sábado, 27 de agosto de 2016

Além de Temer


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Marcus Faustini

Mesmo que Michel Temer, presidente interino, consiga — após a possível aprovação final do processo de impeachment de Dilma, presidenta eleita — governar até 2018, é impensável que seu governo motive um pacto mínimo nacional que estabeleça alguma satisfação média dos brasileiros. Por várias razões. Duas delas: de um lado o foco para retomar economicamente o país é enfraquecer direitos sociais e trabalhistas, o que certamente acirrará conflitos; de outro lado, seu governo mantém relação interna com os grupos que tiveram expostas suas práticas de corrupção como prática de poder. Ou seja: Temer não atende a nenhuma expectativa de setores da população brasileira que desde 2013 expressam de diferentes formas a insatisfação com o sistema político.

Essa fragilidade favorece apenas pressões de quem tem interesses imediatos, próximos ao poder, para manter privilégios, gente que atua no varejão característico de governos sem projeto de futuro do país. Temer ainda corre o risco de, passado o impeachment, com o desenrolar das investigações de operações como a Lava-Jato, perder seu posto, por conta de diversas denúncias de envolvimento — fato que, a partir de janeiro de 2017, colocaria algum deputado na presidência da República, por eleição indireta. Para aqueles que possuem um real interesse em manter o avanço dos valores democráticos no país e o sentido de inclusão que proporcionam, será preciso acompanhar de perto cada movimento do governo como um todo, além da figura de Temer.

Nesse sentido, os espaços de expressão de opinião em todas as plataformas de meios de comunicação possuem um papel fundamental. Mantê-los abertos para críticas e entendimento de todas as ações, por parte da sociedade, do que é esse governo é primordial. Só isso será capaz de estabelecer um ambiente minimamente aceitável para os próximos anos. Não será possível esconder nem menosprezar aqueles que consideram ilegítimo o governo Temer, por exemplo. E mais: cabe aos meios de comunicação assumir o momento político difícil por que o país passa e manter o engajamento da sociedade na busca de saídas para esta crise.

Qualquer tentativa de amenizar a crise, seus dissensos, pode ainda, como efeito colateral, aumentar o descrédito dos meios de comunicação.
As críticas ao governo, por sua vez, também terão o desafio de ir além da polaridade que nos trouxe até aqui. Manter o debate apenas na figura de Temer enfraquece a dimensão da crítica, favorecendo o estranho momento que atravessamos: mesmo com toda desaprovação, seu governo continua avançando sobre a desestabilização de direitos. Em resumo, quero chamar a atenção, neste espaço semanal que tenho por aqui, para o fato de que é preciso acompanhar de perto todas as ações desse governo.

A atitude crítica em relação ao governo Temer é ambígua e constrangida neste momento. Ambígua porque mesmo aqueles que o criticam limitam-se a escrachar a sua figura como impostor, desarticulando qualquer iniciativa de tentativa de pressão ou diálogo que vise manter direitos. Por outro lado, é constrangida pelo pacto silencioso de empurrar com a barriga o governo, com o argumento de que qualquer crítica estaria apenas a serviço daqueles que estavam no governo central até então.

Ainda não tivemos nenhuma radiografia do governo interino, visto que já se comporta como estabelecido — um raro privilégio adquirido, ao contrário do comportamento da opinião pública, de instâncias de controle e da sociedade civil com os governos da última década. Quais os grupos que ocupam, que interesses defendem em cada área? Se aceitamos que é um governo de transição, é necessário colocar uma lupa em cada área. Ao fazer mudanças em estruturas governamentais, por exemplo, sem debate com os vários estratos da sociedade ou aprovação de pleito, podem estar comprometendo grande parte das ações que desde a redemocratização mitigaram desigualdades — creio que todo brasileiro sabe, no íntimo, que qualquer futuro do país ainda passa pela diminuição delas.

Não será fácil ser brasileiro nos próximos anos. Será ainda mais difícil ser um brasileiro que acredita na política como instrumento de aumento da democracia e da mobilidade social. O debate político estará marcado pela polarização. Acontece que, quando ela é estabelecida como única possibilidade de engajamento, mantém outros caminhos fechados. Tantos caminhos foram abertos desde 2013, para chegarmos a um governo que, mesmo sendo sem respaldo de aprovação pública, segue sem controle algum do debate aberto e democrático. Nenhum amadurecimento da vida política brasileira acontecerá sem a abertura para críticas ao atual governo e sem a qualidade melhorada dessa crítica. É preciso ir para dentro de Temer!


Marcus Faustini é Escritor. Originalmente publicado em O Globo em 23 de agosto de 2016.

Um comentário:

Anônimo disse...

Mesmo depois da saída de Temer, as artimanhas e consequências desse julgamento terão grande influência no governo. Os políticos ainda serão os mesmos e tentarão dar destaques para outros fatos e fazer o povo esquecer de tudo, o que será até fácil.