domingo, 12 de junho de 2016

Um depoimento de Ion Mihai Pacepa, ex-chefe do Serviço de Inteligência da Romênia (2)

Ion Pacepa

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O Tenente-General ION MIHAI PACEPA foi Chefe do Serviço de Inteligência da Romênia e o principal conselheiro do ditador Nicolae Ceausescu. Desertou para os EUA em julho de 1978, onde vive até hoje. A seguir o final de seu depoimento, transcrito do seu livro DESINFORMAÇÃO:
Em 1978, quando rompi com o comunismo, deixei no cofre de meu escritório um pedaço de papel no qual o general Aleksandr Sakharovsky, chefe da comunidade de serviços de espionagem do bloco soviético, havia escrito Gutta cavat lapidem, non vi sed saep ecadendo – Uma gota faz buraco em pedra não pela força, mas pingando  constantemente -. Era assim que a DESINFORMAÇÃO funcionava: gota por gota. Levaria tempo, mas sempre que você não pudesse usar uma furadeira esse era o melhor modo de fazer um buraco.

Este livro, escrito em parceria com o professor Ronald J. Rychlak, uma das principais autoridades em direito internacional, história da religião e Papa Pio XII, foi concebido com a intenção de colocar em linguagem clara as obras descritas daquelagutta, para que todos a vissem.

Quando me apartei do bloco soviético, fui, claro, incapaz de levar comigo papéis que pudessem documentar tudo o que eu sabia sobre a imensa máquina de DESINFORMAÇÃO do Kremlin e suas operações super-secretas. DESINFORMAÇAO se tornou a peste bubônica da nossa vida contemporânea. Marx usou de DESINFORMAÇÃO para descrever o dinheiro como instrumento odioso de exploração capitalista. A DESINFORMAÇÃO de Lenin trouxe o comunismo utópico de Marx de volta à vida. Hitler recorreu à DESINFORMAÇÃO para retratar os judeus como uma raça inferior e nojenta, de modo a assim racionalizar o Holocausto.

DESINFORMAÇÃO também foi uma ferramenta utilizada por Stalin para empobrecer um terço do mundo e para transformá-lo em uma corrente de gulags. A DESINFORMAÇÃO de Kruschev ampliou a fenda entre cristianismo e judaísmo. A DESINFORMAÇÃO de Andropov voltou o mundo islâmico contra os EUA e deflagrou o terrorismo internacional que hoje nos ameaça. DESINFORMAÇÃO também gerou desrespeito mundial, e até mesmo desprezo pelos EUA e seus líderes.

Durante a Guerra fria, DESINFORMAÇÃO também começou a infestar as praias dos próprios EUA. Em 2004, quando a guerra no Iraque passou por dificuldades, tornou-se uma espécie de política americana não-oficial. Apesar de a guerra ter sido, com folga, autorizada por 296 deputados e 76 senadores de ambos os partidos, a mídia desdenhou dela como ”a guerra de Bush”. Logo, “Bush mentiu, pessoas morreram” se tornou o slogan do Partido Democrata, cujos líderes se esqueceram de que eles próprios haviam votado a favor da guerra. O senador democrata Tom Daschle, líder da minoria, chamou o presidente Bush de “um infeliz fracasso”. O capacho, à entrada do escritório do presidente nacional do Partido Democrata, Terry McAuliffe, exibia uma foto do presidente americano com os dizeres “Mandem Bush embora”.

Eu não tive o privilégio de nascer nesta singular terra da liberdade, mas cresci com a foto do presidente norte-americano pendurada na parede de nossa casa, em Bucareste. O meu pai, que passou a maior parte de sua vida trabalhando para a afiliada da General Motors na Romênia, amava a América, mas nunca pisou neste país. Para ele, a América era simplesmente o lugar dos seus sonhos, a milhares de milhas de distância, e o presidente americano era um símbolo tangível. Ao fim da II Guerra Mundial, tivemos o presidente Truman na parede do nosso lar. Para nós, e para muitos milhões de pessoas mundo afora, ele tinha salvado a civilização da barbárie do nazismo. Ele tinha restaurado nossa liberdade, por algum tempo. Por meio da Voz da América ficamos sabendo que a América amava Truman, e nós amávamos a América. Era simples, assim.

Eu ainda vejo o presidente americano como símbolo do maior país do mundo. Para mim, ele encarna a essência da nossa singular democracia: um governo do povo, pelo povo e para o povo. Presidente dos EUA não é um cargo meramente representativo, como nas democracias parlamentares. O presidente americano é o chefe do Poder Executivo, seu principal diplomata, guardião da economia e comandante-em-chefe da mais poderosa força militar do planeta. O presidente americano também chefia o melhor Serviço de Inteligência do mundo. Uma federação cooperativa de 16 agências de governo que são vitais para a segurança da nação e a paz no mundo.

