sexta-feira, 24 de junho de 2016

Kruschev e sua necrofagia política


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

​Kruschev e sua necrofagia política são os culpados pelo pesadelo do novo Holocausto, executado por um profundamente anti-semita Irã, armado com bombas nucleares, e uma perigosa Coréia do Norte. Kruschev gostava de se mostrar como um camponês, mas isso era uma coisa enganadora. Em todos os lugares do mundo, camponeses têm senso de propriedade.

Kruschev não tinha. Ele amadureceu politicamente num período no qual os comunistas soviéticos estavam inclinados a erradicar a propriedade privada, e ele desenvolveu uma natureza sobretudo destrutiva. Kruschev derrubou estátuas de Stalin, abalou a imagem da União Soviética como paraíso dos trabalhadores, destruiu a reputação de Pio XII, demoliu a unidade comunista internacional, reviveu o anti-semitismo e gerou o atual terrorismo, tudo isso sem construir nada que preenchesse o vácuo criado. Kruschev também pôs abaixo a política de Stalin de não proliferação de armas nucleares.

Conforme Igor Kurchatov, um Oficial de Inteligência que chefiara o equivalente soviético do Projeto Manhattan, Stalin era uma espécie de Gepeto, o carpinteiro italiano que esculpiu um pedaço de madeira que podia sorrir e chorar como uma criança. O Pinóquio de Stalin foi a sua primeira bomba nuclear. Ele a batizou de “Iosif-1”.No dia 29 de setembro de 1949, quando Beriya telefonou para ele do campo de testes do Cazaquistão para dizer que “Iosif-1” tinha produzido a mesma devastadora nuvem em forma de cogumelo que o “Homem Gordo” americano, Stalin chegava ao topo do mundo.

“Naquele dia, Stalin jurou guardar o poder nuclear consigo”, teria dito Frédéric Joliot-Curie, em agosto de 1955, na Conferência de Genebra sobre o Uso Pacífico da Energia Nuclear, realizada pela ONU. O físico nuclear e famoso comunista francês estava com Stalin, no escritório deste, quando Beriya ligou do local do teste. 

Tudo mudou depois que Stalin morreu. Depois de matar os líderes da polícia política da União Soviética e os seus potenciais rivais, Kruschev precisava de um impulso positivo e, assim, decidiu consertar o rompimento não declarado de Stalin com a China, por meio de algo estrondoso. No começo de 1955, ele aprovou o pedido de Mao para ajudar o seu país a produzir armas nucleares. Isso, junto com a necrofagia política de Kruschev, abriu uma Caixa de Pandora.

Em abril de 1955, Kruschev elaborou uma iniciativa conjunta para ajudar a China a produzir armas nucleares. O KGB, que tinha – e ainda tem, como FSB, na sua encarnação atual – custódia de todas as armas nucleares da União Soviética, coordenou a operação. Os especialistas patrocinados pelo KGB começaram, então, a construir os fundamentos da nova indústria militar nuclear da China, que era expressamente planejada para ter por alvo “o sionismo americano”.

Cinco anos depois, contudo, as relações entre Kruschev e Mao-Tsetung começaram a azedar. O líder chinês foi ficando crescentemente insatisfeito com a “desestalinização” realizada por Kruschev e entendeu literalmente a sua política de coexistência pacífica com o Ocidente. Ele rotulou Kruschev de “brando com o imperialismo” e o acusou de abandonar os princípios comunistas.

Em conversas com lideranças comunistas da Romênia, o Primeiro-Ministro de Mao, Chou en-Lai, confidenciou que Mao se cansara de Kruschev e começara a demonstrar abertamente o seu descontentamento. Chou em-Lai, falando um francês fluente, descreveu para seus anfitriões romenos como Mao “fumava como uma locomotiva” durante suas reuniões com Kruschev, apesar de saber da aversão do líder soviético a cigarros. Pior ainda, durante uma reunião, em Pequim, em 1958, Mao, que era nadador olímpico, levou seu convidado para uma piscina, embora sabendo que Kruschev não sabia nadar. Foi hilário, disse Chou em-Lai, ver Kruschev se sacudindo de um lado para outro numa bóia, enquanto Mao nadava como um peixe.

Quando Kruschev foi ao Terceiro Congresso do Partido dos Trabalhadores da Romênia, em Bucareste, em junho de 1960, ele atacou publicamente Mao-Tsetung, e recebeu, por sua vez, uma vigorosa resposta do chefe da delegação chinesa.

Poucas semanas depois desse Terceiro Congresso, o bloco soviético teve uma amostra da necrologia política de Kruschev e da sua tendência destrutiva de fazer com que cada decisão sua criasse problemas. Kruschev repentinamente retirou todos os conselheiros soviéticos da China e deu fim a todos os projetos conjuntos. De acordo com os chineses, Moscou retirou 1.390 especialistas, rompeu 343 contratos e descartou 257 projetos de cooperação no curso de poucas semanas.

O projeto conjunto de arma nuclear estava entre eles, mas a essa altura os chineses já sabiam o suficiente para continuar por contra própria. Dados fornecidos por várias agências de Inteligência norte-americanas atestam que, em meados dos anos 1980, a China estava produzindo pelo menos 400 quilos de plutônio 239 por ano. A capacidade exata do Poder estratégico chinês ainda é relativamente desconhecida – ao menos fora dos EUA -, mas em 1996 o número de ogivas era estimado em 2.500, com mais 140 a 150 sendo produzidas anualmente.

Kruschev não sobreviveu aos seus próprios esforços de proliferação nuclear. No entanto, ele de fato, deu a partida na produção dos “Iosif-1” de Stalin na Coréia do Norte e gerou o Irã nuclear de Ahmadinejad.
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O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “Desinformação”, escrito pelo Tenente-General Ion Mihai Pacepa – foi chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando importantes atividades do órgão por ele chefiado, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos do Século XX -, e pelo professor Ronald J. Rychlak - advogado, jurista, professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi, consultor permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros -. O livro foi editado no Brasil em novembro de 2015 pela editora CEDET.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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