segunda-feira, 25 de julho de 2016

A KGB - Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti (Comité de Segurança do Estado)


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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O mito de uma ditadura da “maioria esmagadora” sobre uma “ínfima minoria”, lançado por Marx e Engels em seus escritos de juventude, retomado mais tarde por Lenin, jamais ocorreu. Na realidade social uma ditadura é, e será sempre, a dominação de uma ínfima minoria sobre uma esmagadora maioria, que só pode afirmar seu poder pela intimidação e a coação. Pelo terror.

Toda ditadura é um Estado policial.Isso não significa que sua polícia seja particularmente bem organizada, pelo menos a polícia comum. Assim, a milícia soviética recebe apenas uma instrução irrisória e é pobremente equipada, o que faz com que esse país não seja, longe disso, um porto de segurança, pois ali a criminalidade seja menos elevada do que, por exemplo, nos EUA, é maior do que na Europa Ocidental. Um Estado policial dispõe de uma poderosa polícia secreta, encarregada de perseguir, não os ladrões e assassinos, mas os dissidentes. Na URSS, seus efetivos são consideráveis e adequadamente instruídos e equipados.

George Orwell pôs muito bem em relevo a propensão das ditaduras em disfarçar seus “sabujos” sob a camuflagem de designações nobres: Em “1984”, a polícia secreta é chamada de “Ministério do Amor”. Se bem que a Nomenklatura não possa decidir-se por um tal eufemismo, experimentou uma quantidade de denominações retumbantes para designar sua própria polícia secreta: TCHEKA – Comissão Extraordinária Panrussa de Luta Contra a Revolução e a Sabotagem; GPU – Direção Política Principal; NKVD – Comissariado do Povo para os Assuntos Internos; NKGB – Comissariado do Povo para a Segurança do Estado; MGB – Ministério da Segurança do Estado; MVD – Ministério dos Negócios Internos; KGB – Comitê de Segurança do Estado. Essa série designa uma única e mesma administração, constituída a partir de dezembro de 1917, apenas um mês após a Revolução de Outubro.

A propaganda da Nomenklatura não se cansa de elogiar a humanidade e a generosidade “dos órgãos”. De Felix Dzerjinski, seu primeiro chefe, ela fez dele o “Cavaleiro sem Medo da Revolução”. Suas estátuas estão diante dos edifícios que abrigam os serviços da KGB – em Moscou e em outros lugares -, e os gabinetes de seus funcionários, que muitas vezes só têm o seu retrato como decoração.

Como “os órgãos’, então chamados TCHEKA, funcionavam sob a direção do “Cavaleiro sem Medo”? O professor Milliukov pintou, impassível, o seguinte retrato: “Cada destacamento da TCHEKA tin há sua tortura preferida. Em Kharkov, os tchekistas escalpelavam os prisioneiros, ou descobriam os ossos de suas mãos arrancando-lhes as “luvas”. Em Verobej, colocavam suas vítimas em barricas cheias de pregos em seu interior, e começavam, então, a fazê-las rolar. Ainda em Veronej apicavam um ferro em forma de uma estrela de cinco pontas, em brasa, na testa do supliciado e colocavam na cabeça dos padres coroas feitas de arame farpado. Em Tsarytsin e Kamychin, cortavam seus prisioneiros com serra. Em Poltava e Krementchuk, faziam-lhes sofrer o suplício da empalação. E, Iekaterinoslov, crucificavam-nos e lapidavam-nos. Em Odesa, queimavam os oficiais em caldeirões ou despedaçavam-nos. Em Kiev, fechavam suas vítimas em caixões que continham cadáveres em decomposição, enterravam-nos vivos e os desenterravam após meia hora.

Vendo-se o que se passava no interior, pode-se, pois, facilmente – ou melhor, dificilmente – imaginar o que se passava na Lubianka. Num romance publicado em 1923,m em Moscou, Ilia Ehrenburg fala da Lubianka (não o Ehrenburg deprimido e mordaz dos anos 50, mas aquele que, de volta da emigração, estava ainda embriagado pela atmosfera de liberdade que respirara em Paris): “Tomaram posse da casa ... uma casa comum. Ali se instalaram e cometeram tais atrocidades que qualquer pessoa pelafrente da casa tremia, mesmo no calor do verão, e mudava de calçada por precaução. Para despertar alguém em sobressalto, bastava-lhe gritar LUBIANKA. A pessoa baixaria, então, os olhos, fixando seus pés descalços, despedir-se-ia dos seus e, em seguida, mesmo que se tratasse de de alguém jovem, um gigante em pleno vigor, explodiria em prantos, como um garoto. Desde a época de Lenin e de Dzerjinski, Lubianka era um lugar onde o sangue corria, onde lhe partiam a alma, onde o mais ínfimo garoto de quepe se dava ares de Gengis Khan”.  

