domingo, 24 de julho de 2016

Os fins ilimitados do comunismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O projeto comunista é declaradamente total. Ele busca em extensão a revolução mundial, compreendendo uma mutação radical da sociedade, da cultura e do próprio ser humano. Mas autoriza a colocação em prática de meios nacionais para a obtenção desses fins, alheios à razão. Lenin, durante a guerra, era um sonhador quimérico que sobrepunha às realidades do mundo as entidades abstratas do capitalismo, do imperialismo, do oportunismo, do esquerdismo e de muitos outros “ismos” que, em sua opinião, explicavam tudo. Ele os aplicava tanto à Suíça, quando à Alemanha e à Rússia.

A tomada do Poder por um Partido Comunista é preparada por uma luta puramente política no seio de uma sociedade normalmente política. É lá que ele treina as táticas que coloca em prática após a vitória do Partido. Aquela, por exemplo, chamada “tática do salame”, que consiste em fazer alianças com forças políticas não-comunistas, de maneira que force o aliado a participar na eliminação dos adversários: primeiro, a extrema-direita, com a ajuda de toda a esquerda; depois, a fração moderada dessa esquerda, e assim, sucessivamente, até à última fatia, que deve se submeter e “fundir-se”, sob pena de ser, por sua vez, eliminada. Esse profissionalismo, que inclui a astúcia, a paciência, a racionalidade, quanto ao objetivo buscado, faz a superioridade do Leninismo. Mas se trata apenas de destruição, e a construção é impossível, porque esse objetivo é insensato.

Tornado uma espécie de ditador, mas sem poder tomar consciência disso, Lenin colocava sobre suas situações mais instáveis suas categorias fantasmagóricas e, em conseqüência tomava suas decisões. A prática comunista não segue uma inspiração estética, mas procede a cada instante de uma deliberação “científica”. A falsa ciência copia da verdadeira seu caráter demonstrativo e seus procedimentos lógicos. E apenas torna mais louca a empresa, mais implacável a decisão e mais difícil a correção, pois a falsa ciência, que não é empírica, impede que se constatem os resultados da experiência.

Pouco a pouco a destruição se amplia e se torna total, igualando-se, para retomar a fórmula de Bakunin, à vontade de criação. Ela seguiu, na Rússia, seis etapas.

Primeiro, a destruição do adversário político: órgãos do governo, da antiga administração. Isso se fez num piscar de olhos, logo após o putsch de outubro de 1917.

Depois, a destruição das resistências sociais, reais ou potenciais: entidades culturais, universidades, escolas, academias, Igreja, editoras, imprensa.
No entanto, o Partido se dá conta de que o socialismo nem sempre existiu como sociedade livre e auto-regulada, e que a coerção é, mais do que nunca, necessária para fazê-lo surgir. Entretanto, a doutrina prevê que há apenas duas realidades: o socialismo e o capitalismo.

É, nesse momento, então, que a realidade se confunde com o capitalismo, e que é preciso – terceira etapa – destruir toda a realidade: a aldeia, a família, os restos da educação burguesa, a língua russa. É preciso estender o controle sobre cada indivíduo tornado solitário e desarmado pela destruição de seu sistema de vida, levá-lo para um novo sistema, onde ele será reeducado, recondicionado. Eliminar, enfim, os inimigos escondidos.

O fracasso da construção do socialismo no interior vem do ambiente externo hostil. Pela sua simples existência, ele é uma ameaça, quaisquer que sejam as cores desse espectro hostil: democracia burguesa, social democracia, fascismo. É preciso, então – quarta etapa -, criar em cada país organizações de tipo bolcheviques (os partidos comunistas), com um organismo central para coordená-los e adaptá-los ao modelo central, o Komintern. Quando, valendo-se das circunstâncias, o comunismo pôde se estender, as novas zonas agregadas ao “campo socialista”conheceram etapas análogas de destruição.

Porém, em toda a extensão do campo, o Partido (pela voz de Stalin) constata que “o capitalismo está mais forte que nunca”. Ele se infiltra e se estende no próprio Partido, que perde a sua virtude. Cabe então ao líder do Partido, e apenas a ele, destruir o Partido – quinta etapa – para recriar um outro com seus restos. Essa perigosa operação requer uma promoção do carisma do líder que o assemelha ao Fuhrer nazista. Uma vez concentrado em sua pessoa o espírito da História, como o outro espírito da “raça”. ele pode se permitir, em um esplêndido isolamento e em uma relação “direta” com as massas, liquidar o seu carrasco coletivo.

Stalin fez isso uma vez, não sem imitar Hitler e a sua “noite dos longos punhais”.Ele se preparava para fazê-lo uma segunda vez – e também deportar o conjunto dos judeus – quando a morte o surpreendeu -. Mao-Tsetung fez duas vezes, no momento do “Grande Salto para a Frente” e, depois, mais nitidamente ainda, na “Revolução Cultural”.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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