segunda-feira, 13 de junho de 2016

Democracia desperdiçada


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Cristovam Buarque

Tanto quanto as pessoas, as nações também cometem pecados. A Europa cometeu o pecado do colonialismo sobre os povos africanos e ameríndios; os Estados Unidos promoveram guerras, usaram a bomba atômica, implantaram ditaduras pelo mundo. O Brasil tem os pecados da escravidão, da desigualdade, da degradação ambiental e o pecado do desperdício.
Por todos os lados, percebe-se centenas de bilhões de reais gastos com obras inacabadas, pontes e estradas que vão do nada a lugar algum, caracterizando o desperdício de dinheiro, recursos materiais, trabalho humano. Parte destes desperdícios vem de erros técnicos, a maior parte, da corrupção.

A dívida descontrolada também é uma forma de desperdício que rouba dinheiro de setores produtivos. Mas, no lugar de enfrentar esta dificuldade, equilibrando os orçamentos, temos cometido o pecado da ilusão financeira, gastando mais do que dispõem os governos e, em consequência, autoenganando-nos com o vício de desvalorizar a moeda para não adotarmos a necessária virtude da austeridade.

Ao negar educação de qualidade aos brasileiros, desperdiçamos historicamente a maior riqueza de um povo: temos 13 milhões de adultos analfabetos; no máximo 20% dos nossos jovens terminam o ensino médio com razoável qualidade; desperdiçamos a universidade, transformada em ilusória escada social para alguns dos que conseguem passar no vestibular, no lugar de fazê-la uma robusta alavanca para o progresso nacional.

Por falta de educação, desperdiçamos cérebros; por falta de cuidados com a saúde, por violência urbana e por horas paradas no trânsito, desperdiçamos vidas.

Mais grave pecado é o desperdício da democracia. Em 30 anos elegemos quatro presidentes: o primeiro foi afastado por impeachment, a quarta está afastada para o julgamento de mais um impeachment.

Nestas três décadas, não conseguimos realizar os dois propósitos da democracia: aglutinar a população presente e conduzir a nação ao progresso futuro. Não construímos um projeto que permita colocar o Brasil entre as nações com elevado grau de civilização e civilidade: com economia eficiente, inovativa, produtiva, distribuindo renda com justiça, em equilíbrio ecológico; uma sociedade sem pobreza, sem violência, com cidades bonitas, pacíficas, com eficiência em todos os seus serviços, especialmente no transporte urbano.

Sem oferecer educação de qualidade para todos, não buscamos a possibilidade de nos transformarmos em um celeiro de conhecimento científico e tecnológico, base do futuro.

Mais grave, estamos desperdiçando nossa democracia em um debate limitado à interrupção do mandato da presidente e sua substituição pelo vice escolhido por ela, sem fazer a discussão necessária sobre as mudanças e reformas necessárias nos rumos do Brasil.

O maior de nossos desperdícios está na democracia sem ambição nacional, com torcidas no lugar de debates políticos, sem perspectiva de futuro, sem alternativas.


Cristovam Buarque é Senador. Originalmente publicado em O Globo em 11 de junho de 2016.

3 comentários:

Anônimo disse...

ISSO TUDO TEM O NOME DE SABOTAGEM, A NOVA HORDEM MUNDIAL, ORDEM DE UMA ORGANIZAÇÃO SEM CONSIENCIA, QUEM SOUBER O NOME DESSA MAFIA QUE NOS INFORME, NÃO ARRISCO O PALPITE PARA NÃO SER SENSSURADO POR ORDEM DESSA MAFIA... MAFIONARIA...

Arlete disse...

Concordo com o sr!!! Por isso mesmo é o impeachment é imprescindível!! Precisamos livrar o país das garras gananciosas do comunismo, travestido em legendas sociais! E então discutirmos uma reforma política séria! Precisamos com urgência aprovar #10MedidasMPF porque a corrupção tornou-se endêmica!

CaioB disse...

O articulista discorre sobre uma situação da qual é um agente cooptado por uma ideologia que parte de bases e premissas falsas, imerso em tal ideologia ao ponto de nada ver além das muralhas dela. E não percebe a sua situação.
Enquanto não se livrar das amarras condicionantes que atualmente o prendem, estará perdendo seus talentos, suas ideias e o potencial que tem de verdadeiramente ajudar a sociedade em que vive.