quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Coexistência Pacífica e Distensão

Enquanto isso, na selva da politicagem tupiniquim...

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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Se o caminho que a Nomenklatura segue e que deve levar à hegemonia mundial\ não é o da guerra, qual é, então? A essa pergunta a própria Nomenklatura responde com a fórmula: “Coexistência pacífica entre países de ordens sociais diferentes”.

Fica-se feliz de que o medo de uma guerra tenha levado a Nomenklatura a fazer seu o princípio da coexistência pacífica, mas não se deve enganar e imaginar que isso seja a garantia de uma paz sem nuvens, e relações internacionais idílicas. Precisamos dar crédito ao fato que a Nomenklatura jamais procurou esconder que no Programa do PCUS, a coexistência pacífica é definida como “a forma específica de luta de classes na arena internacional”.

Entretanto, seus políticos e seus ideólogos se mostram avaros desta definição em seus discursos, livros e artigos destinados ao público estrangeiro. Usam os mesmos processos de Lenin e mencionam o caráter de classe da coexistência pacífica somente em propostas subordinadas, mergulhadas em uma onda verbal gabando as virtudes da paz e da amizade. Um bom exemplo disso nos é fornecido pelo livro, publicado na Áustria pelo jornalista soviético Vladin Kuznetsov:A Política de Distensão Internacional do Ponto de Vista Soviético, escrito em Moscou especialmente para o Ocidente, não foi difundido na URSS.

Quanto a mim – Michael S. Voslensky – expus-me às reações hostis por parte das autoridades soviéticas, quando publiquei, na imprensa alemã-ocidental, artigos expondo as teses oficiais. A fórmula “détente internacional” é o melhor meio que descobriram para camuflar o caráter de classe da coexistência pacífica, e tornou-se tão corriqueira em nossos dias que ninguém se dá ao trabalho de refletir sobre seu exato significado. Se bem que os políticos dos mais diversos países afirmem que não há alternativa para a détente, um bom número deles ficaria muito embaraçado se lhes perguntassem o que é essa distensão, no fim das contas. E o que ela é, em definitivo? Em que se diferencia da coexistência pacífica?

Esta última se define na perspectiva da luta de classes que reina entre os dois sistemas antagônicos, respeitada a teoria leninista. Por outro lado, détente é um conceito intencionalmente mais nebuloso. Os políticos do Partido que puseram essa fórmula em execução, sabem perfeitamente que ela nada tem de leninista, e essa imprecisão do termo não foi querida, não a toleram nem na imprensa comunista. A palavra distensão faz parte do arsenal tático do Movimento Comunista Internacional e entrou na categoria dos programas e slogans aceitáveis para todos os democratas. A tática do Movimento ensina que é preciso lançar esse tipo de programa e de slogans quando se torna necessário assegurar o concurso de forças que não apoiariam um programa abertamente comunista.

Faz-se uma triagem dos diferentes pontos do programa comunista, e retêm-se aqueles que, servindo aos objetivos da direção comunista, podem ser, uma vez isolados do contexto dos projetos da Nomenklatura, interpretados num sentido humanista, naquele de uma moral não comunista (pacifismo, etc) são, então, reformulados sem mais fazer alusão ao conceito de classe, de forma a reforçar a interpretação não comunista. Eis o que é preciso entender por détente, Nada mais é do que a forma, que visa fazer esquecer o conteúdo, levar o Ocidente a tomar esse termo ao pé da letra, e fazer-lhe esquecer que coexistência pacífica não significa cordialidade harmoniosa, mas defrontação dos dois sistemas.

Devemos insistir, mais uma vez, sobre o fato de que, apesar de tudo, a distensão é preferível à Guerra-Fria, e não é contra a distensão que devemos ficar em guarda, mas sim contra uma falsa interpretação do seu real significado. Não devemos preconizar que se ponha um termo a ela e sim esforçarmo-nos simplesmente para pôr em evidência que ela nada mais é do que uma fórmula “aceitável para todos os democratas”, substituída pela de coexistência pacífica.

