domingo, 28 de agosto de 2016

A liderança num movimento de massa


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um resumo de um dos capítulos do livro “Fanatismo e Movimentos de Massa”, escrito em 1951 por Eric Hoffer e editado no Brasil em 1968 pela Editora Lidador Ltda. Especialistas consideraram que o livro tem a mesma dimensão de “O Príncipe“, de Maquiavel.
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Não importa quão vital achemos o papel da liderança na criação de um movimento de massa, não há dúvida que o líder não pode criar as condições que tornem possível o surgimento do movimento. Ele não pode conjurar um movimento partindo do nada. Tem de haver uma ansiedade de seguir e obedecer, e uma intensa insatisfação com as coisas existentes antes que o líder possa fazer a sua aparição. Quando as condições não estão maduras, o líder em potencial, por mais bem dotado que seja, e sua causa sagrada por mais poderosa quye seja, permanecem sem seguidores.

A Primeira Guerra Mundial e suas conseqüências prepararam o terreno para o nascimento do bolchevismo, do fascismo e do nazismo. Se a guerra tivesse sido evitada ou adiada por mais uma década ou duas, o destino de Lenin, Mussolini e Hitler não teria sido diferente do de vários agitadores e conspiradores brilhantes do século XIX, que jamais conseguiram amadurecer as freqüentes desordens e crises do seu tempo, para transformá-las em movimento de massa em grande escala. Algo estava faltando.

As massas européias, até os acontecimentos catastróficos da Primeira Guerra Mundial, não haviam desesperado totalmente do presente e, portanto, não estavam dispostas a sacrificá-lo por uma nova vida e um novo mundo. Até mesmo os líderes nacionalistas, que tiverem melhor êxito do que os revolucionários, não conseguiram transformar o nacionalismo na causa sagrada popular que se tornou desde então. O nacionalismo militante e o revolucionarismo militante parecem ser contemporâneos.

Na Inglaterra, também, o líder teve que esperar que o tempo amadurecesse antes de poder desempenhar o seu papel. Na década de 1930, o líder em potencial – Churchil – tornou-se proeminente aos olhos do povo e fez-se ouvir, dia a dia. Mas bão havia vontade de segui-lo. Foi só quando a catástrofe abalou o país nos seus alicerces e tornou a vida individual autônoma insustentável e sem significação que o líder se firmou.
Há um período de espera por trás do pano – muitas vezes um período bastante longo – para todos os grandes líderes, cuja entrada em cena nos parece um ponto crucial no curso de um movimento de massa. Os acidentes e as atividades dos outros homens têm de preparar o palco para eles, antes que possam entrar e começar sua representação. “O homem que comanda num dia momentoso parece ser apenas o último acidente de uma série”.
Uma vez pronto o palco, a presença de um líder marcante é indispensável. Sem ele não haverá movimento. O amadurecimento dos tempos não produz automaticamente um movimento de massa, nem tampouco as eleições, as leis e os órgãos administrativos. Foi Lenin quem forçou o fluxo dos acontecimentos para os canais da revolução bolchevista. Se tivesse morrido na Suiça, ou a caminho da Rússia, em 1917, é quase certo que os outros bolchevistas proeminentes teriam aderido a um governo de coalizão. O resultado teria sido uma república mais ou menos liberal, governada pela burguesia. No caso de Mussolini e Hitler, a evidência é ainda mais decisiva: sem elers, não teria havido nem o movimento fascista e nem o movimento nazista.

Os movimentos na Inglaterra nesse momento também demonstram a indisponibilidade de m líder bem dotado par a cristalização do movimento de massa. Um autêntico líder (um Churchil socialista) à testa do Governo Trabalhista teria iniciado as drásticas reformas de nacionalização na fervente atmosfera de um movimento de massa, e não na monotonia pouco dramática da austeridade socialista. Esse líder teria amoldado o trabalhador britânico ao papel de um heróico produtor e de um pioneiro da industrialização verdadeiramente científica.

Teria feito o povo britânico sentir que sua principal tarefa era mostrar ao mundo inteiro, e aos EUA e Rússia em particular, o que uma Nação realmente civilizada pode fazer com modernos métodos de produção, quando está livre, tanto da confusão, desperdício e avareza da administração capitalista, como do bizantinismo, barbarismo e ignorância de uma burocracia bolchevista. Teria sabido como infundir no povo da Inglaterra o mesmo orgulho e esperança que o sustentaram nas horas mais negras da guerra.

Quais os predicados necessários a tal desempenho?

Inteligência excepcional, caráter nobre e originalidade não parecem nem indispensáveis e nem talvez desejáveis.Os principais requisitos parecem ser audácia e gosto pelos desafios; uma vontade férrea; uma convicção fanática de estar de posse da verdade; fé em seu destino e em sua sorte; capacidade de ódio apaixonado; desprezo pelo presente; estimativa ladina d natureza humana; amor aos símbolos – espetáculos e cerimoniais -; ousadia sem limites, que encontre expressão num desdém pela coerência e pela sinceridade; reconhecimento de que o mais profundo anseio se um seguidor é a comunhão, algoque nunca pode haver demais; capacidade r conquistar e manter a lealdade absoluta de um grupo de assessores hábeis.

Esta última capacidade é uma das mais essenciais e fugidias. Os poderes de um líder não se manifestam tanto na força que tem sobre as massas, como na sua capacidade de dominar e quase enfeitiçar um pequeno grupo de homens capazes. Esses homens precisam ser destemidos, orgulhosos, inteligentes e capazes de organizar e dirigir empreendimentos em grande escala e, no entanto, devem submeter-se totalmente à vontade do líder, tirar dele suas inspirações e impulsos e rejubilar-se dessa submissão.

