quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Os efetivos da Nomenklatura


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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Quantos são eles?               

O fato de que nenhuma informação tenha sido publicada na Rússia sobre a Nomenklatura, e que os documentos que se referem a ela sejam considerados top secret, torna impossível uma avaliação numérica, mesmo aproximada. Com apoio em dados estatísticos publicados, pode-se, no entanto, indicar uma ordem de grandeza.

As fontes podem ser os recenseamentos dos anos 1959 e 1970, assim como as cifras dadas pela propaganda sobre o Partido Comunista. O conceito dessas publicações é tal que os números podem tanto fazer referência à própria Nomenklatura, quanto aos indivíduos em posição subalterna; por causa disso, é preciso separar essas diversas categorias.
De início, temos que examinar detidamente a categoria que se encontra à testa da enumeração: os “dirigentes do Partido, do Komsomol, dos sindicatos e outras organizações sociais, e de suas seções”.

Quem faz parte dessa categoria? Os primeiros secretários, e todos os secretários em geral, os chefes de departamentos e dos setores dos órgãos do Partido e do Komsomol, assim como os dirigentes e os secretários dos órgãos sindicais. Todos pertencem à Nomenklatura, com exceção dos secretários das organizações de base do Partido. Mas, nessas cifras não está compreendida – certamente de propósito – uma parcela importante da Nomenklatura, ou seja, o maior número de membros do aparelho do Partido, os funcionários que não dirigem departamentos ou setores. 

Os números seguintes são citados: Ao nível do Estado (os Comitês Centrais do Partido Comunista e do Komsomol, o Conselho Central e os Comitês Centrais dos Sindicatos da União Soviética e das organizações sociais centrais); ao nível das Repúblicas (os Comitês Centrais dos Partidos Comunistas nacionais e do Komsomol, os Conselhos e os Comitês Centrais dos sindicatos das diferentes repúblicas), dos Territórios e das Regiões (os Comitês de Território e de Região do Partido, do Komsomol e dos Sindicatos); em 1959 havia 25.912 pessoas que ocupavam o conjunto dos postos citados; em 1970, 24.571. No que concerne aos Distritos e Cidades, as cifras atingiam 61.728 em 1959, e 74.934 em 1970.

De acordo com a introdução dos recenseamentos citados, a segunda categoria compreende os dirigentes da administração do Estado e dos postos subordinados. Quem faz parte deles? A Nomenklatura, não no Partido, mas no aparelho do Estado: os presidentes dos Conselhos de Ministros da União Soviética e das Repúblicas nacionais, os ministros e os presidentes dos Comitês Estatais, os presidentes dos Comitês Executivos (territórios, regiões, distritos e cidades), os dirigentes das principais administrações e dos Departamentos de Conselhos Ministeriais, os Ministros e os Comitês de Estado, assim como os suplentes de todos esses funcionários.

Pode-se admitir que a Nomenklatura dos Sovietes Supremos da URSS e das Repúblicas Nacionais também faça parte dessa categoria (se bem que, de acordo com a Constituição da URSS, pertençam aos órgãos do Poder do Estado e não aos da administração estatal). É evidente que a Nomenklatura dos tribunais e da Procuradoria também fazem parte dessa categoria. Como no primeiro caso, o aparelho – KGB e serviços diplomáticos – não está incluído aqui. Pode-se afirmar com certeza que a Nomenklatura das FF AA foi incluída nessa rubrica.

As cifras para a segunda categoria são as seguintes: ao nível do estado Central, das Repúblicas, dos Territórios, das Regiões e Distritos:246.534 em 1959, e 210.824 em 1970; no que se refere a regiões menores e cidades, 90.980 em 1959, e 70.134 em 1970.

Isso é tudo o que indicam os recenseamentos sobre a importância numérica dessa camada que, na realidade, preside os destinos políticos do país. No entanto, esses dados apresentam problemas. A subdivisão da Nomenklatura em duas categorias teria sentido, se uma delas pudesse ser identificada como o seu núcleo central: a parte que está em função nos órgãos do Partido, sem distinção entre direção e aparelho.

Mas não foi publicada nenhuma indicação sobre o aparelho. Além disso, os funcionários dirigentes são colocados junto aos do Komsomol, dos sindicatos e outras organizações sociais, o que torna impossível distingui-los nesse conjunto. Isso significa que a divisão em duas categorias, utilizada nos recenseamentos, não tem significado fundamental para a caracterização da Nomenklatura.

Mas, se for feita a contagem global da Nomenklatura do Partido, da KGB e do aparelho diplomático, chega-se, sem dúvida alguma, a uma cifra que ultrapassa bastante à dos postos atribuídos aos funcionários não pertencentes à Nomenklatura para as categorias referidas. Se for levada em conta as correções indicadas, o número de nomenklaturistas se situa em torno de 100.000 pessoas. Mas, ainda aí, há os nomenklaturistas que trabalham nos aparelhos. Desse modo, não se errará muito situando em 150.000o número de nomenklaturistas da camada inferior.

Destarte, o poder da Nomenklatura na União Soviética é exercido por cerca de 250.000 pessoas, ou seja, um milésimo da população do país. Esse grupo, que não é eleito, nem substituído pela população, decide seu destino e lhe traça as diretrizes políticas.

Em 1970, 300.483 pessoas pertenciam ao grupo dos dirigentes de empresas industriais e agrícolas. Essa fração da Nomenklatura teve um aumento de 6%, e reflete o aparecimento de novas empresas industriais. Finalmente, o número de nomenklaturistas na União Soviética gira em torno de 750.000 pessoas.

Quando se fala numa classe, não se pensa somente naqueles que participam diretamente da produção, mas também em suas famílias. À classe da nobreza pertencem não somente os Condes, mas também as Condessas e seus filhos. É preciso, por conseguinte, incluir nos nossos cálculos as mulheres e os filhos dos nomenklaturistas. Tomemos por base o modelo estatístico corrente de uma família de 4 pessoas. Haverá, sem dúvida, nesta ou naquela família, um genro ou uma sogra, mas, em outra família, a própria mulher é membro da Nomenklatura, ou ainda, numa terceira, não há filhos.

Atinge-se, assim, a cifra de 3.000.000. Aí está a importância numérica aproximada da classe dominante na União Soviética. Essa classe representa 1,5% da população do país. Esses 1,5% se proclamam a força dirigente e o guia do país, “a inteligência, a honra e a consciência de nossa época, os organizadores e os inspiradores de todas as vitórias do povo soviético”. São esses 1,5% que dominam tudo, e que, sem falsa modéstia, se declaram os porta-vozes de um povo de 200 milhões de pessoas, e mesmo de “toda a humanidade progressista”. 


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...



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acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

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