domingo, 31 de julho de 2016

O Seguro Velhice na Nomenklatura


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é, mais uma vez, o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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As crianças cresceram e se tornaram, elas também, nomenklaturistas. Os anos passaram e o chefe de setor se prepara para gozar, como se diz, uma aposentadoria bem ganha. Ao contrário do cidadão comum não terá que conseguir um rosário de atestados para poder solicitar, junto ao escritório do Serviço de Prestações Sociais (Raysobes) uma pensão que não ultrapassará 120 rublos por mês.Uma decisão do CC lhe atribuirá uma pensão ad personam no escalão da União, e ele continuará a ocupar uma residência do CC e a repousar, de tempos em tempos, numa casa de tratamento do CC.

Um oficial superior mora numadatcha, da qual é proprietário. Se desejar construir, receberá um terreno com área de um hectare, e não 12 vezes menor, como o do cidadão comum. Os generais de divisão e generais de Exército – sem falar nos marechais – entram no que se chama “o Grupo do Paraíso” do Ministério da Defesa, e fazem parte, portanto, do grupo de privilegiados que conservam todas as vantagens ligadas às suas antigas funções: carro oficial com motorista, residência funcional, datcha oficial, ajudante de ordens, rações alimentares, etc., sem ter que dar nada em contraprestação.

O que se concede ao nomenklaturista representa, para a grande massa da população soviética, uma verdadeira fortuna.

E, depois, trata-se de um privilégio. O homem, ser social, não considera jamais sua própria situação isoladamente, compara-a com a de outros membros da sociedade. Quando você, caro leitor, anda tranqüilamente pela rua, não possui um sentimento particular. Mas, imagine que uma autoridade tirânica o obrigue a andar “de quatro patas”, e o autorize, em seguida, na sua bondade, a retomar sua posição normal. Imagine a sua alegria e o seu orgulho. Você faria, então, tudo o que estivesse ao seu alcance para justificar, como se diz na URSS, a confiança depositada em você.

Essa maneira de ver não é própria dos nomenklaturistas. Muitas vezes, os jornalistas estrangeiros que tiveram ocasião de trabalhar em Moscou, relembram depois, com nostalgia, os tempos passados lá. Objetivamente, isso não mais se justifica: com efeito, é muito difícil conseguir em Moscou outras informações além daquelas já publicadas nos órgão oficiais. Os correspondentes estrangeiros sofrem, constantemente, a vigilância da KGB.

Não podem escrever nada que contrarie as autoridades sem se expor a aborrecimentos ou sanções, podendo chegar, até, à expulsão. Os contatos com a população local são reduzidos à expressão mais simples. É necessário trazer do exterior diversos produtos, inclusive alimentícios, e ali se está muito pior alojado do que no Ocidente, e é proibido aos não soviéticos se deslocarem à sua vontade no território da URSS.

Profissionalmente, uma estada em Moscou pode representar interesse para um jornalista. Mas, o que torna a vida lá tão atraente?
A situação de privilegiado. A despeito desses inconvenientes, o jornalista ocidental vive em Moscou incomparavelmente melhor do que os moscovitas comuns. As moradias, se bem que inferiores às ocidentais,  representam para os moscovitas uma maravilha inacessível. Eles, os moscovitas, não podem fazer compras nas lojas especiais e, menos ainda, mandar buscar produtos no exterior. Eles também não podem ir ao exterior e trazer de lá certas coisas; não podem assinar publicações nem livros ocidentais, e não podem manifestar-se livremente sobre problemas políticos.

É essa situação de privilégios que constitui o essencial para a Nomenklatura, sempre pronta para manter os atributos do Poder. Mas não se deve subestimar o conteúdo material desses privilégios.

Para observar esse país à parte, que é a Nomenklatura, adotemos, pois, a perspectiva – nem muita alta, nem muito baixa – de um chefe de Setor junto ao CC do PCUS. Ora, a Nomenklatura é um país de montanhas, caracterizado pelo fato de que o solo se torna mais fértil e os frutos mais suculentos à medida que se ganha altura.