Em 2007, o Wall Stret Journal publicou o meu artigo “Propaganda Rediviva”, no qual eu expunha o uso daninho da DESINFORMAÇÃO pelo Partido Democrata para denegrir o presidente dos EUA, num esforço para vencer as eleições nacionais. Criticar o presidente dos EUA é coisa tão americana como a torta de maçã. Retratá-lo como inimigo do seu próprio país é, contudo, um fenômeno não-americano, contrabandeado para dentro dos EUA pela máquina de DESINFORMAÇÃO do KGB durante a guerra-fria. O meu DIE foi um dos contrabandistas.

No sanctum sanctorum do império soviético, ao qual outrora pertenci, retratar o líder de um país como seu próprio inimigo se chamava “necrofagia política”. Constituía um ramo separado, altamente sigiloso, da “ciência” da DESINFORMAÇÃO. Embora o marxismo declarasse em alto e bom som, que o papel decisivo no curso da História deveria caber ao “povo”, todos os ocupantes dos tronos soviéticos acreditavam firmemente que só o líder importava. Dos lábios do próprio Kruschev eu ouvi, muitas vezes: “Mude a imagem pública do líder, e assim você mudará a História”.   

Como observei previamente, a necrologia política do Kremlin foi lançada em 26 de fevereiro de 1956, quando Kruschev expôs os crimes de Stalin em um “discurso secreto” de 4 horas. Ele obteve sucesso em destruir o que restava de administração russa por Stalin. Depois de Kruschev, a necrofagia política se tornou regra no Kremlin. Brejnev acusou Kruschev de ter destruído a unidade do mundo comunista. Quando chegou a vez de Gorbachev, este acusou Brejnev de ter devastado a economia da União Soviética. Gorbachev mandou prender até alguns parentes de Brejnev, numa clara tentativa de provar que a economia fora arruinada por indivíduos corruptos, não pelo marxismo. De sua parte, Yeltsin acusou aperestroika de Gorbachev de “levar o país à ruína”; e, em seguida, Putin culpou Yeltsin pela “derrota da União soviética, a maior catástrofe do século”.

Pela minha experiência, a necrofagia política é uma espada de dois gumes, traiçoeira. A mesma técnica de DESINFORMAÇÃO utilizada pelos líderes para consolidar e ampliar o seu Poder por meio da difamação dos seus antecessores, é inevitavelmente voltada contra eles próprios pelos seus sucessores. Por muito tempo as coisas foram assim com os líderes comunistas do bloco soviético. Correndo o risco de me repetir, permitam-me lhes recordar que a morte de Kruschev levou-o a ser denunciado por Brejnev por ter minado a tradicional admiração da Rússia pelo seu chefe, com o novo líder fazendo-o indigno de um enterro no Kremlin junto a chefes de governo russos prévios e até se recusando a pagar pelo seu túmulo.

De igual modo, quando Ceausescu foi executado em 1989, a Suprema Corte romena determinou que esse tirano romeno tinha subvertido o apreço tradicional da Romênia pelos seus líderes de maneira tão grave, que ele não merecia nem caixão e nem sepultura, em vez disso jogaram seu corpo dentro de um saco e o abandonaram em um estádio.

Na minha outra vida, passei décadas analisando em minúcias os EUA desde lá, a Europa, e aprendi que o respeito internacional pela América é proporcional ao próprio respeito da América pelo seu líder eleito. Nos anos 1950, quando eu era chefe interino da missão diplomática romena na Alemanha Ocidental, ouvia com freqüência pessoas na rua dizendo que os “Amis” (apelido alemão para as forças de ocupação americanas) tinham feito a diferença entre sua danação e sua salvação.

A “danação” seria, claro, a Alemanha Oriental, cujos cidadãos estavam lutando sob privação econômica e brutalidade da Stasi. Mas isso foi naquela época. As mentiras sob presidentes americanos, espalhadas durante a Guerra Fria pela máquina de DESINFORMAÇÃO do Kremlin, acabaram por deflagrar um desgosto ou até mesmo um desprezo pela América em boa parte da Europa e do resto do mundo. Em 1978, quando rompi com o comunismo, a máquina de DESINFORMAÇÃO do bloco soviético tinha supostamente reunido 700 milhões de assinaturas em vários apelos internacionais que culpavam a América por todos males do mundo. Até pela fome na Etiópia.

Agora a necrofagia política se espalhou pelos EUA e está erodindo o nosso prestígio internacional. Durante 2002, um grupo de 128 intelectuais americano que se opunham à noção de que “guerra ao terror” fosse “apenas guerra”, enviou uma carta aos seus pares europeus pedindo “uma crítica lúcida e franca da política de guerra de Bush”. Logo os governos europeus e a opinião pública começaram a denegrir os EUA com quase a mesma ferocidade que tinham durante a Guerra do Vietnã.