O coronel Stepan Gavrilovitch Korneiev, do Comitê de Segurança do Estado (que os cientistas ocidentais conhecem como chefe da administração das relações internacionais da Academia de Ciências) perguntou-me, um dia, se a simples visão da Lubianka era mesmo suficiente para me aterrorizar, acrescentando: “Muitas pessoas afirma que têm medo apenas de passar diante de nosso edifício, onde tantos horrores seriam cometidos”.

É incontestável que numerosos crimes foram cometidos na Lubianka, os carrascos de ontem desapareceram, suas cercanias não são mais freqüentadas pelos indivíduos apressados que ali eram vistos nos tempos de Stalin. A frieza e a fixidez de seus olhares traíam, à primeira vista, a natureza de suas ocupações. Estaria ali o reflexo de suas almas perdidas, ou o estigma das tarefas ignóbeis às quais se entregavam dia e noite?

A recusa em denunciar constituía um delito, mas a Nomenklatura preferia a persuasão e não somente a força; queria educar-nos e fazer de nós delatores orgulhosos de sê-lo. O ato de delatar nos era pintado como inteiramente normal. Durante a Ejovchitchina, os escolares, cujos pais tinham sido presos, eram obrigados a comparecer a uma reunião do Komsomol, onde lhes era feita, regularmente, a pergunta: “Como pôde você, membro do Komsomol, viver sob oi mesmo teto com um inimigo do povo – seu pai ou sua mãe –, sem tê-lo desmascarado e denunciado à NKVD?

Numerosos livros, que dariam para encher uma biblioteca, foram dedicados aos “órgãos” e ao terror policial na União Soviética. Nas suas descrições dos crimes da TCHEKA, GPU, NKVD, MGB, KGB, aqueles autores dão a impressão de que os “órgãos” se compunham de uma tropa de criaturas demoníacas, das quais emanava um poderio quase místico. Não e o caso. P. I. Pavlovtsev, chefe da divisão do pessoal do Escritório de Informações, que trabalho durante muitos anos nos “órgãos”, dizia, no início dos anos 50, ainda no tempo de Stalin: “O MGB não é um ícone, mas uma administração soviética”. Os gostos pessoais de Pavlovtsev determinaram a escolha de sua comparação, mas sua assertiva é perfeitamente exata: a KGB é uma administração da Nomenklatura. Não é, de jeito nenhum, o lugar de criaturas satânicas, mas um refúgio de nomenklaturistas, que não são nem melhores nem piores dis que os das outras administrações.

A propaganda comunista se compraz em pintar os colaboradores da KGB sob os traços de proletários que asseguram a defesa da Revolução com suas mãos calejadas. Pelo contrário, muitos ocidentais imaginam que os funcionários da KGB são intelectuais de gênio transviado, meio Sherlock Holmes meio James Bond, o que não corresponde, de modo algum, à realidade. Os colaboradores dos “órgãos” são, de fato, burocratas típicos, muito bem pagos, que se aferram a seus postos com toda a  energia, e tentam ressaltar-se aos olhos de seus superiores. Os intelectuais que, extraordinariamente, vão dar na KGB, são rapidamente rejeitados, ou, pelo menos, lá não fazem carreira.

Os colaboradores dos “órgãos” são de um rigor militar, e dão testemunho de uma obediência à toda prova aos seus chefes. Seus raciocínios não procedem da categoria da lógica, mas das pseudopsicológicas do pessoal de carreira. O fundamento de seus pensamentos podem ser assim resumidos: não se precisa ter fé em nenhuma palavra de seus companheiros, pois eles não têm ideal e nem poderiam tê-lo, já que nada mais aspiram a não ser um máximo de conforto em sua vida cotidiana, estão, portanto, prontos a tudo para atingir seus fins. Esses funcionários têm, destarte, uma parcela de boa fé quando classificam os dissidentes entre os portadores de desvios psicológicos.

Os colaboradores do KGB são de um extremo conservantismo e deram por sentido às suas vidas impedir toda evolução da sociedade soviética para qualquer liberalização. Sentem, naturalmente, uma nostalgia escondida do período stalinista, época abençoada em que eram temidos por todos, inclusive pelos altos funcionários da Nomenklatura, idade de ouro em que – como os nomenklaturistas costumam dizer – “ordem” e “autoridade” não eram palavras vãs. Não seriam hostis ao retorno dessa “ordem”, mas não desejam mais as ondas de terror à Ejov ou à Béria, que foram marcadas pelas depurações sangrentas até em suas próprias fileiras. Os membros da KGB constituem um dos pilares essenciais da classe dominante dos nomenklaturistas. Assim como ela, aspiram à segurança e desejariam ver sua perenidade garantida par sempre.

