quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um Aniversário da Revolução de Outubro


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é, mais uma vez, o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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O programa do Partido Comunista da União Soviética prometia que antes de 1980 uma sociedade comunista sem classes seria edificada no país. Desde 1936, a sociedade soviética é definida como uma sociedade “sem antagonismos”. Ora, hoje não se pode ainda dizer que as classes e os antagonismos de classes tenham sido suprimidos. A sociedade soviética continua antagonista.

Lenin e Stalin criaram uma NOVA CLASSE, cuja base foi a organização dos revolucionários profissionais. Depois que essa organização se apoderou do Poder, viu-se aparecer a Nomenklatura de Stalin, que se tornou a classe dirigente da União Soviética.

A Nomenklatura é uma classe de exploradores e de  privilegiados. Foi o Poder que lhes permitiu ascender à riqueza e não a riqueza que lhes permitiu ascender ao Poder. A política da Nomenklatura consiste em assentar seu Poder ditatorial no plano interno e estendê-lo ao mundo inteiro.

A Nomenklatura tem certas realizações positivas em seu ativo. Mas, ela se transformou cada vez mais em uma classe parasitária.

Vamos deixar a Nomenklatura no momento em quer ela vive suas mais belas horas. Praça Vermelha, 7 de novembro. Sob os poderosos sons de uma marcha militar, no meio de salvas de honra, a Nomenklatura celebra um aniversário do seu Poder com uma parada militar e um grande desfile que durará várias horas. Momento único: pode-se, afinal, vê-los em grupo, em lugar de percebê-los ocasionalmente em seus SILs ou Tchaikas, em suas residências de chefes ou sentados à mesa da Presidência. Onde encontrar reunida uma tal quantidade de nomenklaturistas senão nas tribunas, perto do mausoléu, naquele dia solene?

Ei-los de pé sobre os degraus de pedra das tribunas, aqueles homens troncudos, de rostos grosseiros, autoritários, acompanhados de suas gordas esposas, seus filhos bem nutridos, de bochechas vermelhas. Todos usam roupas de inverno. O vento varre a praça, drapejando as bandeiras, e os flocos de neve de novembro fustigam os rostos. Os casacos são feitos de fazendas inglesas de primeira qualidade, usam-se peles suaves, luxuosos astracãs, gorros de pele. Mas há uma lei não escrita da Nomenklatura que é respeitada aqui: todas essas roupas luxuosas não devem ser nem muito justas e nem usadas com muita elegância. As mulheres não se devem maquiar. É o último e modesto tributo pago ao mito da origem proletária da Nomenklatura, àquele ideal de democracia que ela finge respeitar.

Dez horas menos 3 minutos. Todas as cabeças se voltam na direção do mausoléu, os pais nomenklaturistas suspendem seus filhos nos ombros. Dentro de alguns instantes, os chefes da classe nomenklaturista irão aparecer no alto do mausoléu, sua passarela de comando. Ei-los! À frente, o Secretário-Geral. Depois, a alguma distância, os outros, dispostos segundo uma rigorosa ordem. A classe da Nomenklatura aplaude e responde à saudação dos chefes. Claro, ela não está no mausoléu, mas a seus pés: os que estão de pé, lá no alto, são os suseranos. E quando o universo contempla esse punhado de dignitários, contempla, de fato, a Nomenklatura.

À paisana, oficiais da KGB, com braçadeiras vermelhas, impedem, com cortesia, mas com firmeza, os nomenklaturistas de menor importância, que foram colocados nas tribunas afastadas, de entrar nas tribunas reservadas à fina flor. Tem-se o direito de passar de uma tribuna para outra, mas unicamente se se afastar do mausoléu. Eis como se desenha concretamente no espaço a pirâmide da Nomenklatura: a ponta repousa no mausoléu. Dez horas, início da parada.

Virá, em seguida, o desfile dos fiéis representantes da “classe laboriosa”, portando retratos gigantescos dos chefes da Nomenklatura, bandeirolas com slogans e os números do Plano. Depois, será a recepção no Kremlin, com os funcionários da Nomenklatura sentados numa ordem hierárquica impecável, e os embaixadores da quase totalidade dos países do mundo festejarão o aniversário da Revolução de Outubro.

Mas, é agora que a Nomenklatura vai conhecer seu instante de apoteose. Cinqüenta longos minutos de felicidade desfilam os soldados em passo estritamente cadenciado, os blindados passando com o barulho das lagartas, os foguetes, superdimensionados. Como eles sorriem à vista desses foguetes, como estão felizes! É sua força que cresce, como avalanche, sobre a Praça Vermelha, nas fileiras atentas da KGB. É sua força que obriga o planeta inteiro a voltar seus olhares para aquele lugar, a ouvir suas vozes, a tremer diante deles.

Vamo-nos despedir da Nomenklatura quando ela vive esse momento de êxtase. Saudemos aqueles bojares que se apertam em volta da pirâmide do mausoléu, onde repousa uma múmia, diante de um cenário de muralhas medievais. Deixemo-los. Fascinados por seu próprio Poder, permanecem ali, de pé, diante das tumbas da muralha do Kremlin, como em um cemitério. E o vento de novembro, incansável, espalha flocos de neve sobre aquele universo que mergulha no outono.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

.

acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

.