quinta-feira, 2 de junho de 2016

Gorbachevismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Mesmo que hoje, oficialmente, o Stalinismo tenha sido esconjurado, convém lembrar que o KGB (hoje denominado FSB) continua ativo, e o terror, se já não mais faz parte do cotidiano, paira como uma ameaça sobre a cabeça de todos e de cada um. Mas, terror à parte, iniciativa individual, capacidade de decisão, responsabilidade e trabalho, foram ingredientes essenciais para o êxito da perestroika.

Esse tipo de reorganização, por mais criticado e ironizado que possa ter sido, por parte da população, foi, na verdade, por ela defendido com unhas e dentes, porque parecia garantir a todos e a cada um, ainda que sem oferecer-lhes grandes perspectivas, o emprego e a sobrevivência. Além do sacrossanto direito, o mais sagrado, do socialismo real – que, afinal, é o único socialismo existente, não passando os demais de fantasia -, que é o direito de não trabalhar ou de, pelo menos, trabalhar pouco e mal, de mais simular o trabalho do que efetivamente realizá-lo, uma vez que, por uma espécie de contrato social tácito, não há nenhuma relação entre o trabalho realizado e a recompensa efetiva. O fato é que prevalece na Rússia uma “vagabundagem de chumbo”, suficientemente pesada para que possa vir a ser removida com facilidade.

O gorbachevismo, verbalmente triunfante, foi incapaz de realizar alguma mudança verdadeiramente significativa no gigantesco império totalitário que ele afirmava querer modernizar.

Para Grigori Zinoviev, o mais competente crítico do sistema vigente em seu país natal, a invenção de novas palavras de ordem – glasnost e perestroika -, em nada mudam, substancialmente, um sistema de tal modo consolidado que se pode dar ao luxo, hoje, de afrouxar certos controles. Assim, a perestroika e a glasnost seriam, em primeiro lugar, um expediente bem engendrado para obter ajuda econômica do Ocidente e para liberar alguns recursos que, de outro modo, seriam destinados às despesas militares soviéticas.

Tratar-se-ia, assim, de uma vasta representação. Daí o título de um ensaio de Grigori Zinoviev: “Gorbachevismo, os Poderes de uma Ilusão”. Nos tempos de Kruschev também se escreveu muita coisa que poderia ser publicada hoje, como se fosse da lavra de Mikhail Gorbachev, ou de qualquer um de seus acólitos. Talvez ele – o Gorbachevismo – esteja reanimando velhos comunistas que já não agüentavam mais tapar os olhos e os ouvidos para não ver e ouvir.

Às vezes, a reação favorável se deve à oportunidade de acentuar que até mesmo os dirigentes soviéticos são capazes de ver os estragos produzidos pela economia estatizada, enquanto a burocracia continua a desejar mais e mais Estado. Argumento, aliás, inútil, pois os burocratas estão menos interessados na eficácia econômica em si mesma do que na preservação dos seus poderes.     

Parece, todavia, que a nova liderança soviética desejava, efetivamente, melhorar o nível de vida do país, o que se tornava necessário para garantir a permanência da dominação do partido e da Nomenklatura em geral, pois há um limite, mesmo num regime totalitário, particularmente quando a fé desapareceu e a ideologia foi inteiramente ritualizada, que não se pode ultrapassar em relação às condições de vida do povo, se bem que seja certo admitir que a grande maioria desse povo estaria menos interessada em discutir as reformas de Gorbachev, e mais preocupada com a falta de pão.

Segundo Henry Kissinger, num texto publicado em O Estado de São Paulo de 8 de março de 1987, a contradição interna do Gorbachevismo – desde que se considere que o programa da perestroika foi ditado por intenções sinceras – é que, para ter êxito, teria que destruir o sistema que, ao mesmo tempo quer, em tudo o que é essencial, conservar e fortalecer. 

A respeito de tudo isso poder-se-ia, se ouvido o bom senso, perguntar qual seria a função do Partido Comunista se não houvesse planejamento centralizado? E qual dentre os líderes que devem sua eminência ao sistema comunista  - como é o caso de Gorbachev e de todos os seus colegas – poderia imaginar um regime comunista sem um Partido Comunista dominante? Em suma, a Rússia será um Estado totalitário hoje e continua a ser um Estado totalitário até mesmo depois que as reformas tiverem sido completadas, ainda que um pouco mais benigno. De forma mais incisiva Jean-François Revel escreveu: “Como corrigir o socialismo e conservá-lo ao mesmo tempo, na medida em que as correções necessárias envolveriam a negação insofismável de todas as teses socialistas? Trata-se de algo equivalente à quadratura do círculo”.

