quarta-feira, 13 de julho de 2016

A Essência do Comunismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O comunismo contemporâneo é produto de uma série de causas históricas, econômicas, políticas, ideológicas, nacionais e internacionais. Uma teoria categórica sobre sua essência não pode ser inteiramente exata.

A essência do comunismo contemporâneo não poderia ser observada enquanto, no curso de sua evolução, ela não se revelasse até as entranhas. Esse momento chegou, e não poderia deixar de chegar porque o comunismo entrou numa fase particular de desenvolvimento: a maturidade.

Tornou-se possível, então, revelar a natureza do seu poder, de suas formas de propriedade e ideologia. Enquanto o comunismo ainda evoluía e nele predominava a ideologia, era quase impossível devassá-lo completamente.
Ele se revelou gradualmente, na medida em que se desenvolvia, e ainda não se pode considerá-lo como consolidado, por não ter completado sua evolução.

A maioria das teorias sobre o comunismo, entretanto, encerram alguma verdade. Mostram alguns aspectos dele ou de sua essência.

Há, sobre esse assunto, duas teses básicas. A primeira classifica o comunismo contemporâneo como uma forma de religião nova. Mas ele não é religião e nem Igreja, embora contenha elementos de ambas.

A segunda tese apresenta o comunismo como um socialismo revolucionário, isto é, algo que nasceu da indústria moderna, ou do capitalismo, e do proletariado e suas necessidades. Na verdade, o comunismo contemporâneo começou em países bem adiantados como uma ideologia socialista e uma reação contra o sofrimento das massas trabalhadoras, na revolução industrial. Depois, porém, quando atingiu o Poder em regiões subdesenvolvidas, transformou-se em algo inteiramente diferente: um sistema de exploração que se opõe aos interesses do próprio proletariado.

Já se formulou também a tese de que o comunismo contemporâneo seja apenas uma forma de despotismo, posta em prática tão logo certos homens chegam ao Poder. A natureza da economia moderna, que demanda em todos os casos a administração centralizada, possibilitou a esse despotismo tornar-se absoluto. O comunismo como uma forma moderna de despotismo, não pode deixar de aspirar ao totalitarismo.

O comunismo – e conseqüentemente a sua essência – está constantemente mudando de uma forma para outra. Sem essa mutação, ele não poderia sequer existir.

A teoria de que o comunismo atual é uma forma de totalitarismo moderno é a mais difundida e a mais exata. O comunismo contemporâneo é uma forma de totalitarismo que consiste em três fatores básicos para o controle do povo: o primeiro é o Poder, o segundo é a Propriedade, e o terceiro, a Ideologia. São monopolizados por um único partido político. Uma Nova Classe. Nenhum sistema totalitário na História conseguiu reunir, ao mesmo tempo, todos esses fatores para exercer sobre o povo tal grau de domínio. A única exceção é o comunismo.

Quando se examinam e se pesam esses três fatores, verifica-se que o Poder é o que desempenha o papel mais importante no desenvolvimento do comunismo. Pode ser dito que o Poder, seja material, intelectual ou econômico é parte de toda luta e de toda ação social humana. Todavia, o comunismo contemporâneo não é apenas o Poder. É algo mais, pois une em si o controle das idéias, da autoridade e da propriedade.

Mas o Poder é o mais importante: na revolução ele é necessário para tomar o governo; na construção do socialismo, para criar um novo sistema; e hoje o Poder preserva esse sistema. Entretanto, devido ao fato de estar se extinguindo como ideologia, o comunismo busca manter o Poder como meio de controle do povo. Além disso, o Poder é tanto um meio como um objetivo para os comunistas, a fim de que possam manter seus privilégios e seu “direito” de propriedade, pois é somente por meio do Poder que a propriedade pode ser exercida.

O Poder é o alfa e ômega do comunismo contemporâneo. Idéias, princípios filosóficos, considerações morais, a Nação e o povo, sua história, em parte até mesmo a propriedade, podem ser sacrificados e alterados, mas não o Poder, pois isso significaria a renúncia do comunismo à sua própria essência. O Pode é tanto a fonte como a garantia dos privilégios, e por meio dele exercem-se os privilégios materiais e o direitode propriedade da classe dominante sobre os bens nacionais. Em suma, o Poder determina o valor das idéias e suprime ou permite a expressão delas.

Dessa forma, o Poder do comunismo contemporâneo difere de todos os outros tipos de Poder, e o comunismo difere de todos os demais sistemas conhecidos, pois tem que ser totalitário, exclusivista e isolado, precisamente porque o Poder, como já foi explicitado, é o seu elemento essencial.

Finalmente, afirmar que o comunismo contemporâneo representa a transição para alguma outra coisa que ainda não se conhece, não explica nada e não leva a nenhum resultado, pois todas as coisas estão em transição para algo diferente.     
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O texto acima é mais um resumo de um dos capítulos do livro “A Nova Classe”, de autoria de Milovan Djilas, um dos dissidentes e contestadores dos regimes comunistas. Foi Ministro, Vice-Presidente e principal teórico do Marechal Tito, na Iugoslávia. Desiludido com as propostas do Stalinisno e mesmo com a linha política adotada por seu país, foi afastado de suas funções no governo e expulso do Comitê Central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia. Esteve preso por um período de 3 anos, quando escreveu “A Nova Classe”, numa época em que, segundo ele,“acreditava ainda poder ser um comunista, permanecendo, ao mesmo tempo, um homem livre” 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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