terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Lula pelo Poder no Kremlin


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.

O excessivo culto da personalidade, que cerca os Secretários-Gerais, não consegue esconder do resto do mundo que, na cúpula da Nomebklatura se desenvolve uma luta permanente, cujo objetivo primordial é precisamente o posto de Secretário-Geral. A opinião pública ouve falar, freqüentemente, da “luta pelo Poder’ no Kremlin, e a imagina, erradamente, como uma seqüência ininterrupta de divergências de opiniões, dado lugar a polêmicas ásperas, semelhantes àquelas que inflamam os parlamentos ocidentais.

Nada disso ocorre no seio do CC do PCUS; o combate ali não se trava no terreno da eloqüência parlamentar. É uma luta de fôlego longo, no curso da qual se tecem intrigas de uma sutileza tal que os meios políticos ocidentais provavelmente não conseguem entender. A retórica só intervém na última fase, quando se trata de apagar, com formalidade política, os erros de que se tornou culpado o adversário já vencido. Enquanto a armadilha não tiver funcionado, não se tornando pública, esforça-se,pelo contrário, em adormecer a desconfiança do rival através de demonstrações renovadas de amizade.

Eis porque é praticamente perda de tempo esperar encontrar sinal de uma divergência nos círculos superiores   da Nomenklatura, através de hipotéticas variações de tom nos discursos oficiais. Pode-se ali descobrir certas nuanças, mas elas dizem respeito ora às funções exercidas pelos diversos oradores, ora à natureza do auditório diante do qual o discurso é pronunciado, ou ainda por motivos de política externa, se se trata, por exemplo, de apresentar uma nova tese, sem, no entanto, oficializá-la. O Ocidente se deveria ater à idéia de que os discursos dos dirigentes da Nomenklatura não são, de jeito nenhum, obras suas, pois seus textos são digeridos pelo aparelho, depois lidos e aprovados pelo Politburo.

O posto de Secretário-Geral éo alvo essencial dos combates travados no seio do CC, mas só há lugar para uma única pessoa, e os nomenklaturistas de alto gabarito fazem, pois, tudo o que lhes é possível para ocupar as melhores posições para a largada. Resta determinar quem tem as melhores chances de ser eleito Secretário-Geral. O mais forte ou o mais capaz?

Nem um nem outro. Será aquele, dentre os membros do Politburo, que parecer menos brilhante e mais inofensivo. Comparado aos outros membros do Politburo, é a impressão que dava Stalin no início dos anos 20. Foi o mesmo para Kruschev quando da morte de Stalin. Afinal, após a queda de Kruschev, Brejnev, de início, aparentou ser um provinciano sem consistência, ao passo que a forte personalidade de Chelepine era conhecida por todos.

Os príncipes da Nomenklatura elegem seu Secretário-Geral segundo os mesmos princípios. Por esse motivo, aquele, dentre os membros do Politburo, que deseja, a qualquer preço, tornar-se Secretário-Geral, não deve destacar-se, nem por sua competência e nem por seu dinamismo, e sim, pelo contrário, deve ter aparência acanhada, apática, modesta, humilde; dar a impressão de estar abarcado pelas tarefas técnicas, como o fez Stalin, representar o beócio, como Kruschev, ou o funcionário médio do Partido, como Brejnev.

O Politburo

A criação do Politburo é posterior a 1917. O II Congresso do POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo) tinha eleito dois órgãos diretores: um Comitê Central e a Redação doIskra. Dos dois, coube à Redação do Iskra o lugar preponderante. Seguindo os planos de Lenin, o Iskra – jornal político ilegal difundido clandestinamente por toda a Rússia – deveria ser a base da edificação do Partido, depois deveria assegurar a direção do mesmo. O papel do CC era apenas acessório. Mas, uma vez afirmado o Partido, o CC se tornou o órgão de direção. Ora, a cisão do PSDR em bolcheviques e mencheviques, provocou a constituição, por Lenin, de sua própria instância dirigente: o Bureau dos comitês majoritários, para fazer face ao CC menchevique. O Comitê Central do Partido Bolchevique foi eleito no curso da Conferência de Praga, em 1912, e em seguida cresceu – foi aí que Stalin foi admitido -.

O número de membros do CC era inferior ao do atual Politburo. No início não havia o problema da criação de um órgão qualquer no seio do CC. O primeiro Bureau Político foi criado, na qualidade de órgão interino, quando da sessão do CC de 19 de outubro de 1917, que é considerada, com justo título, como histórica, pois no curso dela que se decidiu pela insurreição armada contra o governo provisório. A criação do Politburo não implicava, de modo algum, na transferência dos poderes do CC para esse novo órgão.

