sábado, 23 de julho de 2016

A Nomenklatura - Uma classe parasitária


Outra análise da obra de Michael S. Voslensky. A Nomenklatura. Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética. Record – 4ª edição, 1980.

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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O leitor, que jamais viu um nomenklaturista, com o texto abaixo terá uma idéia do que é essa classe, do seu parasitismo, da sua ética e da sua natureza profunda.

Na definição marxista de classes não existe a classe parasitária, pois cada classe ocupa um lugar definido no processo de produção social, representando aí um determinado papel. Uma classe torna-se parasitária desde o instante em que rentabilidade social diminui, passando a custar mais à sociedade do que ela lhe rende. O processo se manifesta em dois níveis: os privilégios da classe à tendência parasitária, quer dizer, a parte que ela se outorga do produto nacional começa a aumentar, enquanto, simultaneamente, baixa o nível de sua própria contribuição para esse produto. O grau zero da rentabilidade social se situa no ponto de intersecção dos dois valores. Se bem que se trate aí de fenômenos sociais complexos, esse esquema, de aparência mais geométrica, mantém todo o seu valor.  

Por que a Nomenklatura manifesta essa tendência ao parasitismo? Não invocamos aqui esta ou aquela falta de ardor no trabalho: os nomenklaturistas são, em regra geral, pessoas ativas. Aquele parasitismo é de origem social. Decorre da posição de classe da Nomenklatura.
Na origem das tendências parasitárias de uma classe dominante, encontra-se uma situação de monopólio dessa classe.

Lenin escreveu em O Imperialismo, Estágio Supremo do Capitalismo: “Entretanto, como todo monopólio, ele engendra inelutavelmente ema tendência à estagnação e à putrefação. Na medida em que se estabelecem, ainda que momentaneamente, preços de monopólio, isso faz desaparecer, até um certo ponto, os estimulantes do progresso técnico e, em seguida, de qualquer outro progresso”.

Lenin não estava, pois, errado, em ver em todo o monopólio, e não apenas no monopólio capitalista, a causa principal do parasitismo da classe dominante. O grau de degenerescência depende do volume do monopólio. Quanto mais esse monopólio se estende, mais a concorrência é fraca – que se trate de uma concorrência econômica, política ou ideológica – e sente dificuldades em atacar esse monopólio, mais se acentuando a degenerescência parasitária da classe dominante, sua transformação em uma casta esclerosada que pesa sobre a sociedade, rouba-lhe sua substância sem nada lhe oferecer em troca.

Notam-se claramente no sistema capitalista sinais de parasitismo. Mas, nesse caso, trata-se de muito poderosos e não verdadeiros monopólios: a concorrência é, de fato, mantida. Na sociedade capitalista atual, o parasitismo se manifesta sob o aspecto de uma “tendência” à estagnação e à putrefação, própria de todo monopólio.

O problema é outro no seio do socialismo real, onde nada escapa ao monopólio da Nomenklatura. A classe nomenklaturista abafa, no nascedouro, qualquer tentativa de acusar seu monopólio. Parasitismo e estagnação podem, pois, instalar-se nela à vontade. Retomando o esquema de Lenin, pode-se dizer que, como classe, a Nomenklatura já foi muito mais longe do que o capitalismo, no caminho da degenerescência parasitária, ainda que, historicamente, seu aparecimento tenha ocorrido mais tarde.

E, de fato, porque a Nomenklatura trabalharia? É uma classe de exploradores, cujo nível de vida está assegurado graças ao trabalho dos outros. Como goza do monopólio do aliciamento, tem à sua disposição milhões de pessoas que controlam, em seu lugar, o processo de produção.

A atmosfera de intimidação que ela mantém sobre a população, graças a uma gigantesca máquina policial, lhe permite exercer sua ditadura e fazer quase tudo no domínio da política interna. Não ocorre o mesmo no domínio da política externa, e a Nomenklatura sabe que tem ainda muito a fazer nesse campo. Tudo o que faz a Nomenklatura é visando o seu interesse e não o interesse da sociedade. Gozando de um poder ilimitado nos domínios político, econômico e ideológico, a Nomenklatura conseguiu erguer tais defesas, e se isolar tão bem da população que, simplesmente, não tem mais necessidade de fazer o que quer que seja em favor da sociedade para permanecer no comendo. Basta-lhe o mecanismo da ditadura.

Toda classe social defende seus interesses. Não existem classes altruístas. Mas, uma classe dominante, cujo monopólio não é total, deve, em troca de sua posição de Poder, conceder algumas contrapartidas às outras classes. Mesmo isto é agora praticamente inútil para a Nomenklatura, e eis aí a razão profunda de sua rápida degenerescência parasitária.
Ora, essa ditadura da Nomenklatura custa caro à URSS.

