sexta-feira, 1 de julho de 2016

A um jovem prodígio


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

Tido desde sempre por precoce, aos 16 anos ele tem a singularidade de conversar com os adultos, em vez de ficar o tempo inteiro bobeando no celular como os de sua idade. E foi sem cerimônia, o que é peculiar de sua geração, que ele me perguntou: "És monarquista ou republicano?".

Fiquei admirado com o teor e com a origem da pergunta. Para provocar, respondi de modo a confundir mais do que esclarecer, e disse: "No século XIX eu era monarquista; hoje, sou republicano". A mãe do rapaz interrompeu a conversa e o diálogo não foi adiante.

Para o caso de ele me vir a ler, aqui elucido o que falei. Mas antecipo que para compreender minha aparente (apenas aparente) incoerência, o nosso jovem cavalheiro terá que, impreterivelmente, considerar uma verdade simples e inelutável: em se tratando de humanidade, não existe perfeição. Se não tiver em vista esse pressuposto singelo, ele vai querer jogar na retranca e sacar algum argumento de bolso para fulminar o que estou explicitando.

Vamos à elucidação. Em 1889 (ano da "proclamação" da república), o Brasil padecia da inconstância própria dos jovens: um país com menos de sete décadas de idade. Tínhamos, em Dom Pedro II, um imperador que não era imperador, mas um rei; um rei que não gostava de reinar, só gostava de estudar. O que pouca gente sabe é que Dom Pedro II, se pudesse escolher, seria professor, não rei. Essa inclinação (sobretudo virtuosa) enfraquecia-o como estadista.

Foi então que, tirando proveito da situação, os "progressistas" derrubaram a monarquia e improvisaram uma república de mentirinha, sem ninguém que afirmasse os valores que o imperador personificava. Eu é que não apoiaria os republicanos naquela época! Até porque o imperador foi derrubado principalmente por andar pensando em reforma agrária, ensino público, essas coisas que, vindas de um verdadeiro estadista, visam ao bem da pátria.

E o que passa hoje? O Brasil ainda é jovem - com um pouco mais de experiência, é claro. Em pleno século XXI, embora raros, existem excêntricos que gostariam de restaurar a monarquia! Fará algum sentido? A quem vão entronizar como rei, se a tradição já se quebrou? Eu é que não vou apoiar!

Como se vê, lá eu era monarquista; aqui, republicano. Lá, os revolucionários conseguiram o que queriam e instalaram uma ditadura, a que chamaram "república". Hoje, quem pensa em restaurar a monarquia é um punhado de reacionários cujos propósitos atropelam a realidade.

Que há em comum entre uns e outros? Ora, em toda parte e sempre, reacionários e revolucionários têm a arrogante pretensão de, aos outros, impor as suas crenças, as suas convicções, as suas queridas utopias. Os
reacionários dizem "Áh, era muito melhor no tempo de..." Os revolucionários dizem "Ah, vai ser muito melhor quando..." No fundo, uns e outros imaginam que pode existir um mundo perfeito; e são incapazes de apreciar com equilíbrio as potencialidades do presente. E, acreditando infantilmente na perfeição, recusam-se a dialogar com o real. Ora, é fácil acreditar na perfeição daquilo que está ausente - esteja projetado no futuro ou no passado. Ah, mas é gostoso falar de utopia... Faz bem ao ego...

Em suma, reacionários e revolucionários querem reformar a sociedade, mas impondo, cada qual, a sua reforma. Quando têm sucesso, o resultado é ditadura, porque, no fim das contas, nos dois casos aplica-se a lei do mais forte. Eu cá não me identifico com nenhuma das duas tendências.

O rapaz deve ter achado mesmo estranha a minha resposta àquela pergunta.

O que haverá pensado? Sua mente brilhante deixará margem a interpretações rasas? Certo é que o assunto não admite conclusões ancoradas num catálogo de "verdades" previamente fixadas. A única certeza a priori é a de que qualquer sociedade, qualquer governo, qualquer obra será concretizada por pessoas imperfeitas.

Se o meu jovem amigo perguntar "o que é melhor, república ou monarquia?", vou responder: " depende!". Sim, depende da análise do caso concreto, sendo ilusória qualquer opinião pré-estabelecida. Sejamos menos dogmáticos e mais analíticos; menos utópicos e mais realistas; menos ímpeto e mais prudência. Quem despreza o equilíbrio está contra a natureza.


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

4 comentários:

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Senti-me como "em casa" com as referência feitas pelo articulista a D.Pedro II,ma minha opinião o melhor governante que já teve o Brasil,em todos os tempos. Ele dá de "10 X 0" em todos os outros,somados. Com ele terminou a época do Império e passou-se à República (1889).Mas essa república sempre foi deturpada,desde a sua implantação,e teria se dado até por disputas "amorosas",pela mesma mulher,entre comandantes militares da época.Este foi na verdade o único golpe militar dado no Brasil até hoje.Aí começou o que chamam erroneamente de democracia,mas que é OCLOCRACIA (= democracia degenerada,corrompida). O Imperador D.Pedro II era tão democrata,bem mais que os outros que se dizem tal,que permitiu a instalação da "Colônia Cecília",no Paraná,que era composta por anarquistas italianos liderados pelo médico Rossi,e que ficariam fora do alcance da autoridade do Imperador. Rossi e D.Pedro II tinham o compositor Carlos Gomes(O Guarani) como amigo comum,e foi este o responsável pela aproximação dos dois.Isso confirma a visão de Aristóteles,para o qual não importa a forma de governo,porém a virtude no seu exercício

Loumari disse...

Águas passadas não movem o moinho.
Mas Deus, o Pai Criador diz:

Eis que faço novas todas as coisas. (Ap. 21:5)

E Deus limpará dos seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. (Ap. 21:4)

Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente cedo venho. Ámen. Ora vem, Senhor Jesus!
A graça do nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós! Ámen. (Ap. 22:20)

Loumari disse...

Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria.
Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos.
(SALMO 26:5)

Loumari disse...

Os que semeiam em lágrimas cegarão com alegria.
Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos.
(SALMO 126:5)