domingo, 21 de agosto de 2016

Militares Olímpicos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Miriam Leitão

Os brasileiros já estão se acostumando a que o atleta no pódio, ao ver subir a bandeira, bata continência. "É natural que o militar ao ver o pavilhão nacional faça continência, não é obrigatório, claro, mas ele foi treinado assim", diz o ministro Raul Jungmann. O gesto chamou a atenção para a presença das Forças Armadas na Olimpíada. Os militares são 33% dos atletas e 81% das medalhas.

Um dos segredos do sucesso do programa militar é que os atletas passam a ter um patrocínio por oito anos, diz o ministro da Defesa. — Alguns dos nossos atletas não teriam como se dedicar ao esporte se não fosse o apoio das Forças Armadas porque aqui eles têm estabilidade e segurança. Daí deriva o sucesso. O patrocínio privado normalmente é do tipo "stop and go".

Eles são convocados através de edital público, e escolhidos após análise do currículo. Se forem selecionados, fazem um curso compacto de entrada nas Forças Armadas e passam a ser terceiro-sargento com um salário de R$ 3.200 e apoio de treinador, psicólogo, serviço médico, odontológico e acompanhamento do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fisiologia Desportiva. São reavaliados anualmente. Podem ficar oito anos, ou sair no momento que queiram. Se decidirem permanecer, fazem um concurso.

Mas existe também um programa chamado Força no Esporte que atende a 21 mil crianças, que passam a ter acesso às unidades militares, alimentação, ensino de esportes. E agora estamos começando um projeto, que ainda está na fase piloto, de apoio ao esporte paralímpico. O custo do programa de atletas de alto rendimento e mais o de apoio às crianças no esporte é de R$ 48 milhões por ano; baixo se for levado em conta o benefício.

Há lições a se tirar disso. Primeiro que o apoio ao esporte deve ter essa constância, dar ao atleta uma renda estável para que ele possa se dedicar aos treinamentos, segundo, que a vantagem de apoiar o esporte é muito maior do que o que é possível mensurar. É intangível o retorno para a imagem das Forças Armadas ter uma medalhista de ouro no judô que enfrentou todo o tipo de preconceito, como a sargento da Marinha Rafaela Silva.

Ou ter o sargento da Aeronáutica Thiago Braz com a coragem de por o sarrafo a uma altura que nunca havia atingido antes e assim alcançar o ouro no salto com vara. Ou ter o sargento da Marinha, Robson Conceição, que ao ganhar o ouro diz que se não fosse o boxe ele poderia não estar vivo. E ainda a exposição favorável na mídia da nossa primeira medalha, que foi conquistada pelo sargento do Exército Felipe Wu, prata no tiro.

Para além da rentabilidade financeira ou de marketing, o que fica claro num evento como a Olimpíada é que o apoio do país ao esporte é pequeno demais para a dimensão do ganho que se pode ter com isso. Nosso desempenho depende várias vezes de histórias dramáticas de superação, luta e esperança dos atletas. Alguns poucos se destacam, mas há milhares de histórias de dedicação sendo vividas. Só nas Forças Armadas são 670 atletas treinando.

O Programa de Atletas de Alto Rendimento começou em 2008 com a meta de obter medalhas nas Olimpíadas Militares, que seriam realizadas no Brasil em 2011. O Brasil ficou em primeiro lugar em medalhas, e quatro anos depois ficou em segundo, perdendo apenas para a Rússia. Para a Olimpíada de Londres foram 51 atletas militares. Na do Rio, há quase três vezes mais competidores.

O Ministério da Defesa já tem programação para os Jogos Mundiais Militares de 2019 e para a Olimpíada de 2020, com o objetivo de apoiar mais atletas e trazer mais medalhas. O que outras instituições e empresas do país devem fazer é ter programas assim de longo prazo, com metas e a mesma constância no apoio aos atletas e às diversas modalidades de esporte.

Pode-se tentar calcular a vantagem do marketing esportivo, mas os ganhos do investimento em esporte são tão grandes que é fácil entender as Forças Armadas, difícil é entender como não existem outros programas como esses, inclusive financiados pelas empresas privadas. A inconstância do patrocínio, tanto no esporte quanto na cultura, faz com que bons programas sejam abandonados ou tenham que cumprir um calvário para obter anualmente a renovação do apoio.


Miriam Leitão é Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 18 de agosto de 2016.

2 comentários:

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Confesso que todo esse apoio que as Forças Armadas dão ao esporte para fins de competição olímpica,detalhado pela articulista, são para mim uma agradável surpresa. A grande novidade é que não é preciso buscar atletas que ganham milhões em salários,como Neymar,por exemplo,para ganhar esse tipo de medalha. Os militares campeões olímpicos,agora com igual medalha à do famoso futebolista,recebem mais ou menos 800 (oitocentas) vezes menos que os campeões olímpicos militares,por mês. Alguma coisa está muito errada em tudo isso e é preciso que a Grande Mídia não seja cúmplice dessa situação,dando algum espaço para denunciar essa barbaridade.

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Outro aspecto a considerar é que não se pode criticar a iniciativa privada por falta de investimentos no esporte com visão "olímpica", pelo simples fato de que esse investimento não traria qualquer retorno prático à empresa e prejudicaria muito o seu aspecto competitivo no mercado.Órgãos do Poder Público,que no caso têm o "monopólio" daquilo que fazem,como as Forças Armadas,não têm esse problema,porque sempre vão dar um jeito de arrumar recursos para satisfazer as necessidades das suas políticas,e têm até um banco,o Banco Central,para fabricar o dinheiro de toda a "gastança" pública,se necessário. Os empresários da sociedade civil não têm esse privilégio e nem possuem qualquer banco à disposição para fabricar o dinheiro que necessitam. Mas toda essa realidade não tira o mérito das Forças Armadas pelo trabalho que têm de incentivo ao esporte competitivo,pelo que merece ,esta sim,uma medalha de ouro.