quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Os processos de Moscou


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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Durante os chamados tristemente célebres Processos de Moscou foram utilizados métodos muito refinados de destruição moral e física. Foi para isso que eles serviram.

O primeiro contra o “Centro Terrorista Trotski-Zinoviev”, em agosto de 1936; o segundo contra o “Centro Paralelo Anti-Soviético Trotskista”, em janeiro de 1937; o terceiro contra o “Bloco Anti-Soviético dos Trotskistas Direitistas”, em março de 1938. Os condenados, Zinoviev, Kamenev, Rykov, Bukharin, Krestinski, Piatakov, Radek e outros companheiros de luta de Lenin reconheceram-se culpados de serem agentes de Hitler e Trotski, espiões, sabotadores, terroristas, e de terem querido restaurar o capitalismo. Após as confissõesdos velhos bolcheviques, o Procurador-Geral Andrei Vychinski, um velho menchevique, cansou-se de repetir que era necessário “abater esses cães raivosos”. O veredicto correspondeu a seus desejos. Se bem que alguns dos 54 acusados tivessem sido condenados a longas penas de prisão, nenhum sobreviveu. Processos da mesma espécie se desenrolaram por toda a URSS nos anos 1937-1938, com o mesmo resultado.

Os intelectuais ocidentais de esquerda que acreditavam, com uma ingenuidade tocante, em tudo o que vinha de Moscou, perdiam-se em conjecturas sobre as razões da profunda decadência moral da velha guarda leninista. Os jornalistas burgueses constataram uma série de inverossimilhanças nas declarações dos culpados, e emitiam a hipótese de que os veteranos leninistas se tinham declarado culpados para servir à causa do partido. Quanto aos jornais de direita, achavam que os acusados foram submetidos a uma ação psicológica complicada que lhes teria construído um novo “eu” carregado de um pesado complexo de culpa no quer se referia ao Partido.

Foi por essa época que Stalin contava regularmente a mesma anedota a seus colaboradores do Politburo. Essa história o divertia bastante: um professor zombava de um tchequista que não sabia o nome do autor de Eugen Oneguin. Por causa disso, o tchequista mandou prender o professor, e contou depois a seus amigos: “Ele me fez uma confissão! Foi ele o autor de Eugen Oneguin”. Os membros do Politburo sabiam apreciar, em seu justo valor, a anedota que tanto divertia o grão-senhor. A verdade sobre os Processos de Moscou, eles a conheciam bem: ela era mais simples e mais cínica do que pensavam os ocidentais.

O segredo do método de preparação dessa espécie de processo foi bem guardado. Foi descoberto através do método usado na Checoslováquia – a experiência soviética foi exportada para as democracias populares através dos cuidados dos conselheiros da KGB -: o acusado era submetido a um interrogatório de vários dias e várias noites consecutivas. Os funcionários encarregados do interrogatório eram substituídos de 8 em 8 horas. Impedia-se o acusado de dormir, surravam-no e não lhe davam nada para beber.  

O resultado era garantido: após dias desse regime, o acusado assinava qualquer coisa. Entretanto, os funcionários sabiam que aquele era apenas o primeiro round, e esperavam tranquilamente o seguinte. Após ter dormido, o prisioneiro se retratava e negava suas confissões suicidas. Em vista disso, recomeçava tudo e se repetia quantas vezes fossem necessárias, até o momento em que o acusado tinha só um desejo: acabar com tudo, e afinal ser condenado, ainda que à pena de morte.

Tranquilamente, Kruschev contou no XXII Congresso do Partido: “Mesmo quando se informava ao prisioneiro que a acusação de espionagem havia sido retirada, eles mantinham seus depoimentos anteriores. Achavam preferível confirmar suas falsas confissões, para fazer com que as torturas acabassem mais depressa, e fossem mortos mais rapidamente”.

E era nesse estado de espírito que o acusado chegava ao tribunal. Preparavam, com o maior cuidado, o cenário. O acusado aprendia seu papel de cor, como no teatro. Durante os debates, o presidente do tribunal, Ulrich, e o procurador-geral Vyshinski, tinham, cada um, um exemplar da peça sob os olhos. O acusado representa o seu papel e, em troca, tinha direito a uma recompensa inestimável: até o momento da execução, poderia dormir, e não lhe bateriam mais. Esse é o mecanismo simples de todos os julgamentos que fora realizados nos países socialistas entre 1933 e 1953, julgamentos cujo caráter “misterioso” tanto espantava o mundo ocidental.