De um ponto de vista histórico, ocorreram, de início, espantosas perdas de vida humanas, perdas pelas quais a Nomenklatura é responsável. O professor I. A. Kurganov calculou a diferença ente a cifra teórica da população, correspondente a uma evolução demográfica normal, e os números reais, para o período 1’917/1959: avaliou-a em 110 milhões de pessoas. Tal foi o tributo em vidas humanas que pagar à ditadura da Nomenklatura. Mais da metade dessas vítimas são pessoas que foram assassinadas, executadas, aniquiladas, nos campos de concentração, ou que morreram de fome.

No preço a pagar está, também, a pobreza da população. É a conseqüência da exploração, da incapacidade da Nomenklatura em desenvolver a economia do país, e adaptá-la às necessidades dos seus habitantes, em lugar de pensar somente em seus interesses de classe.

No preço a pagar, há, em seguida, o acréscimo contínuo do consumo da Nomenklatura. E aí, não fazemos menção somente aos repastos gastronômicos e às datchas oficiais, mas, sobretudo, às matérias primas e à força de trabalho dissipadas em proveito de interesses de classe: e àquela enorme máquina de guerra, àquele aparelho policial e ideológico, àquele expansionismo que nos leva além das fronteiras.

No preço a pagar, enfim, a liquidação da liberdade, o sufocamento de qualquer forma de pensamento independente, o freio às trocas intelectuais naturais entgre cidadãos de um mesmo país ou às trocas com o exterior. Dir-se-á que se trata, nesse caso, de elementos aparentemente abstratos, imateriais. De fato, o dano sofrido por causa disso, pela sociedade soviética, se situa tato no plano material quanto no plano intelectual. E isso aparece de maneira particularmente nítida ao nível das ciências e das técnicas.

O jogo combinado desses fatores impediu a Rússia pós-czarista de se unir ao grupo de países altamente industrializados. Nem os slogansrevolucionários, nem o desenvolvimento de uma poderosa indústria de armamentos podem mascarar o fato de que, sob o reinado da Nomenklatura, a Rússia continua um país social e politicamente atrasado. A fatura ér pesa, sobretudo para uma Nação, cujo problema essencial consiste em sobrepujar seu handicaphistórico.

Que benefício tem, pois, o país retirado do domínio da Nomenklatura?
Pode-se admitir que, sem a Nomenklatura a indústria pesada soviética não teria atingido o nível atual. Certamente que se poderia, durante o mesmo tempo, produzir mais bens de consumo, fazer progredir a indústria leve e a indústria agroalimentícia.

Esta industrialização pesada não constituiu um fim em si mesmo para a Nomenklatura. Foi para ela apenas uma etapa inevitável antes da preparação de ma indústria de armamentos. Se o poderio militar soviético atual é o que é, deve-o, com efeito, à Nomenclatura.

O balanço é indiscutivelmente positivo em alguns pontos: a moradia e os transportes são poucos custosos; a assistência médica é gratuita; construíram casas de repouso; livros, jornais, ingressos de cinema e teatro e concertos são baratos. Todas essas vantagens não representam, como já vimos, senão a contrapartida de que o trabalho é mal remunerado.

Podem-se apontar diferenças no que se refere a certas soluções adotadas pela Nomenklatura. Existe, por exemplo, na Rússia, um desemprego latente, que se opõe ao desemprego aparente dos países ocidentais. Uma tal fórmula apresenta, é certo, algumas vantagens, mas permite também manter os salários em um nível baixo, aumentando, portanto, a taxa de exploração. Poder-se-ia aprovar, também as tentativas da Nomenklatura, para fazer cessar certas infrações à moral pública, se o efeito obtido tivesse relação com os resultados negativos, nesta matéria, da filosofia de Lenin e dos golpes que aplicou à religião.

Finalmente, há uma semelhança espantosa que se constata entre essa atitude da Nomenklatura e as tentativas de Hitler para impor uma imagem “sadia e intacta” do nacional-socialismo. Eis aí tudo o que se poderia levar ao crédito da Nomenklatura, o que não é desprezível. Mas isso não contrabalança os milhões de vítimas, a pobreza, a opressão, e a manutenção da condição de um país atrasado.

Há que se compreender uma coisa: A Rússia é um país imensamente rico, mas que sempre foi governado de modo miserável: de inicio, os príncipes os bojares (grandes proprietários), depois os czares e os nobres, e hoje os Secretários-Gerais e a Nomenklatura.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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