Nem todas as qualidades acima enumeradas são igualmente essenciais. As mais decisivas para um líder de movimento de massa parecem ser a audácia, a fé fanática numa causa sagrada, a consciência da importância de uma coletividade intimamente unida, e acima de tudo a capacidade de provocar uma devoção fervorosa um grupo de assessores capazes. O fracasso de Trotski como líder, adveio de sua negligência, ou possivelmente sua incapacidade, de criar uma máquina de assessores capazes e leais. Ele não atraiu simpatias pessoais, ou, se atraiu, não soube mantê-las.

Outra deficiência foi não estar convencido do erro e da deficiência de uma existência individual autônoma, e não percebeu a grande importância da comunhão para um movimento de massa. Sun Yat-Sem “atraiu para si ... um extraordinário número de seguidores capazes e devotados, incendiando-lhes a imaginação com suas visões de uma Nova China, e da lealdade abosluta e do auto-sacrifício”. Ao contrário dele, Chiang Kai-Shek parece não possuir as qualidades essenciais de um líder de movimento de massa.

Por outro lado, De Gaulle é certamente um homem a observar. Os líderes dos Partidos comunistas fora da Rússia, pela sua subserviência a Stalin e ao Politburo, não poderão atingir a estatura de autênticos líderes. Continuarão sendo assessores capazes. Para que o comunismo se torne, no momento atual, um movimento de massa efetivo em qualquer país ocidental, um de dois opostos terá que acontecer. Ou a personalidade de Stalin será tão concreta e imediata que poderá agir como um catalítico, ou o Partido Comunista local terá que seccionar-se do da Rússia e, à maneira de Tito, lançar seu desafio contra o capitalismo e o stalinismo. Se Lenin tivesse sido o emissário de um líder, e ocupasse um Politburo em alguma terra distante, é de duvidar que pudesse ter exercido sua influência decisiva nos acontecimentos da Rússia.

A qualidade das idéias parece desempenhar um papel secundário na liderança dos movimentos de massa. O que conta é o gesto arrogante, a completa indiferença pela opinião dos outros, o desafio solitário ao mundo.
O charlatanismo é, em certo grau, indispensável ao líder eficiente. Não pode haver movimento de massa sem alguma distorção deliberada dos fatos. Nenhuma vantagem firme e concreta pode prender seguidores e torná-los zelosos e fiéis até a morte. O líder tem que ser prático e realista e, contudo, tem que falar a linguagem do visionário e do idealista.

A rendição total de um ego distinto é um pré-requisito para atingir a unidade e o auto-sacrifício, e provavelmente não existe maneira mais direta de realizar essa rendição do que inculcando e implantando o hábito da obediência cega. Quando Stalin forçou escritores, cientistas e artistas a rastejarem de quatro e negarem sua inteligência individual, seu senso de beleza e seu senso moral, ele não estava se entregando a um impulso sádico, mas solenizando, de maneira impressionante, a suprema virtude da violência cega.

Todos os movimentos de massa colocam a obediência entre as mais altas virtudes e põem-na no mesmo nível da fé. A união das mentes requer não só um perfeito acordo na única Fé, MS também a completa submissão e obediência à Igreja e ao Sumo Pontífice e ao próprio Deus. A obediência é não só a primeira Lei de Deus, como também o primeiro mandamento de um partido revolucionário fervoroso. “Não querer saber por que” é considerado por todos os movimentos de massa a marca de um espírito forte e generoso.

A desordem, o derramamento de sangue e a destruição que marcam a trilha de um movimento de massa em ascensão, levam-nos a pensar nos seguidores do movimento como seres sem lei. Na verdade, a ferocidade das massas nem sempre é a soma da marginalidade individual. A truculência pessoal milita contra a ação unida. Leva o indivíduo à luta por si mesmo. Produz o pioneiro, o aventureiro e o bandido. Os crentes convictos, por mais cruéis e violentos que sejam os seus atos, são basicamente pessoas obedientes e submissas. O agitador comunista é o membro servil de um partido.

Os frustrados não seguem um líder por causa da fé de que eles os está conduzindo à uma Terra Prometida, e sim por seu sentimento imediato de que estão sendo levados para longe de seus egos indesejáveis. A entrega a um líder não é um meio de atingir um fim, mas de alcançar a plenitude. Até onde serão levados, é de importância secundária para eles.

Existe uma diferença essencial entre líder de um movimento de massa e líder de uma sociedade livre. Numa sociedade mais ou menos livre o líder só pode conservar seu poder sobre o povo quando tem fé cega em sua sabedoria e bondade. Um líder de segunda categoria, possuidor dessa fé, vencerá um líder de primeira categoria que não a possua. Isso significa que numa sociedade livre, o líder segue o povo enquanto este o segue. Ele precisa saber para onde o povo vai para poder guiá-lo.

Quando o líder de uma sociedade livre torna-e desdenhoso do povo, mais cedo ou mais tarde prossegue na falsa e fatal teoria de que todos os homens são tolos, e eventualmente mergulha na derrota. As coisas são diferentes quando o líder pode empregar sua impiedosa coação. Quando, como acontece num movimento de massas ativo, ele pode exigir obediência cega, pode também operar sob a firme teoria de que todos os homens são covardes, pode tratá-los de acordo e obter resultados.

Uma das razões por que os líderes comunistas estão perdendo nos nossos sindicatos é que, seguindo a linha e adotando a tática do partido, estão assumindo atitudes e usando as táticas de um líder de movimento de massa, numa organização feita de homens livres.  


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

3 comentários:

Anônimo disse...






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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

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Estéfani JOSÉ Agoston disse...

Texto luminoso, interessantíssimo e esclarecedor. Agradeço sua postagem.

Anônimo disse...

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