sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Hidra Vermelha - Introdução


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é a Introdução ao livro “A Hidra Vermelha” que, quando escrito, em 1985, foi dedicado “àquele punhado de companheiros que erradicaram o terrorismo, os seqüestros, os assaltos e os assassinatos de cunho político do território pátrio. Aos companheiros que não transigem e que não se retraem no combate ao comunismo, que não corromperam suas convicções, e àqueles que sacrificaram suas vidas e cujos familiares nada exigem da Pátria e de seus governantes, a não ser um mínimo de coerência”.O livro foi reeditado agora, em 2016, pela editora Observatório Latino, graças a um grupo de amigos.
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Cento e um anos após a morte de Karl Marx, sua doutrina, dita científica, permanece viva e atuante em todo o mundo, bem como suas frases incendiárias: “Proletários de todos os países, uni-vos”, “A violência é a parteira da História”, “O proletariado é o coveiro da burguesia”.
Marx não foi original. A doutrina que recebeu seu nome foi extraída das três correntes mais avançadas da intelectualidade européia do século passado: o socialismo francês e inglês – Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen -; a economia política inglesa – especialmente Adam Smith -; e a filosofia clássica alemã, representada pelo sistema dialético de Hegel e pelo materialismo de Fuerbach.

Esses foram chamados de socialistas utópicos, pois não encaravam a mudança da sociedade por um processo revolucionário, pela ação de uma classe social. Não falavam em nome do proletariado. Diziam agir em nome da humanidade e queriam instaurar o reino da razão e da justiça eterna.
Sempre extraindo algo dos pensadores que o antecederam, Marx e seu contemporâneo Friederich Engels, deram vida ao materialismo dialético – forma de explicar a evolução do mundo, da natureza e do homem – e ao materialismo histórico – que interpreta a razão e causa dos fenômenos sociais -, convertendo a doutrina filosófica materialista num meio e numa arma ideológica na luta pela transformação da sociedade.

Baseado na “Liga dos Justos”, organização criada secretamente em Paris, em 1836, pela fração mais radical dos revolucionários alemães exilados e, mais tarde – em 1847 –, transformada em “Liga dos Comunistas”, Marx e Engels conceberam, em 1848, o internacionalmente famoso “Manifesto Comunista”, cujo fecho é o célebre chamado aos proletários de todo o mundo: “Proletários de todos os países, uni-vos!” (Os redatores do Manifesto não eram proletários. Se fossem, teriam escrito “Proletários de todos os países, unamo-nos!”).

Hoje, é quase impossível encontrar um partido comunista ou socialista que mantenha o marxismo tal como Marx o idealizou. Sua doutrina foi transformada em dogmas e vem sendo adaptada às mais diversas “circunstâncias objetivas” de cada país.

As interpretações do marxismo começaram quando Marx ainda era vivo: o marxismo-leninismo, que é o marxismo oficial de todos os partidos comunistas; o marxismo crítico, surgido em alguns países da Europa Oriental; o marxismo de cunho ocidental, que se divide em pelo menos seis ramificações: o marxismo alemão, marcado pelo revisionismo de Berstein e Kautsky; o marxismo revolucionário radical, de Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht; o marxismo francês, de Lucacks e Henri Lefebre, que rompeu com a ortodoxia dos PC’s; o marxismo estruturalista, de Louis Althusser; o marxismo italiano, de Antonio Gramsci; e o marxismo chinês, conhecido como Pensamento de Mao-Tsetung.

Tenta-se até conciliar o pensamento de Marx com a tradição liberal democrática, através do desenvolvimento de uma Terceira Via, batizada de Eurocomunismo, que se posicione, eqüidistante, entre o socialismo e o comunismo. Uma Terceira Via nem tão branda, que possa ser tachada, pejorativamente, de reformista, e nem tão radical, que pareça ser esquerdista.

Nessa tentativa comprometem-se comunistas, socialistas e liberais.
Embora Marx não possa ser responsabilizado por cada particularidade da opressão vermelha – pois realmente seria ridículo acusá-lo pelos Gulags, pelos expurgos de Stalin, pelas invasões da Polônia, Checoslováquia, Hungria e Afeganistão – sua doutrina legitimou e autorizou dois traços capitais do socialismo realmente existente:

- o fim das “liberdades burguesas”, abrangendo uma série de direitos civis, políticos e sociais;

- a obstinada tentativa de suprimir a economia de mercado, concentrando todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado.

Embora em toda a sua obra, de milhares de páginas, Marx só tenha utilizado onze vezes a expressão “ditadura do proletariado”, teve em Lenin um aplicado estrategista desse conceito. Lenin instrumentalizou a teoria do Estado, na obra “O Estado e a Revolução”, e a do Partido, em “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, que serviriam de salvo-conduto para o Stalinismo, que viria a seguir.

O marxismo-leninismo, usando o hífen para unir termos não equivalentes e até mesmo contraditórios, foi uma criação da Era Stalinista.

Embora todos os homens sejam idênticos por natureza, são todos igualmente diferentes conforme o sexo, a idade, o temperamento, a inteligência, o caráter, etc. Essa verificação é um dado não apenas simplesmente científico, mas também resultante da simples observação.
Em qualquer sociedade, há uma hierarquia social composta de governantes e governados, grupos de funcionários, operários, juízes, médicos, camponeses, etc.

Até mesmo a teologia cristã comporta divisões, pois a hierarquia angélica abrange os Anjos, Arcanjos, Potestades, Virtudes, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins. Os homens, salvos e gloriosos, por sua vez, estarão divididos no Paraíso conforme o seu grau de graça e glória, pois, como disse Jesus Cristo, “na casa do meu Pai há muitas moradas” (João, 14.2).
 
O socialismo – estágio inferior do comunismo – propõe-se a eliminar as desigualdades entre as pessoas e a criar o homem novo. As desigualdades, no entanto, persistem e se desenvolvem nos países onde quer que o socialismo tenha sido implantado.

Os operários que, nesses países, teoricamente assumiram o Poder, não têm o direito de opinar, exceto quando se lhes pedem que aprovem, ritualisticamente, as decisões ou as proposições elaboradas pela Nova Classe, enquistada nas esferas superiores do Partido e do Estado. Os operários foram transformados num capital coletivo, administrado por uma burguesia estatal.

Essa burguesia estatal - a Nova Classe – alterou o vocabulário e estimula a confusão semântica: chamam de “autônomo” o impotente, de “federativo”, o que é monolítico, de “democrático’, o que é autocrático, de “unido”, o que é cismático, de “popular”, o que é imposto pela força, e de  “pacífico” o que incita à guerra.

Em termos gerais, as pessoas contrárias ao socialismo, no mundo ocidental, podem ser divididas em três grupos:

- as procedentes de nações cativas, cujos países estão, ou estiveram, sob a tirania comunista, e que, por isso, conheceram o exílio. Sabem muito bem o que significa o comunismo, e têm, também, um conhecimento profundo dos métodos que utiliza;

- os residentes em países divididos, como a China e a Coréia. Os que vivem nas partes livres desses países sabem que enquanto os comunistas permanecerem em qualquer parte de seus territórios, eles nunca estarão seguros.

- os que nunca sofreram nada e nem experimentaram na própria carne a sociedade imposta pelos comunistas. Nesse grupo, no qual estão os países da Europa Ocidental, as Américas – com exceção, ainda, de Cuba – e grande parte da Ásia, é grande a disparidade de percepção do perigo comunista.

Esta publicação, baseada em uma pesquisa em livros, revistas e artigos de jornais, destina-se às pessoas deste último grupo.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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