segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um mapa da Nomenklatura


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é mais um resumo de um dos capítulos do livro “A NOMENKLATURA – Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética”, de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.

NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.
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Poder-se-ia desenhar um mapa muito exato da Nomenklatura. Mas isso nos levaria muito longe. Tomemos, pois, um ônibus e passeemos, como turistas, pela União Soviética, por esse país geopoliticamente muito original. País do socialismo real.

Foi Lenin quem descobriu esse país, e pode-se remontar o acontecimento a 25 de outubro de 1918, quando foi, pela primeira vez, para a propriedade colocada à sua disposição em Gorki, perto de Moscou. Essa residência de campo, confiscada de um rico proprietário de terras, foi a primeira datcha estatal mencionada na história da Nomenklatura.

Lenin foi precedido ali por um destacamento de trotskistas, que o receberam, na entrada, com grande pompa. Prosseguindo sua descoberta da Nomenklatura, o cortejo percorreu a residência “cheio de espanto”, como notou um jornalista, “à vista dos móveis de estilo, dos tapetes, dos lustres, dos espelhos venezianos alinhados em suas molduras douradas...”
Lenin ordenou que se deixassem as coisas como estavam, e tranquilamente se instalou no meio de todo esse luxo que aparentemente não o incomodava. Para se referir a essa casa, Lenin, modesto, escolheu a expressão “nossa datcha” – de preferência à de “nossa propriedade” ou de“nosso Palácio de Verão”, que teriam dado o que falar. Datcha tornou-se, assim, a palavra consagrada para designar os numerosos palácios construídos depois pela Nomenklatura.

Desde o verão de 1920 – em plena guerra civil, portanto -, os nomenklaturistas ainda demonstravam um tal ardor na caça aos privilégios que se teve que criar, em setembro de 1920, uma comissão, batizada de “Comissão de Controle do Kremlin”, cuja tarefa consistia em passar em revista os “privilégios do Kremlin”, e restabelecê-los, tanto quanto fosse possível, nos justos limites, de forma a tornar sua existência aceitável aos olhos dos kamaradas do Partido. A informação correspondente foi dada pelas Izvestias do CC do Partido Comunista da Rússia – era esse o nome do PCUS, a 20 de dezembro de 1920 -. Os privilégios, no entanto, não desapareceram – isso, aliás, não tem importância -, mas sim a Comissão que deveria interessar-se por eles, bem como o jornal que publicou a informação.

Já no XI Congresso, em 1922, se fixava um objetivo menos ambicioso: “Por termo às importantes disparidades entre os tratamentos de diferentes grupos de comunistas”. Uma Circular de outubro de 1923, emanada do CC do Partido, se mostra ainda mais discreta. Critica simplesmente “a utilização de fundos públicos para o equipamento das moradias” destinadas às autoridades, “as despesas com os mobiliários dos gabinetes oficiais e com os alojamentos privados”, assim como “a utilização para as casas de campos de certos funcionários e de fundos públicos não cobertos por empenhos de despesa”. A Circular concluía afirmando ser conveniente “aumentar os vencimentos dos colaboradores responsáveis de modo a lhes assegurar um padrão de vida mínimo”.

Em fevereiro de 1932, decidiu-se suprimir o regulamento referente ao teto de remuneração dos membros do Partido, eliminando-se, assim, o último obstáculo que se erguia no caminho dos nomenklaturistas na corrida para o seu bem-estar material. A Ucrânia vivia, então, numa espantosa miséria. Mas a Nomenklatura, que estava a caminho de se constituir como classe, só se preocupava com aumentos de salários, obtidos com grandes golpes de decretos assinados em segredo.

Aproveitando o fato de que tiveram de ser racionados na URSS os produtos alimentícios e os produtos têxteis, durante a primeira metade dos anos 30, foram, simultaneamente, criadas, em proveito da Nomenklatura, cantinas e lojas especiais.

Já nos podemos familiarizar com as condições de trabalho e de vida atuais na Nomenklatura, já visitamos apartamentos e datchas. Vamos, agora, dar uma olhada em outro setor: o das casas de repouso, dos hospitais e das policlínicas.

Existem numerosas estações climáticas na URSS. Mas seria difícil encontrar uma onde o Comitê Central – ou o Conselho de Ministros – não possuísse uma casa de repouso. E ainda que, por extravagância, um Chefe de Setor fosse se “enterrar” numa pequena cidade, ele se misturaria com a multidão de pessoas em férias, numa casa de repouso comum. O Comitê de Cidade do Partido possui ali, com efeito, uma datcha reservada aos nomenklaturistas. Um cidadão soviético comum não poderia, mesmo que pagasse muito bem, ser admitido numa casa de repouso ou numa datcha dessa categoria.