Sem dúvida alguma, têm plena consciência de que realizam um trabalho sujo, mas isso não parece provocar crise moral entre eles. Consideram a defesa e a supremacia de sua classe como vital, e justificam seus métodos, para acalmar sua consciência, procurando persuadir-se de que todos os homens nada mais são do que porcos. Para abafar seus últimos escrúpulos, a Nomenklatura cultiva o espírito de casta entre os colaboradores do Comitê de Segurança do Estado.Sempre com o mesmo objetivo exaltam o sentimento de sua superioridade, o mito do heroísmo tchekista, a inflexibilidade diante do inimigo, a fidelidade, e outras virtudes da SS. Sim, é isso mesmo do que se trata, sua ideologia pode ser resumida inteiramente na fórmula de Himmler: “Nossa honra se chama fidelidade”. Nos países libertados do fascismo e do nazismo, a honra se chama de novo honra.

Devemos nos compadecer, muito justamente, das inumeráveis vítimas do terror policial dos nomenklaturistas, mas os funcionários da KGB merecem, também, nossa piedade, embora os remorsos não os acometam, têm consciência da repulsa que inspiram a seus concidadãos. Enquanto no tempo de Stalin arvoravam com orgulho a insígnia de “Tchekista de Honra”, e continuavam a usar uniforme e quepe quando se apresentavam, hoje procuram esconder seu passado de tchekista. As pessoas os evitam. Jamais serão encontrados numa sociedade, nem mesmo na dis nomenklaturistas do aparelho do Partido. Os únicos a não evitá-los são seus colegas da Justiça, procuradores e outros magistrados.

Os intelectuais não são os únicos a tratá-los dessa maneira, e os trabalhadores não se mostram, também, muito ternos para com eles. O que se manifesta há muito tempo através da pergunta capciosa: “Você é um homem ou é um miiliciano?” – a população soviética grupa os funcionários do MVD e da KGB sob esse mesmo termo de miliciano -.
Um sinal interessante de sua capitulação psicológica diante da aversão que suscitam nos é fornecido pela técnica que empregam quando procuram provocar o descrédito de alguém: espalham, simplesmente, o boato de que ele seria um agente da KGB. Pode-se ilustrar de maneira melhor o complexo de inferioridade sentido pelos nomenklaturistas do Comitê de Segurança do Estado?

A KGB é uma administração soviética e, com esse título sua atividade é planificada e deve prestar contas da realização desse plano. Seu sistema hierárquico é particularmente complexo, mas funciona como qualquer outro serviço administrativo: recompensas, reprimendas, reuniões do Partido, reuniões do Komsomol, fracassos, sucessos, passividade, intrigas, preguiça intelectual, elevação do pensamento de alguns, arrivismo, não falta nada. Entretanto, em nenhuma parte serão encontrados traços de infabilidade, da sociedade legendária, que alguns leitores crédulos da imprensa ocidental, continuam a lhe prestar.

Há decênios os “órgãos” se acostumaram a lidar com seres desarmados e a proceder com eles de maneira impiedosa, o que não necessita um material muito elaborado: basta u’a mão vigorosa, técnica aperfeiçoada deste os tempos de Dzerjinski. Por outro lado, é pouco provável que os “órgãos” sejam capazes de elaborar recursos intelectuais, mesmo de organização, para vencer um adversário consciente que não se deixaria paralisar por sua reputação.

Está totalmente fora de cogitação o fato de que a KGB desencadeie novamente expurgos sangrentos? Se bem que uma tal evolução seja pouco verossímel, não se pode ter nenhuma garantia nesse campo. A União Soviética conheceu períodos – a NEP, por exemplo – durante os quais tudo parecia indicar que os “órgãos’ tinham ganho em moderação, mas um desencadeamento do terror logo vinha por termo a essa ilusão.

Vamos reler a declaração que fez um jornalista soviético sem partido, ao correspondente do Frankfurter Zeitung, Hermann Pörgen: “Qualquer um que goze de certos privilégios, faz todo o possível para conservá-los, o que faz com que a necessidade de proteção jurídica seja sentida cada vez mais fortemente. A própria GPU sofreu essa evolução. Houve um tempo em que era uma polícia secreta toda de inteira autonomia. Hoje, está no plano de uma administração ordinária, obrigada ao respeito à legalidade, no plano de uma instância que não pode mais imiscuir-se na vida dos outros funcionários - exceto na vida de todos os cidadãos -, nem usurpar suas prerrogativas”.

Essa declaração poderia aplicar-se, palavra por palavra, à situação atual, mas ela data de 1936, quando as trevas da Ejovchichina começavam a cobrir o país.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

.

acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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