sexta-feira, 3 de junho de 2016

Manifesto do Partido Comunista


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“Um espectro ronda a Europa. O espectro do comunismo. Todas as potências da Velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o Papa, o Czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha”. Assim começa o Manifesto do Partido Comunista.

E suas últimas linhas constituem uma franca e brutal declaração de guerra à nossa sociedade, tachada de “velha sociedade”, condenada pela dialética da História: “Os comunistas não se dignam dissimular suas idéias e projetos. Declaram abertamente que não podem atingir seus objetivos senão destruindo, pela violência, a antiga ordem social. Que as classes dirigentes estremeçam à idéia de uma revolução comunista, pois os proletários nada têm a perder com ela, a não ser suas próprias cadeias. E têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos”, 
- Socialismo e Comunismo

- O Socialismo tem uma longínqua raiz na eterna luta entre ricos e pobres;os que têm e os que não têm.Na realidade, para que se pudesse falar de socialismo era necessário que surgisse o proletariado, classe nova e desconhecida até o final do Século XIX.

O termo socialismo teria sido imaginado em 1832 por Pierre Leroux, em oposição ao individualismo.

Os chamados socialistas utópicos – Saint Simon, Owen, Louis Blanc e Proudhon – imaginavam sociedades futuras sob as mais diversas formas. Eram, por isso, chamados de utópicos.

Louis Blanc, por exemplo, propôs, em 1839, aoficina social, que agruparia os operários de um mesmo ofício, cabendo ao Estado financiar a oficina, regulamentá-la e regularizar a sua produção. Nesse sentido, o Estado seria o banqueiro dos pobres, fornecendo-lhes instrumentos de trabalho, substituindo o governo do acaso por um governo científico.

Proudhon escreveu, em 1840, a Primeira Memória sobre a Propriedade, criticando os lucros sem trabalho e afirmando que “a propriedade é um roubo”. Nesses escritos, ele deixava entrever aTeoria da Mutualidade (igualdade estabelecida pela troca de serviços), e tratava com repugnância, com furor, aqueles que, na época, se denominavam comunistas.

- Comunismo: esse termo ressaltava a ação de tornar os bens comuns. Doutrina dos operários desiludidos com a política e os políticos, nada mais esperando senão uma transformação fundamental da sociedade.
Em Maio de 1839, uma insurreição operária, liderada pela Liga dos Justos, foi esmagada em Paris pelo Exército e pela Guarda Nacional. Os principais líderes eram intelectuais e operários alemães refugiados na França, que tiveram que abandonar o país. As dissenções internas, especialmente as de fundo doutrinário, minavam aLiga dos Justos e, além disso, seus militantes eram perseguidos pelas polícias de vários países.

Esses socialistas utópicos buscavam adaptar á sua doutrina a cada situação política. Esse era o quadro em que viriam a intervir dois jovens teóricos ainda desconhecidos: Karl Marx e Friedrich Engels. Juntos, chegaram aomaterialismo dialético que, aplicado ao estudo das sociedades, deu lugar ao surgimento domaterialismo histórico.

Em 1847, um primeiro Congresso, realizado em Londres, decidiu a constituição da Liga dos Comunistas, ou Associação Internacional dos Trabalhadores, ou ainda I Internacional. Em setembro desse ano, surge a Revista Comunistacom a seguinte palavra de ordem em seu cabeçalho: “Proletários de todos os países, uni-vos”, que substituía a antiga, da Liga dos Justos: “Todos os homens são irmãos”, apontada como demasiada impressa de “devaneios amorosos” e “debilitante”.

Nesse primeiro número, que também seria o último da Revista Comunista, lia-se: “Não são os comunistas que querem aniquilar a liberdade pessoa e fazer do mundo uma grande caserna ou uma grande oficina”.

No II Congresso, realizado em Londres, em novembro/dezembro de 1847, a Liga dos Comunistas adotou os estatutos da Liga Internacional dos Trabalhadores e decidiu publicar um manifesto, o Manifesto do Partido Comunista, cuja redação foi confiada a Marx. Esse Manifesto só viria a ser concluído e publicado em 1848. Foi iniciado com a seguinte frase: “Um espectro atormenta a Europa, o espectro do comunismo”.

Dividia-se em quatro partes: Burgueses e Proletários (que é o núcleo e a parte vital do Manifesto); a segunda parte, intitulada Proletários e Comunistas, explica a posição dos comunistas em relação ao conjunto dos proletários; a terceira parte, sob o título Literatura Socialista e Comunista, passa sarcasticamente em revista as diversas formas “reacionárias”, “da pequena burguesia”, “conservadoras ou burguesas”, “crítico-utópicas”, do movimento social da época. A quarta parte, brevíssima, assinala a posição dos comunistas em relação dos demais partidos, acentuando que eles – os comunistas - apóiam quaisquer movimentos revolucionários contra o Estado social e político existente, situando, em primeiro plano, como questão fundamental, a questão da propriedade.

O burguês, o proletário e o comunismo são os três protagonistas do desenvolvimento histórico, cujas leis objetivas, Marx e Engels pretenderam revelar, levando em conta, simultaneamente, o passado o presente e o futuro… Nas duas primeiras partes do Manifesto – sobretudo na primeira – acha-se enunciado, sob os seus mais diversos aspectos, aquilo que, no prefácio à edição de 1883, Engels denominou “idéia fundamental e diretriz do Manifesto”, assim explicitada por ele:

“A produção econômica e a organização social que dela resulta, necessariamente para cada época da história, constituem a base da história política e intelectual dessa época (...).Toda história tem sido a história da luta de classes, da luta entre as classes exploradas e as classes exploradoras, entre classes dirigentes e classes dirigidas (...). Essa luta chegou presentemente a uma fase em que a classe explorada e oprimida do proletariado não mais pode se libertar da classe que a explora e oprime – a burguesia - sem libertar, ao mesmo tempo e para todo o sempre, da exploração, opressão e lutas de classes, toda a sociedade”.

A passagem acima, de Engels, é fundamental para a compreensão do Manifesto Comunista.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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