A cada nova confissão surgiam novos nomes, e procedia-se a novas prisões. Diz-se que Kaganovitch encontrara uma acertada definição para esse método: ”Procedemos por camadas”, dizia. Esse método levou ao resultado que se conhece bem: os acusadores do inicio se encontraram, por vezes, entre os condenados, ao fim das operações. O destino de Iagoda, chefe da NKVD, é um bom exemplo do que se disse: ele organizou o primeiro processo de Moscou e, no terceiro, fez parte dos condenados à morte.

Iagoda, que entrara para o Partido em 1907, tchekista profissional, colaborador de Dzerjinski, foi substituído por Ejov na chefia da NKVD. Ejov, secretário do Comitê Central, entrara para o Partido em 1917, após a vitória da Revolução de Outubro. Pouco depois de sua nomeação para a direção da NKVD, mandou prender Iagoda e demitiu a quase totalidade dos antigos tchekistas.

Fê-los substituir, na NKVD, pelos membros do aparelho do Partido. Chkiriatov, adjunto de Ejov, tornou-se presidente da Comissão de Controle do Partido no Comitê Central. Foram esses apparatchiks, recém-nomeados, que se tornaram executores da tragédia.

A imprensa, redobrando a bajulação, chamava Ejov de “comissário do povo de Stalin”. Na verdade, o homenzinho macilento, de rosto cavado, era um monstro. As pessoas que trabalharam com ele antes de 1936 na Comissão para a Indústria, no Comitê Central, contam, com um espanto retrospectivo, que Ejov não dava, absolutamente, a impressão de ser capaz de um assassinato. Só se distinguia dos demais burocratas pelo zelo em realizar escrupulosamente o seu trabalho. Não era nem um Macbeth nem um Mefistófeles, mas um pequeno nomenklaturista zeloso que se tornou um dos mais sinistros assassinos do Século XX.

Como todos os seus colegas do aparelho do Partido, agia prontamente quando seus superiores lhe confiavam uma missão. Na Comissão para a Indústria, a ordem era organizar a construção de fábricas: organizou a construção de fábricas. Na NKVD, a ordem era torturar e assassinar: ele torturou e assassinou.

As diretivas que ele recebia eram precisas. Por exemplo, esta: “Ao general Ejov. As pessoas que marquei com as letras Pr, devem ser presas, caso ainda não tenham sido. J. Stalin”. Outra ordem, numa lista de nomes que Ejov tinha enviado com a menção “Prisões eventuais. Para verificar”: “Não verificar. Prender”.

A mesma precisão para o que estava previsto após a prisão. Eis a nota acrescentada pelo honrado V. M.Molotov, Chefe do Governo da época, no processo verbal de confissão de um leninista: “Bater, bater, bater. Torturar durante o interrogatório”. Essas ordens eram conscientemente seguidas.

Da mesma maneira, a conclusão lógica do processo era de acordo com as ordens. No XXII Congresso do Partido citou-se uma Nota de Serviço redigida por Ejov. Era um pedido de autorização de execução “da sentença número 1”referente às pessoas designadas na lista anexa. A autorização foi amavelmente dada, e os carrascos de camisa azul da Prisão Lefortovo arrastaram os condenados para os locais de seus suplícios.

Ejov nada mais era que um executante. No seu lugar, qualquer nomenklaturista teria feito a mesma coisa. Isso não significa que Ejov não tenha sido o carrasco mais sangrento da História da Rússia. Isso somente quer dizer que qualquer protegido de Stalin poderia ser um carrasco em potencial.

Ejov nada mais era do que uma criatura saída do inferno. Nada mais era do que uma criatura saída da Nomenklatura.

A velha guarda bolchevique estava aniquilada. Os stalinistas tinham sido vencedores em toda linha.

Após ter cumprido sua missão, Ejov foi discretamente afastado. Começaram por designar Beria seu adjunto. Depois foi bruscamente encarregado de um posto secundário – Comissário da Navegação Interior -. Ali, mais uma vez, cumpriu sua missão, aplicando largamente os métodos inventados pelo mineiro Stakhanov. Em dezembro de 1938, foi destituído de suas funções de Comissário dos Negócios Interiores.

A partir de então, perde-se o seu rastro. Correu um boato nos meios da NKVD de que ele ficara louco, e que havia sido encerrado numa cela de um hospital psiquiátrico. O silêncio foi bem guardado a respeito do destino de Ejov. Em um manual de História do Partido Comunista, publicado na época de Kruschev, diz-se apenas que “Ejov teve o castigo que merecia”.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

.

acp

Escreva um artigo para desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

acp

.

Anônimo disse...

Então quem o escreveu?