A França e a Alemanha acusaram os EUA de torturar prisioneiros da al-Qaeda detidos em sua prisão militar na baía de Guantánamo, em Cuba. O jornal inglês Mirror noticiou que os EUA estavam “matando inocentes no Afeganistão”. O jornal parisiense Le Monde publicou um artigo de capa, escrito por Jean Baudrillard – figura respeitada entre professores norte-americanos de Humanidades, nos últimos 25 anos – afirmando que o Ocidente judaico-cristão, liderado pelos EUA, não apenas provocou os ataques terroristas do 11 de setembro. Na verdade os desejou.

Robert Kennedy, que não está entre minhas personalidades de maior apreço, certa vez escreveu: “Não concorro à presidência apenas para me opor a alguém, mas para propor novas políticas. Concorro porque estou convencido que este país segue num caminho perigoso e porque tenho forte intuição sobre o que precisa ser feito”. Kennedy compreendeu em que consiste a presidência, independentemente do que possamos pensar sobre o que ele planejasse fazer, se eleito.

O respeito da própria América por esta república singular e pela vontade de seu povo foi gravemente prejudicado pela “ciência” da DESINFORMAÇÃO. Ajudar meus companheiros americanos a restaurar esse respeito é outro objetivo deste livro.

Os EUA são o líder do mundo livre, mas certamente não são um país perfeito. Como o expressou outro americano orgulhoso, a América como todas as nações é uma reunião de seres humanos e seres humanos são conhecidos por, ocasionalmente, tomarem más decisões, serem egoístas, ignorantes ou insensatos. Mas essa America imperfeita manteve quase que sozinha, a paz, a liberdade e a democracia vivas nos últimos 100 anos. No começo do Século XX, as democracias do mundo eram menos de uma dúzia. Desde que o imperfeito EUA passou a ser reconhecido como líder mundial, 80% dos países do planeta Terra passaram a ser democracias ou proto-democracias.

Esse EUA imperfeito também se tornou a força da ciência e tecnologias mundiais. Dos 4,5 milhões de patentes registradas mundo afora desde 1790, os EUA detém mais da metade – 2,5 milhões -. Dos 629 prêmios Nobel de medicina, química, física e economia ganhos no mundo todo, os EUA têm 305. Os EUA também são os líderes mundiais em inovação na internet, música, filmes e numerosos outros campos que requerem pensamento ilimitado, inventivo. Da Apple à Dream Works Studios, e ao Amazon, os EUA são os maiores inovadores do mundo.

Os EUA têm sido um farol para o mundo inteiro. Qual é o  segredo? Para todos os emigrantes que desembarcam em Ellis Island, sem falar inglês e com 10 dólares no bolso , o que encontraram nesse novo país foi uma liberdade sem paralelo.

No dia 22 de março de 2003, um desses imigrantes – este escritor – publicou uma carta aberta aos generais do Iraque que ainda estavam combatendo as nossas tropas. “Façam o que fiz”, eu lhes disse. “Voltem suas armas contra o tirano do seu país. Afastem-se do seu ditador antes que seja tarde demais. Exponham ao mundo os crimes dele contra a humanidade, como fiz com os crimes cometidos por Ceausescu. Prendam o seu tirano fugitivo, como meus colegas generais prenderam Ceausescu em dezembro de 1989, quando ele se escondeu numa tentativa de escapar da onda revolucionária que varria ditadores comunistas da face da Europa Oriental. Façam Saddam pagar pelos seus crimes, como Ceausescu pagou pelos deles. Com a vida”.

Este livro é outra carta aberta, desta vez escrita em parceria com o professor Rychlak (cujos ancestrais imigraram da Polônia para cá) e endereçada a todos os nossos companheiros americanos. Rejeitamos a distribuição marxista da riqueza, a qual transformou tantos países nobres em áreas similares a campos gigantescos varridos por um furacão, com os seus líderes queimando no inferno de Dante.

De fato, todos os redistribuidores marxistas que guiaram algum país, terminaram no inferno. Todos, de Trotski a Stalin, de Tito a Zhivkov, de Enver Hoxha a Máthias Rakosi, de Sékou Touré a Nyerce, de Kruschev a Ceausescu. Todos tiveram seus dias de glória passageira, mas todos terminaram em desgraça eterna. Uns poucos sobreviventes, como os irmãos Castro, ainda estão resistindo, mas certamente já têm um lugar no inferno à sua espera.

Também rejeitamos, de uma vez por todas, a “ciência” marxista da DESINFORMAÇÃO, suaglasnost e sua necrofagia política que foram utilizadas de maneira tão destrutiva ao longo dos anos para esmagar as liberdades e levar países à bancarrota. Reconheçamo-las onde estiverem – e as exponhamo-las com todas as nossas forças – quando essas campanhas assomarem em toda a sua feiúra. Retornemos ao nosso excepcionalismo americano e às suas tradições de patriotismo, honestidade e justiça. Os Estados Unidos da América são o maior país da terra. Mantenhamos as coisas assim para as próximas gerações.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Impressiona-nos o potencial diabolico da mente humana para criar realidades paralelas a servico do mal. A Ponerologia analisou o "misterio da iniquidade" de que falava o apostolo Paulo.