domingo, 21 de agosto de 2016

Fanatismo e Movimentos de Massa


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um resumo de um dos capítulos do  livro “Fanatismo e Movimentos de Massa”, escrito em 1951 por Eric Hoffer e editado no Brasil em 1968 pela Editora Lidador Ltda. Especialistas consideraram que o livro tem a mesma dimensão de “O Príncipe“, de Maquiavel.
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O Movimento de Massa é gerado por homens de palavras, materializado por fanáticos e consolidado por homens de ação.

A principal preocupação de um homem de ação quando assume o Poder no “chegado” momento é fixar e perpetuar sua unidade e disposição para o auto-sacrifício. Seu ideal é um todo compacto invencível, que funcione automaticamente. Para realizar isso, não pode confiar no entusiasmo, pois o entusiasmo é efêmero. A persuasão também é imprevisível. Ele se inclina, portanto, a confiar principalmente na força e coação. Acha que a afirmação de que todos os homens são covardes é menos questionável do que a de que todos os homens são tolos. Inclina-se a fundar a Nova Ordem sobre as costas do povo e não sobre seu coração. O autêntico homem de ação não é um homem de fé e sim um homem de leis.

Um Movimento de Massa em seu início prega a esperança imediata. Está atento em incitar seus seguidores à ação, e é um tipo de esperança logo ali na esquina que predispõe o povo à ação. O Cristianismo inicial pregava o imediato fim do mundo e o reino dos céus ao alcance das mãos. Maomé fazia pairar o saque perante os fiéis; os Jacobinos prometiam imediata liberdade e igualdade; os primeiros bolchevistas prometiam pão e terra; Hitler prometia o fim imediato da escravidão, e trabalho e ação para todos.

Mais tarde, à medida que o movimento entra de posse do Poder, a ênfase é transferida para a segurança distante – o sonho e a visão, pois o movimento de massa “realizado” preocupa-se com a preservação do presente, e prega a paciência e a obediência acima da ação espontânea – “Quando esperamos pelo que não vemos, esperamos com paciência”.
Todo movimento de massa estabelecido tem sua esperança distante, sua marca de narcótico para dopar a impaciência das massas e reconciliá-las com sua parte na vida. O stalinismo foi um ópio do povo tanto quanto as religiões estabelecidas.

A menos que um homem tenha talento de fazer algo de si mesmo, a liberdade é uma carga incômoda. De que serve ter a liberdade de escolha se o ego é ineficiente? Aliamo-nos a um movimento de massa para fugir à responsabilidade individual ou, nas palavras de um ardente jovem nazista, “para ficar livre da liberdade”. Não foi por pura hipocrisia que os nazistas confessos declararam-se inocentes de todas as barbaridades que cometeram. Consideravam-se logrados e frustrados quando os obrigavam a assumir a responsabilidade por obedecerem ordens.  Afinal, não se haviam aliado ao movimento nazista a fim de estarem livres de responsabilidade?

Ao que parece, então, o terreno mais fértil para a propagação de um movimento de massa é uma sociedade com liberdade considerável, mas sem os paliativos da frustração. Foi precisamente porque os camponeses da França do século XVIII - ao contrário dos camponeses da Alemanha e da Áustria, que não eram mais servos e já possuíam terras -, que foram receptivos ao apelo da Revolução Francesa. Talvez nem tivesse ocorrido uma revolução bolchevista se o camponês russo não estivesse livre a mais de uma geração e não tivesse adquirido o gosto da propriedade privada da terra. 

Aqueles que sentem suas vidas estragadas e desperdiçadas anseiam mais por igualdade e fraternidade do que por liberdade. Se clamam por liberdade, não é senão a liberdade de estabelecer a igualdade e a uniformidade. A paixão pela igualdade é, em parte, a paixão pelo anonimato: ser um fio entre muitos que tecem uma túnica. Um fio não distinguível dos outros. Então, ninguém pode apontar-nos, medir-nos com os outros e expor a nossa inferioridade.

Aqueles que clamam mais alto por liberdade são muitas vezes os que menos felizes seriam numa sociedade livre. Os frustrados, oprimidos por suas deficiências, culpam as restrições existentes por seus fracassos. Na verdade, um de seus desejos mais profundos é pôr um fim à “liberdade para todos”. Querem eliminar a livre concorrência e o cruel teste ao qual o indivíduo está continuamente sujeito numa sociedade livre.

Quando a liberdade é real, a igualdade é a paixão das massas. Quando a igualdade é real, a liberdade é a paixão de uma pequena minoria.
A igualdade sem liberdade cria um padrão social mais estável do que a liberdade sem igualdade.

