terça-feira, 5 de julho de 2016

O Comunismo - como ele é


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um resumo de um dos capítulos do livro “A Nova Classe”, cujo autor, o líder iugoslavo MILOVAN DJILAS – ex-Ministro, Vice-Presidente e principal teórico do Marechal Tito - foi um dissidente e contestador dos regimes comunistas. Talvez o mais importante deles e, por isso, considerado um herege pelo mundo comunista do pós-guerra.

Destituído de seus cargos no governo e expulso do Comitê Central da Liga dos Comunistas iugoslava, foi preso por 3 anos, período em que escreveu “A Nova Classe”, numa época em que, segundo ele, “acreditava ainda poder ser um comunista, permanecendo, ao mesmo tempo, um homem livre”. Posteriormente, em 1970, escreveu “Além da Nova Classe”, onde defendeu a tese de que a ideologia comunista se encontra num estado de esfacelamento, e não mais é aceita como instrumento de organização de uma sociedade, nem mesmo pelos próprios comunistas.
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Em toda a parte onde se manifesta, o comunismo apresenta-se como aspiração a uma bela sociedade ideal, e como tal atrai e inspira homens de altos padrões morais e de alta distinção. Mas, sendo também um movimento internacional, ele se volta, como o girassol se volta para a luz, para o movimento mais forte, a URSS.

As maravilhosas características humanas do movimento inicial são lentamente transformadas na moral farisaisca e intolerante de uma casta privilegiada. A politicagem e o servilismo tomam o lugar da integridade revolucionária. Os antigos heróis, prontos a sacrificar tudo, inclusive a vida, pelo próximo, e por um ideal, para o bem do povo, quando não são mortos ou postos de lado, tornam-se covardes egoístas, sem ideais nem camaradas, prontos a renunciar a tudo – honra, nome, verdade, moral - para conservar seu posto na classe dominante e no círculo hierárquico. O mundo tem visto tão poucos heróis dispostos ao sacrifício e ao sofrimento como os comunistas, às vésperas da revolução. E tem visto também poucos pobres-diabos tão sem caráter e defensores estúpidos de causas áridas, como os comunistas depois que chegam ao Poder. Maravilhosas eram as características humanas que serviram de atração pra o movimento.

Um espírito de casta exclusivista e uma total falta de princípios éticos e de virtudes tornaram-se condições para o Poder. A mentira calculada, a calúnia, a infâmia, a decepção e a provocação tornaram-se, gradualmente, os companheiros do poderio sombrio, intolerante e açambarcador da nova classe, e atingem as relações entre os membros da própria classe.

Quem não se tenha dado conta da dialética da evolução do comunismo não poderá compreender os chamados julgamentos de Moscou, nem porque as crises morais periódicas, provocadas pelo abandono de princípios que até o dia anterior eram consagrados, não podem ter para os comunistas a importância de que se revestem para os demais povos e movimentos.
Kruschev reconheceu que a violência teve o principal papel nas “confissões’ e autocondenações dos expurgos stalinistas. Afirma que não houve o uso de drogas, embora existam provas em contrário. Mas as drogas mais poderosas para forçar as “confissões” estavam na personalidade dos próprios acusados.

Criminosos comuns – isto é, não-comunistas – não entram em transe e nem fazem confissões histéricas, pedindo a morte como punição pelos seus “crimes”. Isso só aconteceu com homens de um gênero especial, os comunistas. A princípio, sentiram-se chocados pela violência e amoralidade das insinuações e acusações lançadas contra eles pela alta liderança do partido, em cuja completa falta de escrúpulos não podiam acreditar, mesmo que já a tivessem comprovado. Viram-se, subitamente, sem raízes.

A sua própria classe, representada pela liderança, os abandonava. Inocentes, viam-se pregados numa cruz como criminosos e traidores. Haviam sido educados para acreditar e proclamar sua união ao partido e aos seus ideais, por todas as fibras de seus seres. Viam-se agora inteiramente isolados. Nãoconheciam ninguém, nem coisa alguma, fora dos círculos comunistas e suas idéias estreitas. Era muito tarde para procurar alguma coisa que não fosse o comunismo. Estavam inteiramente sós.

