terça-feira, 19 de julho de 2016

A Classe Trabalhadora no Estado de Todo o Povo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O comunismo é um sistema de poder totalitário no qual uma casta burocrática e privilegiada, reunindo pela primeira vez no mundo moderno todos os instrumentos do Poder nas mesmas mãos, possui ao mesmo tempo os meios de produção e de troca e todos os meios de enquadramento político e cultural, dos quais se serve ditatorialmente.
Eis uma síntese para recordar o que o maior brasileiro de seu tempo, Carlos Frederico Werneck de Lacerda, escreveu no prefácio do livro "Em Cima da Hora", de Suzanne Labin, editado no Brasil em 1964, traduzido por Lacerda antes de março de 64.
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O regime soviético, etiquetado de socialista, tem um especial empenho em impedir que a classe operária possa dar expressão política em seus conflitos pelo Poder. Isso compromete mais gravemente do que qualquer declaração de intelectuais, seu principal título de legitimidade, que é o de representar a classe operária. Além disso, constitui o desmentido prático mais eloqüente ao suposto caráter do regime.

Invocando esse título de representante da classe operária, o regime põe fora da lei o recurso à greve. À manifestação ou a qualquer outra forma de ação de massas, bem como toda e qualquer tentativa de organização política ou sindical que não seja a oficial, com o argumento contundente de que a classe operária não pode fazer greve ou organizar-se contra si mesma. Os que tentam fazer isso dão uma demonstração de fraqueza mental,sendo internados em asilos psiquiátricos,para tratamento.

A ausência de greves ou de conflitos entre os trabalhadores e o Estado é apresentada pelo aparelho de propaganda como prova definitiva da identificação do regime com a classe operária.

Para assegurar que os fatos não desmintam essa realidade, o regime conta com uma imensa rede policial, presente em cada empresa.

Essa ação policial, no entanto, não seria suficientemente eficaz sem a estrutura político-sindical-administrativa, estabelecida em cada centro de trabalho, controlando o comportamento dos operários. Os agentes dessa estrutura provêm, em grande parte, de uma camada da classe operária que, em troca de cumprir esse papel, recebe um tratamento preferencial no que diz respeito ao salário, moradia, férias, etc.

Outros mecanismos contribuem eficazmente para o conformismo e a passividade da classe operária. Entre os mais importantes, figura o relacionado com a segurança no emprego. Pois, ao existir um único patrão - o Estado -, sobre o qual os assalariados não têm o menor controle, a efetividade dessa segurança está totalmente vinculada ao grau de acatamento que cada operário manifeste ao Estado, pois não há possibilidade de encontrar outro patrão.

Ao não pode trabalhar, o indivíduo coloca-se fora da lei, que pune o “parasitismo”, transformando-se em um parasita social e colocando-se ante o dilema de sofrer a condenação correspondente: cárcere ou asilo psiquiátrico. Ou fazer uma autocrítica de sua conduta anti-soviética.

“Não tereis liberdade, mas lhes asseguraremos um nível aceitável de satisfação das necessidades materiais”. É esse o pacto social que vige sob o socialismo, onde a classe operária não exerce a mínima influência sobre as decisões da NOVA CLASSE; que dispõe dos meios de produção, da própria produção, compra a força de trabalho da classe operária e despoja-a, pela força bruta, do excedente – a mais-valia -, que emprega para fins hostis, com o objetivo de reforçar e ampliar seu poder sobre a sociedade e sobre o mundo.

Em 1977, quando do sexagésimo aniversário da Revolução de Outubro, 40 personagens de oposição assinaram um documento dirigido ao Soviete Supremo, solicitando anistia aos presos políticos, inclusive aos internados em hospitais psiquiátricos, aproveitando que nova Constituição fora aprovada.

Levaram em conta que essa Constituição consagrava solenemente todos os direitos e liberdades inexistentes na prática.

A negação, na realidade, decorre do próprio texto, quando estabelece, no artigo sexto, que “O Partido Comunista da União Soviética é a força que dirige e orienta a sociedade soviética”. A partir desse princípio, a declaração de que “todo Poder pertence ao povo” e que este o exerce através dos sovietes eleitos, é simples retórica, destinada a dar uma fachada democrática à ditadura do partido único, a qual, na realidade, é a ditadura do aparelho, da NOVA CLASSE que se transformou em grupo dirigente e que se reproduz a si mesma mediante a cooptação de seus membros, à margem de qualquer controle do povo, ao qual o poder pertence.

Finalmente, após 99 anos da Revolução Bolchevique, verifica-se que pelo menos em dois aspectos o socialismo difere do capitalismo: os burocratas assumiram o lugar dos patrões, e no lugar do livre mercado passou a existir o Plano.    
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O texto acima foi transcrito de um dos capítulos do livro “A Hidra Vermelha”, editado em 1985, e reeditado em 2016 por um grupo de amigos.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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