Ali, os nomenkklaturistas estão entre eles. Daí a espantosa liberdade de costumes que reina nesses lugares. Os funcionários da Nomenklatura, de ambos os sexos, que durante 11 meses do ano, representam a comédia da fidelidade conjugal, procuram recuperar, naquele momento, o tempo perdido. Sendo a coisa tolerada, sabe-se que não haverá problemas, na volta, com as organizações do Partido.

Numa obra anedótica, intitulada Coisas vistas em Moscóvia. Estrangeiros Testemunham, lê-se que os moscovitas, como são pessoas discretas, o que se chama “Casa de Tolerância” no Ocidente, eles batizaram de “Casa de Repouso”. É preciso dizer que as casas da Nomenklatura não se distinguem, sob esse aspecto, dos outros lugares de vilegiatura, senão pelos excessos que ali se cometem. Casa e comida são de primeira ordem. Ali se encontra um corpo médico numeroso e, notadamente, belíssimas enfermeiras, o que não é nada desagradável.

Passemos a outro setor: o dos Transportes na Nomenklatura. Já dissemos que um Chefe de Setor pode muito bem viver agradavelmente: trabalhar, repousar, sem jamais ter contato com a população da URSS. Mesmo em seus périplos através da imensidão do continente russo, pode dar um jeito de escapar de qualquer encontro com seus compatriotas.

Apanha suas passagens de trem ou de avião diretamente no CC. A Seção Transportes tem seus escritórios numa casinha de aparência anódina, situada atrás do complexo de edifícios do Comitê Central. O jornalista americano Hedrick Smith contou as declarações de um guia da Intourist, que se queixara abertamente de que, em todos os aviões, em todos os trens e em todos os hotéis, bloqueia-se um certo número de lugares, prevendo a chegada inopinada de algum alto funcionário. O cidadão soviético não se espanta mais com isso. Não ignora que os melhores lugares são destinados ao que se chama “reserva governamental” (bronia) e que as passagens correspondentes só são colocadas à venda 30 minutos antes da partida. Nos hotéis, os quartos assim reservados nunca são ocupados, pois o hotel não sai do lugar e o nomenklaturista pode surgir a qualquer momento.

Na URSS, trens e aviões estão sempre abarrotados. Vêem-se filas, alongando-se interminavelmente, durante dias, diante dos guichês de reserva. Nas bilheterias das estações, é um grande privilégio conseguir reservar um lugar.

Um chefe de Setor tem sua passagem no bolso, um Volga negro o leva para a estação ou para o aeroporto. Ele não se dirige para o edifício central, mas para uma sala reservada chamada “Sala dos Deputados do Soviete Supremo”. Invenção original que cumula de legítimo orgulho os funcionários encarregados de zelar pelos nomenklaturistas. Isso lhes pode parecer possuir um arzinho democrático, bem no espírito da Constituição: não é uma sala para altas personalidades, mas uma peça simples, reservada aos representantes do povo, aos quais todos dão seus votos.

Mas quem duvida que, na maior parte do tempo não são os deputados que se vão instalar naquela sala, de móveis requintados e tapetes macios, a qual se destina um pessoal especial, principalmente os funcionários da Nomenklatura? Além do mais, o numero de deputados em viagem não é de tal ordem que justifique a manutenção de uma vasta rede de salas. E, depois, seria preciso resolver outro problema: como fazer com que estrangeiros, perfeitamente conscientes de não serem deputados no Soviete Supremo, fossem admitidos naqueles locais? Escreveu-se, simplesmente, em inglês, “VIP-Hall” sobre a placa que assinala, em russo, a existência daquela sala. Quem, pois, iria ofuscar-se de ser tratado de “very important person?”

Guiado por um pessoal amável, bem diferente daquele que, em outras salas, trata asperamente os usuários, o nomenklaturista atinge diretamente o trem ou avião, alguns minutos antes que os demais viajantes sejam chamados. É preciso evitar que os nomenklaturistas se encontrem com o povão nos corredores ou nas plataformas de embarque. No vagão-leito da primeira classe ou na primeira classe do avião encontra seus pares. Após a aterragem, a escala móvel é colocada, inicialmente, na altura da primeira classe.

O nomenklaturista desce para a pista, inteiramente desembaraçado, e as autoridades locais vêm recebê-lo. Só depois disso deixam descer os demais passageiros. No desembarque dos trens, o nomenklaturista é obrigado, infelizmente a misturar-se com o povo. Mas não há um grande trajeto a fazer na plataforma. Basta-lhe atingir a “Sala dos Deputados” da estação de chegada. Na sala reservada, um carro do CC do Comitê da Região, ou da Cidade, do Partido, espera-o para levá-lo a uma residência já para si reservada.

Eis um lugar ideal para preparar uma alocução aos membros do Partido, abordando um tema clássico, como, por exemplo, “A União do Partido e do Povo”    


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...



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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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