Tratando dos problemas internos da URSS, bem como dos programas dos novos dirigentes para melhorar a produtividade das empresas, o nível técnico das indústrias e dos produtos, e a qualidade da administração, Grigory Zinoviev lembrou que tudo isso é fruto exclusivo das relações entre a URSS e o Ocidente. Sem o Ocidente, o estado presente da economia soviética e de seus sistemas de gestão seriam glorificados como o cúmulo da perfeição. Sem o Ocidente, as condições de vida da população soviética seriam glorificadas como se se tratasse de um paraíso sobre a Terra, quase um comunismo integral.

O Ocidente é a medida e o modelo de tudo o que se faz de sério na URSS. E então, já que o Ocidente existe, com a sua abundância e a sua variedade de bens de consumo, ele só pode despertar a inveja dos soviéticos que continuam à espera do paraíso em que “cada um receberá de acordo com as suas necessidades e dará de acordo com as suas capacidades”.

Alais Besançon escreveu: “Pedro, o Grande, queria realizar o modelo ocidental por meios não ocidentais. Já Lenin pretendia atingir um modelo não ocidental, isto é, o socialismo, fundamentalmente diferente do capitalismo, mas que só pode ser vislumbrado com a ajuda deste”. Isto é, pela imitação, seja ela real ou simbólica ( livro “Anatomia de um Espectro”).

Imitar o que se quer destruir, e sem perder, diante do modelo imitado – que é, aliás, de acordo com a ideologia, “a encarnação do mal” – a própria identidade. Tal programa, de quadratura do círculo, não estaria de antemão condenado ao malogro? Mas não é ele, no fundo, o próprio programa de Gorbachev? Assim, o que é e o que pode ser, de fato, o gorbachevismo?
Zinoviev responde: “É, no essencial, uma reestruturação verbal, isto é, um fluxo de discursos, resoluções, decisões, artigos de imprensa, materiais especialmente selecionados pelos mass media a serviço da ideologia e da propaganda”.

Um sistema tem a sua lógica interna, um arranjo próprio das partes e um modo de estas se relacionarem que não pode ser mudado por decreto ou simplesmente porque se tem o desejo de mudá-la. Se se toca no essencial do sistema, o que se pode fazer em lugar de modificá-lo na direção que se deseja, sem atentar para a viabilidade desta, é levá-lo a sua destruição. Ora, a última coisa que pode passar pela cabeça de um dirigente soviético, seja ele Kruschev, Brejnev, Andropov, Tchernenko, Gorbachev ou Putin, é destruir o sistema ao qual deveram suas carreiras.

Dentro do quadro acima exposto, a perestroika não pode ser senão uma revolução verbal, mesmo porque os gorbachevistas não chegaram ao Poder para liberalizar e democratizar a sociedade soviética, mas para ocupar uma posição pessoal na hierarquia social, para reforçá-la e para servir-se dela em seus próprios interesses. Foi isso o que fizeram Kruschev, Brejnev e Andropov.

Gorbachev, nascido em 1931 e tendo ingressado no Partido em 1952, um ano antes da morte de Stalin, não estava comprometido e nem poderia estar, em virtude sua idade, direta ou indiretamente com Stalin e com o stalinismo. Ele e os seus poderiam, tranqüilamente, reescrever a História, ressuscitando ‘não pessoas” e mandando outras para o esquecimento, criticando os crimes de Stalin e os erros dos seus antecessores. Poderiam ter feito a revisão da História sem correr riscos, antes auferindo enormes vantagens. Nesse contexto, poder-se-á entender que a chamada glasnost é, assim como a perestroika, uma arma poderosa nas mãos dos novos donos do Poder, que podem jogar nas costas de seus antecessores, especialmente Stalin, todas as mazelas do sistema, tendo sempre em vista os interesses do Partido e tendo cuidado para não pisar na Nomenklatura.

Intocável continua sendo, apenas, a figura mumificada de Lenin, garantia da legitimidade dos ocupantes do Poder. Assim, a figura de Lenin paira acima de qualquer possibilidade de crítica, já que o sistema se apóia nela e no seu culto.

Observa-se, finalmente, que em momento algum o kamarada Gorbachev admitiu pôr em discussão as bases e os fundamentos do sistema; em momento algum admitiu que o marxismo-leninismo pudesse  ser posto em discussão.

Ainda que a ideologia soviética tenha “esfriado”, tornando-se ritualizada, ela continua, pelo menos em relação aos membros do partido – que só nela podem encontrar, acreditem ou não no que dizem, a legitimação do seu poder -, a funcionar como uma prisão do pensamento e da ação, sendo talvez o obstáculo maior para o êxito de qualquer reforma verdadeira, que implique em uma verdadeira transformação do país.
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O texto acima é um resumo do capítulo “Construindo uma Ilusão”, do livro “O Gorbachevismo, Hipóteses e Conjeturas”, de autoria de Roque Spencer Maciel de Barros, editado em 1988 pela Editora Convívio. 


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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