segunda-feira, 11 de julho de 2016

O que foi feito com o trabalhador?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A única pergunta que todos fazem ou estão prestes a fazer. A única pergunta que os comissários da Rússia terão que enfrentar mais cedo ou mais tarde, é: “o que fizestes com o trabalhador?” O comunismo está no banco dos réus e tem de defender-se dessa única e simples pergunta, a fim de satisfazer o juri da opinião pública mundial. Esqueçamo-nos de que exterminaram, mataram e sentenciaram ao trabalho forçado a classe capitalista e a alta burguesia da Rússia tzarista, porque disseram francamente que as queriam eliminar.

Contudo, devem responder a essa pergunta sobre a classe trabalhadora e o que fizeram com ela. Neste ponto, e só neste, terão que justificar-se e defender-se. Em todo debate público, em cada reunião internacional, em cada recepção social aos delegados da ONU, a única pergunta realmente vital, insistente e legítima é: “O que fez a União Soviética com o lavrador pobre, com o pobre operário, com o homem pobre comum?”   

Não estamos interessados nos elementos burocráticos não produtivos da população soviética. Menos ainda naqueles que possuem dois terços do total dos depósitos bancários nacionais e estão “perfurando cupões” (frase de Lenin) de empréstimos do Estado. Não estamos interessados nessas pessoas, por seus trens macios e lojas especiais, iates e casas de campo. O comunismo só tem sentido quando declara serem seus objetivos a melhoria das condições do trabalhador e caminha resolutamente para esse fim.

Podemos até trazer à tona a pergunta: São os proletários os verdadeiros ditadores na Rússia? Ou são dominados? É sempre embaraçoso fazer tais perguntas aos Secretários-Gerais dos Partidos Comunistas. E, além disso, quando se faz essa pergunta, o apologista pode trançar uma teia de dialética e dizer, como Romain Rolland, que o proletariado “deve ser dirigido para a sua própria felicidade, mesmo a contragosto”, e alguém poderia acrescentar: “deve ser empurrado com grilhões para o seu trono”.

Nos anos que se seguiram à Revolução Bolchevique tem havido um aumento constante da produção industrial, paralelamente com uma constante degradação dos operários; além disso, a degradação dos trabalhadores sob dura coerção e castigos severos é a própria essência e causa do aumento da produção industrial. Uma vez que se estabeleceu o interesse de classe, a nova classe usará todas as  armas a seu alcance para manter seus privilégios.

O desejo individual de reforma não é levado em conta. Tomsky foi muito perseguido pelo Partido e finalmente expulso do Comitê Central porque procurou defender os interesses da classe trabalhadora contra os pontos de vista dos “calculadores de preços da Administração”. Bukharin, depondo no processo por sua vida, confessou e admitiu que “ficou penalizado com a expropriação dos Kulaks por motivos assim chamados humanitários”.

Rykov foi derrubado quando reivindicava o desenvolvimento da pequena indústria, a fim de melhorar as condições de vida dos operários. Todo trabalhador e todo homem inteligente na Rússia Soviética está dialeticamente condicionado a desejar subir para a classe não produtiva dos “perfuradores de cupons”. A situação se desenvolveu de tal forma que nada, conforme Karl Marx, nada menos que uma revolução pela violência poderá mudar esse sistema, e seria tolice confiar no reformismo parlamentar para reabilitar as intoleráveis condições de trabalho dentro da Rússia, porque o parlamentarismo em si mesmo não existe.

Nestes últimos anos principalmente, qualquer tendência a acentuar a melhoria da classe trabalhadora foi classificada de “desvio de direita” e “oportunismo”, sendo usada a última palavra, principalmente, no sentido de não ser desejável “irem todos adiante”, num espírito decidido em certa direção, pouco importa qual. Tem o sentido de ser meio atrasado, imaturo e indigno de confiança de um cargo revolucionário, conservando ainda sentimentalismos e humanitarismos. Um “oportunista” típico foi Rykov, o mais humano de todos eles, que morreu de desgosto.

Estatísticas de salários e preços, índices de salários reais e nominais, suprimentos e movimentos de operários podem ser a leitura mais insípida possível. Não o são, porém, com o operário russo. A história do operário soviético é misteriosa, fatídica, fascinante e, algumas vezes, até emocionante.
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O texto acima é o resumo de um dos capítulos do livro “O Nome Secreto”, de autoria de Lin Yutang, editado no Brasil em 1961 pela Editora Itatiaia Ltda. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Formidável artigo de um escritor!