quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Secretário-Geral




Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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A opinião, segundo a qual é o Secretário-Geral que governa a União Soviética, embora muito difundida, é, contudo, falsa. Basta, para se convencer disso, fazer a seguinte pergunta: “Se personagens tão diferentes, uns dos outros, como Stalin, Kruschev e Brejnev, determinaram, segundo suas vontades, as políticas a seguir, como é possível que as tendências mais significativas das referidas políticas permanecessem inalteráveis?” 

A resposta é evidente: não é o Secretário-Geral que governa o país. A política seguida pelo CC do PCUS não é a do Secretário-Geral, mas a da classe dos nomenklaturistas. Lenin e Stalln, os pais da classe dos nomenklaturistas, determinaram as orientações de sua política, levando em conta os seus desiderata, que são, por um lado, responsáveis pela sua reputação de dirigentes autocratas. É inegável que exerceram sua autoridade paternalista no que se refere àquela classe, que não estava ainda firmemente estabelecida na época, mas dependiam dela ao mesmo tempo. Pelo contrário, Kruschev e mais ainda Brejnev, sempre foram os executantes supremos da vontade da Nomenklatura.

O Secretário-Geral é o mais elevado, em posto, dos nomenklaturistas e, por conseguinte, o homem mais poderoso da sociedade socialista. Aquele que consegue chegar a esse posto, pode concentrar poderes imensos nas mãos. Lenin já o constatara alguns meses depois da nomeação de Stalin para o posto de Secretário-Geral do Comitê Central. Aquele que pretende apoderar-se da direção da Nomenklatura sem ter assegurado aquele posto, certamente será excluído dele, como foi o caso de Molotov e, depois, de Chelepine.

O problema não é, pois, saber se o poder do Secretário-Geral é grande – e o é -, mas se esse poder é o único no país, sendo o Politburo, o Secretariado e o aparelho do Partido nada mais do que auxiliares do referido Secretário-Geral em diversos escalões. O Secretário-Geral está, é claro, tanto à frente do Politburo quanto à do Secretariado. Entretanto, as relações que ele mantém com os órgãos supremos da classe dos nomenklaturistas diferam sensivelmente das que existem entre um chefe e seus subordinados. Dois casos podem ocorrer: no primeiro, ele se encontra diante daqueles órgãos formados por seu predecessor; no segundo, são seus próprios protegidos que têm assento nos dois órgãos supremos.

A classe dos nomenklaturistas forma um meio no qual um indivíduo isolado não pode fazer carreira se não tiver apoios consideráveis, e, assim, é preferível tentar sua sorte unindo-se a um clã no qual cada um apóia o outro, todos procurando afastar as facções rivais.

Qualquer um que queira fazer carreira na Nomenklatura deve empenhar-se em pertencer a tal clã, e aproveitará a menor oportunidade para se juntar a um personagem útil, representando as simpatias pessoais apenas um papel muito acessório. O chefe do clã se esforça por ser admitido num clã de funcionários, os mais eminentes possíveis da Nomenklatura, e tornar-se, assim, vassalo deles, levando seu próprio grupo em seu rastro. Resulta disto que a célula da classe dominante do socialismo real se apresenta sob a forma de um grupo de vassalos, ligados a um determinado suserano (*).

O número de vassalos de um suserano da Nomenklatura, é função do lugar que ele ocupa na hierarquia. O suserano defende e protege seus vassalos, e estes, em troca, o apóiam com tidas as suas forças, entoando nem alto suas loas e lhe testemunhando uma lealdade aparentemente indefectível. Aparentemente, pois só lhe são devotados até um certo ponto. As relações entre suserano e vassalos só parecem idílicas a um observador externo. O vassalo, qualquer que tenha sido o grau de seu sucesso e a importância do caminho que percorreu, só aspira uma coisa – dando mostra de uma obsequiosidade constante para como suserano -: aproveitar o momento favorável para derrubá-lo e tomar o seu lugar.