É evidente que um movimento de massa proselitista precisa romper todos os laços de grupo existentes se quiser conquistar seguidores em número considerável. O convertido potencial ideal é o indivíduo que está só, que não possui corpo coletivo onde possa mesclar-se, perder-se, e assim disfarçar a pequenês, insignificância e monotonia de sua existência individual. Quando um movimento de massa encontra o padrão coletivo de família, tribo, país, etc., em estado de ruína e decadência, é só entrar e fazer a colheita. Se encontrar o padrão coletivo em bom estado, precisa atacar e arruiná-lo. Por outro lado, quando vemos, como aconteceu na Rússia, o movimento bolchevista ressaltando a solidariedade de família e encorajando a coesão nacional, racial e religiosa, isso é sinal que o movimento ultrapassou sua fase dinâmica, já estabeleceu seu novo padrão de vida, e seu principal objetivo é manter e preservar o que já conquistou.

Quando a velha ordem começa a desintegrar-se, muitos dos homens de palavra vociferantes, que pregaram tanto tempo por aquele fim, ficam assustados. A primeira visão do rosto da anarquia apavora-os até a medula. Esquecem tudo o que disseram sobre “o pobre povo simples” e correm a pedir auxilio aos homens de ação – príncipes, generais, administradores, banqueiros, latifundiários -, que sabem como lidar com a ralé e como conter a maré do caos.

O fanático não. O caos é o seu elemento. Quando a velha ordem começa a desintegrar-se, ele arremete contra ela com toda a sua força e ousadia, para fazer com que todo o odiado presente vá pelos ares. Rejubila-se à vista de um mundo chegando ao súbito fim. Ao diabo com as reformas! Tudo o que já existe é lixo, e não faz sentido reformar lixo. Então justifica a sua vontade de anarquizar com a afirmação plausível de que não pode haver novo começo enquanto o que é velho estiver sujando a paisagem.

Joga de lado os amedrontados homens de palavra, se ainda estiverem por perto, embora continue a pregar as suas doutrinas e a ventilar seus slogans. Só ele conhece o profundo anseio das massas em ação: o anseio por comunhão, pela dissolução da maldita individualidade na majestade e grandeza de um todo poderoso. A posteridade é quem manda, e malditos aqueles que, dentro ou fora do movimento, se apegam e veneram o presente.    

De onde vem o fanático? Em grande parte dos homens de palavra não criativos. A divisão mais criativa entre os homens de palavra é entre os que podem achar realização num trabalho criativo e os que não podem. O homem de palavra criativo, não importa quão amargamente critique e deprecie a ordem vigente, está, na verdade, apegado ao presente. Sua paixão é reformar e não destruir. Quando o movimento de massa permanece totalmente em suas mãos, transforma-se num incidente sem conseqüências.

As reformas que ele inicia são de superfície, e a vida flui sobre elas sem uma súbita quebra. Mas isso só é possível quando a ação anárquica das massas não entre em jogo, ou quando a velha ordem abdique sem lutas, ou ainda porque o homem de palavra se alie a fortes homens de ação no momento em que o caos ameaça instalar-se. Quando a luta com a velha ordem é amarga e caótica, e a vitória só pode ser obtida pela absoluta unidade e pelo auto-sacrifício, o homem de palavra criativo é geralmente afastado e a direção do movimento cai nas mãos dos homens de palavra não criativos – os eternos desajustados e os fanáticos depreciadores do presente.

O homem de palavra criativo sente-se mal na atmosfera de um movimento ativo. Sente que sua agitação e paixão solapam suas energias criadoras. Enquanto está consciente do fluxo criador em si mesmo, não acha satisfação em liderar milhões de pessoas e em levá-las a vitórias. Em conseqüência, uma vez que o movimento começa a funcionar, ou retira-se voluntariamente ou é posto de lado. E, o que é mais, como autêntico homem de palavra não pode jamais suprimir completamente e por muito tempo sua faculdade crítica. Ele é, inevitavelmente, transformado no papel de hereje. Assim, a menos que o homem de palavra criativo auxilie o movimento recém-nascido, aliando-se com homens de ação práticos, ou a menos que morra no momento certo, é provável que termine numa reclusão completa, no exílio, ou enfrentando um pelotão de fuzilamento.     

Os movimentos fascistas e nazistas não tiveram uma mudança sucessiva de liderança, e ambos terminaram em desastre. Foi o fanatismo de Hitler, a sua incapacidade de estabelecer-se e fazer o papel de um homem de ação prático, que arruinou o seu movimento.

Trotski era, essencialmente, um homem de palavras, vaidoso, brilhante e individualista até a raiz. O cataclísmico colapso de um império e a sobrepujança de Lenin levou-o ao campo dos fanáticos. Na guerra civil demonstrou talento insuperável como organizador e general. Mas no momento em que a tensão afrouxou, no fim da guerra civil, voltou a ser, novamente um homem de palavras, sem destemor e com negras suspeitas, pondo a sua confiança em palavras mais do que na força incessante, e deixou-se pôr de lado pelo hábil fanático Stalin.

Hitler também foi primordialmente um fanático, e seu fanatismo viciou suas realizações como homem de ação, como se viu.    

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...


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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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Adelsom disse...

Ha algum tempo tento adquirir este livro, sem sucesso. O Sr poderia dar uma indicacao de como posso encontrar? Pode ser o livro fisico ou e-book. Obrigado pelo texto e antecipadamente pela informacao. Abracos!