O Politburo foi criado como um órgão permanente quando do VIII Congresso, em março de 1919. Só tinha por atribuição regulamentar as questões urgentes e conhecer as decisões a serem tomadas na sessão seguinte do CC, e tais sessões tinham lugar a cada duas semanas. Foi na mesma época que se criou o Orgburo, encarregado da totalidade do trabalho da organização. Na origem, o Politburo nada mais era, pois, assim como o Orgburo, do que um órgão auxiliar. Não era ainda a verdadeira assembléia dos deuses dominando o CC, em que ele se transformou sob Stalin, e não cessou de sê-lo depois.

No tempo de Stalin, era composto por amigos mais ou menos próximos do ditador: Viatcheslav Molotov, por muito tempo chamado de “amigo e colaborador íntimo de Stalin” – caiu em desgraça após a prisão de sua mulher P. S. Gemtchujina -; Lazar M.Kaganovitch, muito ligado a Stalin, foi o único, juntamente com Ejov e, mais raramente, Vorochilov, a ter sido chamado “Comissário do Povo de Stalin”; Malenkov, a quem o ditador fez seu confidente antes de morrer. Quando um dos membros do órgão perdia seus favores, Stalin não hesitava a liquidá-lo a sangue-frio, e foi isso o que aconteceu com Voznessenski.

Esses costumes patriarcais cessaram após sua morte.o presidente do Conselho de Ministros da URSS e os principais secretários do CC, têm agora seus lugares assegurados no seio do Politburo. Esse é também o caso do presidente da KGB, dos Ministros da Defesa e dos Negócios Exteriores, dos Primeiros-Secretários das maiores repúblicas federadas – Ucrânia e Casaquistão -, dos das repúblicas de menor importância econômica, e afinal os Primeiros-secretários dos Comitês do Partido das cidades de Moscou e Leningrado são membros ou candidatos ao Politburo. Esse estado de fato tende a favorecer a instauração de uma estabilidade impregnada de conservadorismo e de regras precisas visando aos desejos da Nomenklatura.

As relações dentro do Politburo tornaram-se de uma extrema complexidade desde que ele passou a nãose compor mais por um grupo de amigos, mas de indivíduos eleito, observando pouco ou muito o princípio da representativade. As nomeações para os postos importantes passaram a demorar, pois a relação de forças no seio do órgão é o resultado de uma sábia dosagem: habitualmente, cada um desses postos é atribuído a um vassalo de um dos membros do Politburo. Mesmo nos discursos publicados por ocasião dos 70 anos de Leonid Brejnev, foi feita alusão à sua arte de “integração”.

Nos países do Leste, as regras do jogo político e do carreirismo diferem das que estão em vigor no Ocidente. Se um político ocidental quer fazer carreira, precisa, a todo preço, colocar-se em evidência, pois a sua ascensão depende do favor de uma fração tão grande quanto possível dos militantes do seu Partido e do eleitorado. No Leste, um político só pode contar com a benevolência do Secretário-Geral e com ausência de oposição por parte dos demais membros da direção. Vai, pois, fazer o impossível para não se fazer notar, e passar por inofensivo, talvez um tanto tolo, aos olhos de seus colegas. Como já assinalamos, Stalin, Kruschev e Brejnev construíram suas carreiras dessa maneira.

No inverso, pois, se ele já não for Secretário-Geral, todo político se encaminha para um fracasso certo, se de alguma maneira se distinguir. Foi o caso de Trotski, Bukharin, Kirov, Tukhatchevski e muito outros sob Stalin, depois o de Molotov e do Marechal Jukov sob Kruschev, e o de Chelepine, sob Brejnev. Existe outra incompatibilidade ao bom andamento da carreira de qualquer dirigente soviético: a juventude. Ninguém ignora que o Politburo é povoado de idosos. Quando um militante relativamente jovem é eleito para o Secretariado, provoca uma onda de especulações na imprensa ocidental, que o encara imediatamente como o homem forte do futuro. Mas, em regra geral, são os jovens e os velhos que são afastados do Politburo.

A juventude não garante, de modo algum, a ascensão ao cume da classe dos nomenklaturistas. Pelo contrário, suscita a desconfiança dos membros mais idosos dos órgãos de direção. A elite da Nomenklatura se agarra com firmeza ao seu Poder e a seus privilégios, e afasta todos aqueles que poderiam pretender representar um papel político no futuro: os funcionários que oferecem um perfil político original, e os que conseguiram içar-se muito jovens ao pico da hierarquia da Nomenklatura.

No entanto, não se deve tirar a conclusão apressada de que são os incapazes que conseguem forçar as portas do Politburo e ali se manter. Os eleitos devem somente possuir uma qualidade suplementar: a faculdade de dissimular a sua verdadeira envergadura política, dando a impressão de ser inofensivos ou incompetentes. Se bem que, com exceção do Secretário-Geral, tenham todos a aparência obrigatoriamente terna. Os membros do Bureau e do Secretariado são todos políticos muito astutos.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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