sábado, 30 de julho de 2016

Culto da Personalidade


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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O culto da personalidade do Secretário-Geral do Partido “da classe operária” é o privilégio exclusivo do chefe supremo da classe dos nomenklaturistas. Existe, bem entendido, uma tendência ao culto dos primeiros secretários das repúblicas federadas, das regiões, das cidades e dos distritos nos países ainda comunistas: são feitas apreciações lisonjeiras sobre os talentos do dirigente local da Nomenklatura, mas este evitará deixar-se levar por esta onda imperiosa de admiração fingida, pois isso não é o apanágio do Secretário-Geral. Seu direito exclusivo ao culto da personalidade se reforça com o passar dos anos.

Na década de 40 era ainda comum fazer menção dos primeiros secretários das repúblicas federadas, das regiões, das cidades e dos distritos em termos elogiosos nos documentos oficiais das instâncias correspondentes do Partido, mas, nos nossos dias, isso seria inconcebível. Para os nomenklaturistas, o culto de Lenin serve de referência, toma, por vezes, dimensões grotescas, e torna-se objeto, na União Soviética, até de brincadeiras engraçadas.

A despeito disso, cada Secretário-Geral se esmera, na qualidade de chefe supremo da classe dos nomenklaturistas, em promover o culto de sua própria pessoa. Na situação ideal, atingida somente por Stalin, faz-se dele o par de Lenin. No livro, cheio de ingenuidades, que dedicou a Stalin, Henri Barbusse recorreu a uma expressão feliz para apresentar o fenômeno: “Stalin – é Lenin hoje”.

No caso de escola, o culto do líder vivo substitui o do falecido. Desaparecidos Marx e Engels, Lenin passou a figurar como o verdadeiro deus-vivo do marxismo. Mas, com sua morte, era preciso encontrar alguém para ocupar o seu lugar. Mas quem, então? Evidentemente o nomenklaturista número um, o Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética.

No entanto, o excessivo culto da personalidade que cerca o Secretário-Geral, não consegue esconder do resto do mundo que, na cúpula da Nomenklatura, se desenrola uma luta permanente, cujo objetivo primordial é, precisamente, o posto de Secretário-Geral – se bem que o Secretário-Geral em exercício seja pintado como um ser insubstituível, chamado praticamente desde o nascimento para ocupar a função suprema -.

A opinião pública ouve falar, freqüentemente, em “luta pelo Poder” no Kremlin, e a imagina, erradamente, como uma seqüência ininterrupta de divergências de opiniões, dando lugar a polêmicas ásperas, semelhantes àquelas que inflamam os parlamentos ocidentais. Nada disso ocorre no seio do CC do PCUS. O combate ali não se trava em torno da eloqüência parlamentar. É uma luta de fôlego longo, em torno da qual se tecem intrigas de uma sutileza tal que os meios políticos ocidentais provavelmente não conseguem entender.

A retórica só intervém na última fase – ainda que se possa hesitar em empregar esse termo ao falar de discursos, redigidos no jargão nomenklaturo-burocrático que os oradores se contentam em ler -, quando se trata de apagar, com formalidade política, os erros de que se tornaram culpados os adversários já vencidos. Enquanto a armadilha não tiver funcionado, não se tornando pública, esforça-se, pelo contrário, em adormecer a desconfiança do rival através de demonstrações renovadas de amizade.

Eis porque é perda de tempo procurar encontrar sinais de divergências no círculo superiores da Nomenklatura, através de hipotéticas variações de tom nos discursos oficiais. Pode-se ali descobrir certas nuanças, mas elas dizem respeito ora às funções exercidas pelos diversos oradores, ora à natureza do auditório diante do qual o discurso é pronunciado, ou ainda por motivos de política externa, se se trata, por exemplo, de apresentar uma nova tese sem, entretanto, oficializá-la.  O Ocidente se deveria ater à idéia de que os discursos dos dirigentes da Nomenklatura não são, de jeito nenhum, obras suas, pois seus textos são digeridos pelo aparelho, depois lidos e aprovados pelo Politburo.

O posto de Secretário-Geral é o alvo essencial dos combates travados no seio do Comitê Central, mas só há lugar para uma única pessoa, e os nomenklaturistas de alto gabarito fazem, pois, tudo o que lhes é possível para ocupar as melhores posições para a largada. Resta determinar quem tem as melhores chances de ser eleito Secretário-Geral: o mais forte ou o mais capaz? Nem um nem outro. Será aquele, entre os membros do Politburo que parecer menos brilhante e mais inofensivo.

Comparado aos outros membros do Politburo, é a impressão que dava Stalin, no início dos anos 20. Foi o mesmo para Kruschev, quando da morte de Stalin. Afinal, após a queda de Kruschev, Brejnev, de início, aparentou ser um provinciano sem consistência, ao passo que a forte personalidade de Chelepine era conhecida por todos. Nas monarquias eletivas, os eleitores procuravam sempre fazer sentar no trono real o mais fraco dos candidatos.

Os príncipes da Nomenklatura elegem seu Secretário-Geral segundo o mesmo princípio. Por esse motivo, aquele, dentre os membros do Politburo, que deseje a qualquer preço, tornar-se Secretário-Geral, não deve destacar-se, nem por sua competência, nem por seu dinamismo, mas, pelo contrário, deve ter aparência acanhada, apática, modesta, humilde. Dar a impressão de estar abarcado pelas tarefas técnicas, como o fez Stalin, representar o beócio como Kruschev, ou o funcionário médio do Partido como Brejnev.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

.

acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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