quarta-feira, 15 de junho de 2016

Marcas do KGB


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

No dia 20 de fevereiro de 1963, uma peça intitulada Der Stellvertreter. Em Christliches Trauerspiel – O Vigário. Uma Tragédia Cristã -, estreou no Theater AM Kurfürstendamm, da Berlim Ocidental, sob a direção de Erwin Piscator do Freie Volksbühne – Teatro do Povo Livre). A peça se focava na alegação de que o Papa Pio XII tinha falhado em agir, ou manifestar-se, contra o Holocausto promovido por Hitler.

Posteriormente, poucos meses depois de O Vigárioter sido lançado na Broadway, um ícone do jornalismo americano – I. F. Stone -, publicou um forte artigo culpando a Igreja Católica de ter exercido certo papel na emergência do fascismo.

Anos depois, escrevendo em seu próprio jornal semanal, insinuou que Pio XII tinha medo de Hitler. Documentos do KGB posteriormente publicados no livro Vassiliev Archive mostram que I. F. Stone (nascido Isidor Feinstein), autor do artigo acima mencionado, era um agente soviético. Tinha sido originariamente recrutado pela NKVD em 1936 tendo por base sua formação ideológica e recebera o codinome de “Blin” (“panqueca”, em russo).

Interceptações feitas em 1944 pelo Projeto Verona de comunicação confidencial e criptografada dos soviéticos, mostram que Stone tinha, então, um novo orientador na NKVD, Vladimir Pravdin, com quem concordou encontrar-se regularmente e a quem indicou que nãio seria avesso a ter uma “renda suplementar”.   

Em um telegrama enviado para Moscou, Pravdin recomendou à sede da NKVD que, se essa relação de “negócios” fosse acordada, então Stone teria que fazer a sua parte e realmente produzir interceptações posteriores feitas pelo Venona que por volta de dezembro de 1944 a relação de negócios funcionou, e Stone estava sendo pago em segredo sobre assuntos que lhes eram recomendados por Moscou. Ao longo de toda a sua carreira, os textos de Stone indicam que ele continuava a ser utilizado pela Inteligência soviética como um canal de dezinformatsya.

O comunismo soviético consistia em trabalhar unicamente para mudar a mente das pessoas. Mudar mentes também era a principal tarefa de Stone como espião soviético. Ele era famoso em sua época, e certamente um investimento compensador para a NKVD/KGB. Hoje se sabe que é bem mais que coincidência o fato de que seus textos expressassem a posição da União Soviética em tantas questões: ao demonizar as políticas para a Coréia de John Foster Dulles, general McArthur e presidente Truman; ao condenar os esforços norte-americanos para evitar a expansão comunista no Vietnã; ao desmerecer o FBI e embaraçar J. Edgar Hoover; ao difamar o Papa Pio XII – o arquiinimigo do KGB – e culpar a Igreja Católica pela perseguição nazista aos judeus; ao apoiar os esforços do Kremlin de persuadir o mundo de que não havia envolvimento soviético no assassinato de Kennedy; além de muitas, muitas outras questões similares. Mesmo as questões pelas quais ele pode ser louvado hoje, o que inclui sua oposição à discriminação racial e ao macarthismo, estão em total sincronia com a posição soviética da época.

A fama de Stone e o seu estilo cáustico tiveram imensa importância em chamar a atenção para O Vigário e fazer da peça uma cause célebre. Mais ainda, a irmã de Stone, a crítica esquerdista de teatro Judy Stone, contribuiu com uma entrevista amigável com Hochhuth, que foi publicada na revista Kamparts na primavera de 1964.

Em 1963, quando O Vigário estava começando a causar reboliço em Berlim e a criar divisão entre católicos e judeus, uma editora, financiada pelo KGB e estabelecida nos EUA, a Liberty Prometheus Book Club, republicou um velho livro, que ecoava as acusações feitas em O Vigário. Tratava-se do livro Shylock: História de um Caráter, de Hermann Sinsheimer, que focava o maltrato de judeus pelos Papas e outros cristãos. Como o KGB esperava, o livro veio a ter circulação nos principais canais de mídia, nos quais autores simpáticos a O Vigáriocontinuaram a promover a peça.

A Liberthy Prometheus Book Club pertencia em parte a Carl Aldo Manzani, comunista americano, nascido italiano e ativo agente soviético dedezinformatsya, recrutado provavelmente antes da II Guerra Mundial. Depois da guerra, ele cumpriu 32 meses de prisão por esconder sua afiliação ao Partido Comunista quando trabalhava no Departamento de Estado. Após ser solto, dedicou-se a várias empreitadas arriscadas de publicação de títulos esquerdistas, para o que recebia subsídios do KGB.