A diferença entre um chefe de Setor e um chefe de Departamento no CC do PCUS salta imediatamente aos olhos quando se entra em seu gabinete. Para o chefe de Setor, o acesso é direto, a partir do corredor; o gabinete confortável, mas bastante exíguo não se distingue dos demais. O “Samsav” - chefe adjunto de Departamento - dispõe de um gabinete elegante, com uma ante-sala; tem uma secretária que, em geral, não é mais jovem, a fim de evitar qualquer comentário maldoso.O chefe de Setor pede seu carro oficial à central do CC; o Samsav dispõe de um carro com motorista, que fica à sua disposição.

Nas férias, reservam-lhe uma datcha confortável com pessoal de serviço. Recebe vencimentos mais elevados, seu contingente de bônus “Kremliovka” é mais substancial e ele se beneficia com uma melhor moradia. Se subimos mais alto na hierarquia, chegamos ao escalão do primeiro chefe adjunto de Departamento. Este não faz mais parte da Nomenklatura do Secretário do CC, mas do Politburo. Goza, pois, de privilégios ainda maiores.

Um Primeiro Secretário de um Comitê de Região do Partido é uma espécie de sátrapa todo-poderoso, e os demais secretários nada mais são do que seus adjuntos. Todas essas pessoas se beneficiam não somente de vencimentos elevados, de moradias funcionais, de datchas oficiais, de carros, de rações alimentares, de clínicas e de casas de férias reservadas, mas podem, além disso, meter a mão, à sua vontade, nas riquezas materiais de sua região. Ora, uma região tem um território tão grande quanto o de um país europeu médio.

O chefe de Departamento no CC do PCUS se beneficia, talvez, de menores privilégios materiais do que os sátrapas regionais. Mas, por outro lado, já colocam um pé no círculo dirigente da Nomenklatura. O chefe de um grande Departamento é, ao mesmo tempo, Secretário do CC do PCUS. É, portanto, um daqueles que ocupam um lugar no mausoléu de Lenin e que acenam para a multidão por ocasião das festividades oficiais, um daqueles que se reconhecem nos clichês da imprensa e da televisão.

O chefe de Departamento tem uma posição bem superior à do chefe de Setor. Mesmo a morte não os reúne. A do chefe de Setor é assinalada por uma curta notícia, tarjada de preto, a menos que um grupo de kamaradas assine um breve necrológio no Pravda. Por outro lado, os méritos do chefe adjunto de Departamento, ou do Primeiro Secretário do Comitê de Região, são objeto de um grande necrológio, acompanhado de foto do falecido e da assinatura dos membros do Politburo.

Quanto ao resto, o chefe de Setor não tem do que se queixar. Sua viúva não terá problemas  com um comitê sindical, que lhe concederá, embora a contragosto, 20 rublos para as despesas de sepultamento – não, os funerais solenes serão por conta do Estado: um comboio de Tchaikas e de Volgas pretos seguirá o féretro, o serviço fúnebre “leigo” dará lugar a discursos e, após o cemitério, beber-se-á conhaque armênio pela memória do falecido. Diante do luxuoso cadafalso, uma orquestra de instrumentos de sopro atacará fogosamente o famoso
        
“Tombaram na luta contra a morte
         
Tombaram ao serviço do povo
         
Dando tudo ao povo sem nada exigir”

O chefe de Setor não apodrece num cemitério comum, para mortais comuns, mas num cemitério reservado, no claustro Novodevichi, onde os restos das pessoas da Nomenklatura repousam sob suntuosas pedras tumulares. É ali que jazem Allilueva, mulher de Stalin, a mulher de Kossyguin, e Nikita Kruschev, caído em desgraça. A mulher do chefe de Setor, que reage agora inteiramente como seu falecido marido, vai simplesmente deplorar amargamente que ele não tivesse conseguido içar-se às altas esferas da Nomenklatura, onde se tem direito a uma inumação na Praça Vermelha, nas muralhas do Kremlin. E será presa de uma secreta inveja ao ver que, mesmo ali, no cemitério de Novodevichi, é aos generais mortos que se prestam honras militares, e não ao seu falecido marido, que amava, tanto quanto eles, as honrarias...e o Poder.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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