Essa é a regra de todos os clãs de nomenklaturistas, mesmo no mais elevado escalão, no seio do Politburo e do Secretariado do Comitê Central. Além disso, após a saída do Secretário-Geral, seu sucessor, ou melhor, aquele de seus vassalos que teve mais êxito, encontra-se à frente do clã de vassalos do seu predecessor. Nada mais lhe resta, então, do que colocar seus fiéis nos postos mais elevados para, finalmente, conduzir seu clã ao píncaro da Nomenklatura.

A aprovação de sua nomeação ao posto de Secretário-Geral pela elite superior da Nomenklatura, equivale, da parte desta, a um reconhecimento formal de sua soberania, mas, na realidade, esses dirigentes superiores só vêem no novo Secretário-Geral um arrivista que conseguiu ultrapassá-los. Consideram-no, no máximo, como um primus inter pares. Eisporque a entrada em cena de um novo Secretário-Geral é acompanhada sempre da reafirmação do princípio da direção coletiva. Será sempre assim.

O Secretário-Geral fixa, como objetivo, concentrar um poder ilimitado em suas mãos, e sua posição constitui um ponto de partida vantajoso par a realização de tal desejo. A dificuldade maior é a de que todo o mundo está a par de suas intenções. Não pode permitir-se, pelo menos no início, afastar os recalcitrantes do Politburo e do Secretariado, já que, tendo atingido eles também, a camada superior da classe dos nomenklaturistas, cada um deles dispõe de um número considerável de vassalos.

Por conseguinte, o novo Secretário-Geral deve estar nos melhores termos com a totalidade dos membros da cúpula da Nomenklatura, e cada um deles deve considerá-lo como um mal menor. Entretanto, o Secretário-Geral utilizará todos os recursos de sua imaginação para conseguir uma coalizão dirigida contra aqueles que mais ostensivamente se interpuserem em seu caminho e, finalmente, afastá-los do Poder. Simultaneamente favorece, tando quanto pode, a ascensão de membros do seu clã ao cume da Nomenklatura. O método habitual consiste em nomear seus próprios vassalos e, fazendo valer seu poder, colocá-los nos postos que dão acesso às funções mais elevadas da Nomenklatura.

Isso se parece com uma partida de xadrez particularmente complexa, o que explica que a nomeação a um dos mais altos postos da Nomenklatura representa uma prova de fôlego muito prolongada. Não são as qualidades políticas do postulante – menos ainda suas competências funcionais – que são determinantes, mas as manobras políticas. O Secretário-Geral só afirma seu poder na medida em que consegue levar seus vassalos até à testa da Nomenklatura, ou a postos que dão acesso a ela.

O ideal consiste, como foi o caso de Lenin e Stalin, em se encontrar à frente dos vassalos escolhidos por eles mesmos. Neste caso é cada vez menor o problema de direção coletiva, e o Politburo e o Secretariado são reduzidos ao papel de auxiliares do Secretário-Geral, e as relações que os unem entram em uma nova fase. É assim que se desenrola o processo de concentração dos poderes no seio do Comitê Central do PCUS, pela passagem da direção coletiva à autocracia aparente do Secretário-Geral.  

Este esquema não entra no domínio da especulação, pois se tem de dar conta do que ocorreu sob Stalin, Kruschev, e depois Brejnev. Se a situação ideal não é atingida - como no caso do governo de Brejnev -, a afirmação da posição do Secretário-Geral introduz uma afirmação de forças tal que os nomenklaturistas que, originalmente, não faziam parte do seu clã, acham preferível prestar-lhe seu juramento de fidelidade.

Mas, não se pode confiar nos vassalos, antigos ou novos. Não esqueçamos que Brejnev fazia parte do clã de Kruschev, o que não o impediu de forma alguma, depois, de participar da derrubada do seu suserano.
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(*) Relativo ou pertencente a suserania. No feudalismo, dizia-se de ou daquele que tinha domínio sobre um feudo do qual dependiam outros feudos; senhor, senhor feudal.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

.

acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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