Serve para esconder o fato de que esta última não implica somente paz e amizade, mas que é também uma forma particular de luta de classes em escala planetária, quer dizer, a luta da Nomenklatura pela hegemonia mundial.

Conhecendo-se a concepção que a Nomenklatura faz da coexistência pacífica, nada há de surpreendente no fato de que ela tenha rigorosamente lhe delimitado os contornos.

O objetivo principal do combate ideológico que a Nomenklatura trava com o Ocidente, não é, certamente, o de estabelecer a superioridade do socialismo real com a ajuda de uma argumentação irrefutável, pois ela compreendeu há muito tempo que só é possível convencer os pequenos grupos que, por diversos motivos, desejam a destruição do sistema ocidental, e estão dispostos a aceitar facilmente a propaganda vinda do outro lado.

A tarefa essencial deste combate ideológico consiste, de fato, em manter a combatividade dos súditos da Nomenklatura e dos comunistas do mundo inteiro num nível elevado, agitando, sem descanso, o espantalho capitalista. Esta propaganda de todos os momentos lhe dá a garantia de que os comunistas do exterior, e seu próprio povo, não levam a sério o mito da amizade com o Ocidente, pois eles sabem, pelo contrário, que o inimigo é o Ocidente, e que as demonstrações de amizade são manobras táticas dos políticos do PCUS. Destarte, a própria Nomenklatura afirma que a intensidade do combate ideológico não poderia diminuir a despeito da coexistência pacífica.

Mantém esta mobilização ideológica para o momento necessário, pois ainda tem na memória o fracasso no inverno 1939-1940, quando lançou o Exército Soviético, sem preparação ideológica, sobre a Finlândia, e encontrou a incompreensão dos soldados – nos meses que antecederam a invasão tinha sido concluído um pacto de assistência fino-soviético -. A mesma causa produziu idêntico efeito quando da primeira fase da guerra entre a União Soviética e a Alemanha hitlerista, período do pacto germano-soviético – do outono de 1939 a 22 de junho de 1941 -, por falta de uma prévia propaganda antifascista.  

Pode-se indagar qual é o sentido dessa propaganda, já que a Nomenklatura soviética não tem a intenção de desencadear uma guerra contra o Ocidente. É preciso não perder de vista que, se ela teme a guerra, isso é apenas por causa da atual correlação de forças. Se ela conseguir modificar essa correlação em seu benefício, de maneira que um ataque não traga riscos, perderia toda a apreensão e passaria ao ataque sem hesitar.

Excluindo o domínio ideológico da coexistência pacífica, a Nomenklatura mostra claramente que ela pensa seriamente em empreender uma guerra contra o Ocidente. Duas outras limitações vêm reforçar essa conclusão: sua recusa em integrar as lutas de libertação nacional e de emancipação social dentro da coexistência pacífica.    

No que concerne às primeiras, a Nomenklatura afirma que os conflito armados que ela apóia militarmente no Terceiro Mundo entram no quadro da distensão. A finalidade dessas confrontações é, entretanto, a afirmação de sua posição nas regiões referidas e, portanto, a ruptura do equilíbrio de forças em favor dos países socialistas. Não estender o campo da coexistência pacífica às lutas de libertação nacional equivale, pois, a incitar o Ocidente a prosseguir em sua política de détente, esforçando-se, ao mesmo tempo, em romper o equilíbrio das forças planetárias em detrimento deste.

Quanto às lutas de emancipação social, temos aí o caso de uma fórmula cabalística que a Rússia ainda não julgou explicar bem. Parece tratar-se dos conflitos sociais, desenrolando-se no Ocidente, suscetíveis de dar, um dia, nascimento às revoluções planetárias. Se se toma a fórmula ao pé da letra, chega-se à conclusão de que a Nomenklatura se reserva o direito de intervir militarmente a fim de levar seu apoio a uma dessas “lutas de emancipação social”.

Tudo depende, pois, da correlação de força internacional, e os próprios políticos da Nomenklatura o admitem. Reconhecem, sem rodeios, que a coexistência pacífica é função da correlação de forças entre os dois sistemas.   


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...


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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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