terça-feira, 26 de julho de 2016

O Embrião de uma Nova Classe


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Uma organização de revolucionários profissionais seria um bom meio de preparar a revolução?

Sim, sem dúvida alguma, se se tratar de derrubar a ordem vigente e tomar o Poder. Não, se se falava de boa fé do marxismo; se se acreditava que a revolução proletária era uma necessidade histórica, o salto dialético de uma sociedade para um novo Estado; se se tratava de quebrar as cadeias, mudar as relações de produção existentes, tendo em vista novas forças produtivas; se isso era o resultado da luta de classes. A máfia sem classe dos revolucionários profissionais não se colocava absolutamente  nessa perspectiva filosófica da História.

É preciso reconhecer que Lenin jamais afirmou que seu plano teve origem nos ensinamentos marxistas. Admitia, todavia, que “essa excelente organização que possuíam os revolucionários de 1870/1880 deveria servir-nos de modelo”.

Esse modelo era a organização terrorista dosnarodovoltsy. Lenin acrescenta: “Não foi erro, mas, pelo contrário, o grande mérito histórico dos narodovoltsy foi terem-se esforçado em conquistar todos os descontentes para a sua Organização e orientá-la para a luta decisiva contra a autocracia.

Seu erro foi apoiar-se numa teoria que, no fundo, não era nada revolucionária, e não ter sabido ou não ter podido ligar indissoluvelmente seu movimento à luta de classes no seio da sociedade capitalista em desenvolvimento”.  

Ponto de vista rico em ensinamentos: que a organização secreta dos narodovoltsy não tivesse nenhum caráter de classe não os aborrecia, mas que ela não tivesse sabido inventar uma teoria apropriada para utilizar, em seu próprio proveito, a luta de classes, parecia-lhe um erro.

Após ter examinado todos os aspectos do plano de Lenin, eis um resumo do que ele disse acerca das relações entre revolucionários profissionais e a classe operária.

Os revolucionários profissionais representam o interesse da classe dos operários. Em que consiste esse interesse? Não é nem o aumento dos salários e nem a melhoria das condições de vida - isso seria o sindicalismo -; seu interesse é a vitória da revolução proletária. Qual será o resultado dessa vitória? Lenin afirma que o mais importante, na revolução, é o problema do Poder. Após a revolução, o Poder passará para as mãos do proletariado, representado pela sua vanguarda. E qual é a sua vanguarda?

Segundo Lenin, é o Partido Comunista, cujo núcleo é a organização dos revolucionários profissionais. Assim, se os revolucionários profissionais subirem ao Poder, irão dizer que representam os interesses da classe operária, sob o pretexto de que a tomada do Poder é do interesse da classe operária.

Por que a classe operária deveria lutar pela melhoria das condições dos revolucionários profissionais, em lugar de lutar pela melhoria de suas próprias condições?

Lenin confessa abertamente que a classe operária, pelo fato de ser a classe social mais homogênea e mais disciplinada, é a melhor para se tornar o exército político da revolução. Lenin retomou essa tese muitas vezes, e vamos encontrá-la em todos os manuais do Partido Comunista da União Soviética.

Sem a classe operária, os revolucionários profissionais não conseguiriam livrar-se do embaraço. Não porque eram considerados como seus representantes, mas porque aquele punhado de intelectuais não tinha possibilidades de tomar o Poder sem a ajuda do proletariado. Os populistas se apoiaram na classe majoritária em número – os camponeses – e tinham fracassado. Por isso, os revolucionários profissionais deveriam, segundo Lenin, apoiar-se numa minoria bem organizada e disciplinada. No caso os proletários, e tomar o Poder por seu intermédio. Reside nisto, e não em qualquer outro ponto, o laço que liga, em cada país, a classe operária aos partidos leninistas.

Pode-se, como o faz a propaganda comunista, repetir, de todas as formas, as palavras de Lenin para fazê-las penetrar bem na mente de todas as pessoas: o Partido é o partido da classe operária; o Partido é a vanguarda da classe operária; o Partido luta pelos interesses da classe operária. Na realidade, jamais haverá um mínimo de verdade nessas palavras. Elas são e continuam a ser uma mentira. Nem o partido leninista no seu conjunto, nem seu núcleo – os chamados revolucionários profissionais – jamais foram nem a vanguarda e nem uma simples parcela da classe operária.

A que classe da sociedade russa pertencia essa organização de revolucionários profissionais? A nenhuma. Desde o início, Lenin colocou essa organização além da sociedade da época: ela deveria constituir um organismo social independente e obedecer às suas próprias regras.
Dessa organização nasceu um grupo muito fechado que não pertencia a nenhuma classe. Seu papel, no sistema de produção social, consistia em derrubar o sistema de produção e a ordem social existente. Esse pequeno grupo não tinha outro papel senão esse. No sistema de produção existente e na ordem social existente não havia lugar para ele.
Esse pequeno grupo tinha um futuro bem preciso: se a revolução que preparava fosse vitoriosa, tornar-se-ia, automaticamente, uma organização de revolucionários profissionais.

Foi assim que Lenin criou o embrião da NOVA CLASSE dirigente.
Mais tarde, os bolchevistas se contentariam em repetir que a Rússia daquela época estava “grávida da revolução”. Seria mais exato dizer que a Rússia estava grávida de uma nova classe dirigente, que só poderia chegar ao Poder  através de uma revolução.

Mas, quem foi para o Poder? Os operários ou os camponeses? Uma velha fotografia nos mostra o primeiro Conselho dos Comissários do Povo. Estão todos lá, sentados em volta de uma mesa, olhando para nós. Entre eles há nobres – Lunatcharski, o próprio Lenin e intelectuais, florões da burguesia... -. Mas, onde estão os operários e os camponeses? Não os há. Todos os Comissários do Povo têm apenas um ponto em comum:

independentemente de sua origem ou de sua situação social, são todos dirigentes da organização dos revolucionários profissionais criada por Lenin. Essa foi a organização que tomou o Poder de Estado.

Que classe representa essa organização? Já foi dito, mas vamos repetir: ela representa ela própria, e ela é o embrião da NOVA CLASSE dirigente.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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