designação de Gorbachev para o Politburo. Um biógrafo de Gorbachev escreveu que ele era “o principal organizador e o príncipe coroado de Andropov”.

A glasnost de Gorbachev e o seu resultado não planejado e espetacular na Europa Oriental fizeram dele, instantaneamente, uma sensação no Ocidente, por algum tempo. A opinião pública, na União Soviética, contudo, era outra. Podendo falar livremente depois de três quartos de Século com suas bocas literalmente amordaçadas, os soviéticos passavam a maior parte do tempo externando sua raiva e frustração reprimidas. Todo mundo começou a brigar com todo o mundo e a esperar por outro milagre.

Na vida real, é claro, milagres econômicos não acontecem sozinhos. As lojas ficaram mais vazias que nunca e milhões de soviéticos começaram a culpar o homem que lhes tinha prometido dar voz a essa culpa. De repente, a privilegiada nomenklatura de Moscou decidiu que o presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, parecia um perdedor e procurou ajuda junto à polícia política e sua “ciência da dezinformatsiya”, o meio usual do Kremlin de sair de uma saia justa numa luta de equilíbrio de Poder.

No dia 22 de junho de 1991, Vladimir Kryuchkov, o diretor do KGB, informou ao Parlamento soviético que o país estava à beira de uma catástrofe. Revelou, então, informação “confiável” do KGB mostrando que os serviços de Inteligência ocidentais estavam elaborando planos para a pacificação e ocupação da União Soviética. Por uma incrível coincidência, seu discurso foi filmado “clandestinamente” e exibido na tevê soviética naquele mesmo dia.

Dois meses depois, o mundo mostrava-se chocado com um golpe de Estado em Moscou. No dia 18 de agosto de 1991, seguindo um padrão similar ao utilizado para destituir Nikita Kruschev, o KGB prendeu Gorbachev quando ele se encontra em uma viagem, a passeio, em sua casa de verão na Criméia. Levou-o para o Kremlim e colocou nas ruas de Moscou o seu próprio poderio militar.

Sob as ordens do auto-proclamado “Comitê de Estado para Situação de Emergência”, criado pelos líderes do golpe, entre os quais estava Vladimir Kryuchkov, tropas do KGB também cercaram a sede do primeiro presidente eleito livremente da República Russa, Boris Yeltsin. Milhares de cidadãos desarmados se juntaram para defender o prédio. Uma pequena unidade de tanques insurgentes mudou de lado, e o presidente Yeltsin, de pé sobre um desses tanques, fez um apelo apaixonado ao povo de Moscou para que preservasse a “ordem soviética”. Esse discurso, mundialmente televisionado, constituiu a certidão de nascimento de uma nova estrela soviética.

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O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “Desinformação”, escrito pelo Tenente-General Ion Mihai Pacepa – foi chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando importantes atividades do órgão por ele chefiado, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos do Século XX -, e pelo professor Ronald J. Rychlak - advogado, jurista, professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi, consultor permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros -. O livro foi editado no Brasil em novembro de 2015 pela editora CEDET.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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