O que pode restar a um homem dessa seita, moralmente esmagado, sem contactos, exposto à tortura refinada ou brutal, senão ajudar a classe e seus “kamaradas” com suas “confissões”? Convence-se de que elas são necessárias à classe, para resistir à oposição dos “anti-socialistas” e dos “imperialistas”. Tais confissões são as únicas contribuições “grandes” e “revolucionárias”, que restam à vítima, perdida e desgraçada.

Todo comunista sincero é educado, ou educou-se e educou outros, na crença de que as facções e as lutas intestinas são os maiores crimes contra o partido e seus objetivos. Dividido em facções, o Partido Comunista não pode vencer a revolução e nem estabelecer seu domínio. A unidade a qualquer preço e sem considerações por outros aspectos torna-se uma obrigação mística, atrás da qual se entrincheiram as aspirações dos oligarcas de um poder total. Mesmo quando suspeita disso, ou chega a sabê-lo,o desmoralizado adversário ainda não se libertou da idéia mística da unidade. Além disso, ele pode pensar que os líderes vêm e vão, que os maldosos, estúpidos, egoístas e amantes do Poder desaparecerão, enquanto os objetivos permanecem. O objetivo é tudo. Não tem sido sempre assim no partido?

O próprio Trotski, que foi o mais importante dos oposicionistas, não foi muito longe em seus raciocínios. Num momento de autocrítica asseverou que o partido é infalível, por ser a expressão da necessidade histórica de uma sociedade sem classes. Procurando justificar, no exílio, a monstruosa amoralidade dos julgamentos de Moscou, baseou-se em analogias históricas: Roma, antes da conquista do cristianismo; a Renascença, no início do capitalismo. Em ambos aparecia também o fenômeno inevitável do assassínio pérfido, das calúnias, mentiras e crimes em massa. O mesmo deveria acontecer também na transição para o socialismo, concluiu ele.

Eram os restos da velha sociedade classista que ainda se manifestavam na nova. Mas Trotski não conseguiu explicar nada com isso, apenas apaziguou sua consciência, não “traindo” a “ditadura do proletariado”, ou os sovietes, como a única forma de transição para a sociedade sem classes.

O rebaixamento moral, aos olhos dos outros homens, não significa que o comunismo esteja fraco. Até hoje significou, geralmente, o contrário. Os vários expurgos e os julgamentos de Moscou fortaleceram o sistema comunista e Stalin. Em todos os acontecimentos, uma certa camada – os intelectuais, dos quais Gide é o exemplo mais famoso – renunciou ao comunismo por esse motivo, duvidando de que, em sua forma atual, ele pudesse concretizar as idéias e os ideais nos quais acreditava.

O comunismo em si, porém, não se tornou mais fraco. A nova classe fortaleceu-se, firmou-se, liberando-se de considerações morais, empapando-se no sangue de todos os adeptos das idéias comunistas. Embora se tenha degradado aos olhos dos outros, o comunismo está, na verdade, mais forte aos olhos de sua própria classe e no domínio sobre a sociedade.

Não foi boa vontade, e muito menos humanismo, que levou os auxiliares de Stalin a compreender os males dos processos stalinistas, mas sim a necessidade urgente de se tornarem “mais compreensivos”. Mas, ao evitar o uso de mátodos muito brutais,os oligarcas não podem deixar de estar plantando a semente da dúvida sobre seus objetivos. Os fins serviram, durante certo tempo, para a justificativa moral do uso de quaisquer meios. A renúncia ao uso desses meios provocaria dúvidas quanto aos fins.

Quando se prova que os meios utilizados para se atingir determinados fins são maus em si, o objetivo torna-se inatingível, pois o essencial, em qualquer política, são os meios, presumindo que os fins serão sempre bons. Até mesmo a estrada do inferno está pavimentada de boas intenções. O certo é que não há, em toda a História, uma sociedade livre construída por escravos.

Em Os Possessos, Dostoiévski colocou na boca de Shigaliev as seguintes palavras: “Cada membro da sociedade é um espião com relação ao outro e tem como função denunciá-lo. Cada um pertence a todos, e todos pertencem a cada um. São todos escravos e iguais em sua escravidão. Em casos extremos, ele defende a morte e o assassínio, mas a essência, mas a essência está na igualdade. Os escravos devem ser iguais. Nunca houve nem liberdade e nem igualdade sem despotismo.” 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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