Documentos no Arquivo Mitrokhim mostram que ao longo dos anos, Marzan, cognominado “Nord” pelo KGB, o que, em alemão, significava “Norte”, recebeu somas substanciais de dinheiro para que sua editora Liberty Book Club (cognominada “Sever”, “Norte”, em russo) produzisse material pró-soviético. Marzani também recebia 10 mil dólares anuais para fazer publicidade agressiva desses livros.

Anos atrás, a Inteligência soviética freqüentemente utilizava palavras alemãs para designar seus agentes no exterior, provavelmente porque muitos dos seus agentes recrutadores vinham da Europa Central e falavam essa língua. O fato de que Marzani tivesse um codinome alemão dá apoio à sugestão de que ele fora recrutado antes da guerra.

No inicio de 1960, a Estação da KGB em New York, que operava Marzani, mandou um telegrama criptografado a Moscou, recomendando que lhe fosse dado um adicional de 6 a 7 mil dólares, para que a Liberty Book Club pudesse continuar a publicar material pró-soviético.

Em maio de 1960, o Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista Soviético, que era responsável por dar apoio financeiro àdezinformatsiya nesse caso, aprovou uma subvenção de 15 mil dólares, mais que o dobro do que a Estação do KGB em New York solicitara.

Foi coisa inteiramente incomum o Departamento Internacional do Partido Comunista Soviético ter sido levado a se envolver com planos que, à primeira vista, pareciam ser operação de DESINFORMAÇÃO inteiramente comum e rotineira em funcionamento há anos. Mas ainda: embora o telegrama da Estação do KGB em New York tenha sido enviado à sede do KGB em Moscou, pela linguagem inflada do pedido de fundos fica claro, em retrospecto, que o telegrama era destinado ao Departamento Internacional, pois a sede do KGB financiava Marzani há anos e não precisava ser informada do que ele fazia ou sobre o quanto ele era bom no que fazia. Também é particularmente notável que mais que o dobro da soma requisitada tenha sido aprovado com rapidez.

A significância dessa troca de telegramas se encontra no período em que ocorreu: início de 1960. Foi em fevereiro de 1960 que Kruschev aprovou um vigoroso plano operacional, totalmente confidencial, para destruir a autoridade moral do Vaticano e aio mesmo tempo manchar a reputação dos EUA. O plano fora concebido pelo diretor do KGB, Aleksandr Shelepin, junto a Alexei Kirichenko, o membro do Politburo responsável pela política internacional.

A operação deveria ser implementada conjuntamente pelo KGB e o Partido Comunista, isto é, no caso deste último, o seu Departamento Internacional. O telegrama é uma prova de que o KGB incumbiu imediatamente as suas Estações no exterior de contribuir, do modo que pudessem com essa ofensiva, do mesmo modo como o DIE – Serviço de Inteligência romeno – fora designado para procurar quaisquer documentos possíveis do Vaticano.

Em 1963, surgiu nos EUA o primeiro livro sobre o assassinato de Kennedy – Oswald: Assassino ou Bode Expiatório? -, publicado por Marzani. Esse livro, escrito por Joachim Joesten, que já se provou ser um agente do KGB, alegava que a CIA havia matado o presidente Kennedy, mas, assim como O Vigário, não oferecia prova alguma para apoiar a acusação.

A primeira resenha do livro de Joeste foi assinada por um jornalista americano também pago pelo KGB, Victor Perlo (identificado como agente soviético por Elisabeth Bentley e Withaker Chambers e nas interceptações eletrônicas do Projeto Venona). A resenha positiva de Perlo foi publicada no New Times (um front do KGB em determinada época impresso secretamente na Romênia), o qual trazia outras nove matérias sobre o assassinato, todas acusando elementos dos EUA de terem cometido o crime.

Perlo também escreveu uma das primeiras resenhas laudatórias de O Vigário, também para o mesmo front do KGB, o New Times. Muitas pessoas nos EUA e ao redor do mundo estão convencidas, ainda hoje, de que a CIA estava por trás do assassinato do presidente Kennedy. Muitas pessoas, mundo afora, também continuam a acreditar em outra das mentiras do Kremlin: a de que Pio XII foi o “Papa de Hitler”.
 
O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “Desinformação”, escrito pelo Tenente-General Ion Mihai Pacepa – foi chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando importantes atividades do órgão por ele chefiado, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos do Século XX -, e pelo professor Ronald J. Rychlak - advogado, jurista, professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi, consultor permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros -. O livro foi editado no Brasil em novembro de 2015 pela editora CEDET.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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