domingo, 25 de setembro de 2016

A Política Armada - Fundamentos da Guerra Revolucionária


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo são as Considerações Finais do livro “A Política Armada – Fundamentos da Guerra Revolucionária”, de autoria de Hector Luis Saint-Pierre, editado em 1999 pela Editora UNESP. O livro é, antes de tudo, um estudo minucioso, erudito e atualizado dos aspectos estratégicos da guerra revolucionária. Atualmente, o autor é professor na Universidade Estadual Paulista – UNESP -, Campus de Franco, onde coordena o grupo de Estudos Estratégicos dos Movimentos Armados e dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos.
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Este trabalho concentra-se na parte mais dura da luta  revolucionária. Ou seja, no momento em que toda violência social é organizada e canalizada estrategicamente para a guerra revolucionária. O objetivo deste trabalho foi apenas o de refletir sobre o significado político-estratégico dos meios utilizados pela luta armada, desde os seus primórdios espontâneos até a mais sofisticada técnica da informática.

Talvez tenham razão Toffler & Toffler (1944) quando dizem que não será lutando da maneira como o fizeram os que ganharam a última guerra que a próxima será vencida, mas também é certo que apenas estudando as formas como se lutou historicamente é que podemos conhecer as novas alternativas tecnológicas e, fundamentalmente, compreender o significado político das numerosas guerras atuais.

A Guerra do Golfo popularizou o conceito equívoco de “guerra inteligente”. Com esse adjetivo especificamente humano e com a transmissão televisiva em estilo hi-tech, a imprensa tentou passar a idéia de uma guerra “cirúrgica”, que se limitava a “extirpar” o estritamente necessário, evitado vítimas inocentes. Mas, na realidade, essa “inteligência aplicada à arte bélica não significou que a guerra tornou-se ‘mais humana” ou menos crue. Muito pelo contrário, parece que cada passo no desenvolvimento tecnológico nos afunda mais na barbárie.

No contexto da guerra fria, Raymond Aron dizia que a guerra era improvável, mas que a paz era impossível. Ainda assim, para ele, a paz deveria ser perseguida como um princípio normativo. Se a guerra parece inevitável, talvez devêssemos procurar os meios jurídicos para que seja a menos cruel possível. Humanizar as guerras, procurando normatizá-las juridicamente, embora difícil, deve ser um objetivo a ser perseguido. Mas não devemos esquecer que não há forma incruenta de fazer a guerra, muito menos a revolucionária, em que até a tortura é utilizada e justificada. 

Só resta, então, premeditar a política, a estratégia e os meios táticos que consigam evitar a guerra ou, pelo menos, que levem rapidamente a seu término com o menor número de vítimas humanas. Poder-ser-ia considerar essa postura como “belicista” ou ”militarista”, e que teorizar sobre a luta armada significa aceitá-la u até mesmo propô-la. Só podemos lembrar que o otimismo é compreensível e até desejável no líder, assim como uma virtude naqueles – os condottieri - que devem inculcar o ânimo e o espírito de luta em seus seguidores, mas esse mesmo otimismo no estrategista, constitui um pecado mortal.

O político deve procurar, por todos os meios, evitar a guerra, particularmente quando pertence ao campo popular – quase sempre em inferioridade no poder de fogo em relação à disponibilidade de meios das classes dominantes. Mas não pode desconsiderar a eventualidade de que a luta, no seu processo de agudização e agravamento, possa tornar inevitável o confronto armado. 

Aqueles que tenham como valor fundamental o princípio da igualdade social e que, coerentes com ele, decidam colocar suas vidas a serviço da revolução, deverão estar cientes de que, chegada a hora, talvez não possam eludir a responsabilidade de canalizar estrategicamente o acúmulo de forças revolucionárias para a ruptura institucional. Deverão saber que isso significa aceitar a possibilidade de ter de matar ou morrer, ainda que muitas vezes isso resulte num sacrifício inútil.

Para tentar evitar que essa canalização acabe em um fracasso militar certo e em um retrocesso político incalculável, o projeto revolucionário deverá contar com uma concepção estratégica adequada às relações de força que definam a situação. Mas uma concepção estratégica não se improvisa da noite para o dia, muito menos uma concepção estratégica revolucionária que deve equacionar um número muito grande de variáveis, muitas delas levantadas com a imprecisão própria da clandestinidade. Por isso, a questão da estratégia revolucionária deve ser estudada, refletida e deliberada por todos aqueles que considerem entre os futuros prováveis a revolução.

Tentamos mostrar, ao longo deste texto, que não são os meios historicamente utilizados nas guerras revolucionárias os que conferem a estas sua característica. Uma guerra não será revolucionária por utilizar tais ou quais meios: a guerra é apenas um meio da política e é esta que a caracteriza e define. Se a guerra revolucionária é “apenas” um meio da política revolucionária, não devemos esquecer que é o mais drástico, e que se não é sabiamente deliberado quanto à sua oportunidade, planificação e conseqüência, pode contribuir para eliminar rapidamente toda uma geração de jovens revolucionários, como aconteceu em vários países latino-americanos nas últimas décadas. Ante essa constatação histórica, renova-se a advertência de Lenin: “A questão decisiva é sempre a de saber se um determinado método de luta, numa dada situação, contribuirá com a organização ou com a desorganização da força revolucionária, se contribuirá para seu fortalecimento ou para seu debilitamento’.

Toda guerra, incluída a revolucionária, é ua experiência marcante e trágica. Muitas vezes, seus efeitos ficam extremamente longe dos desejados, quando não, seus resultados é totalmente contrário às expectativas depositadas. Os riscos configurados diante da eventualidade de um conflito bélico, seja este do tipo que for, exigem a consideração de todas as variáveis intervenientes e, sobretudo, das conseqüências que possam resultar dos acontecimentos desatados. Na guerra, matar a ou morrer é inevitável, mas ante a derrota toda morte é estúpida. Um quadro revolucionário é um elemento político sofisticado e raro da luta revolucionária.

Sua formação leva muito tempo e seu valor político-estratégico é incalculável para jogá-lo numa aposta incerta. Diferentemente dos conflitos políticos-eleitorais ou políticos-parlamentares, nos quais a derrota é apenas a passagem à oposição, mas ue em todos os casos significa a permanência no “jogo” político, no caso da guerra revolucionária a derrota pode significar a exclusão política e, portanto, um retrocesso histórico da luta.

Se a a luta é provável, dever-se-ão reavaliar e aperfeiçoar todos os meios para qualquer eventualidade que a política proponha. A luta armada, pela sua periculosidade e complexidade, é um meio que deve ser evitado, sem esquecer que não pode ser improvisado e, por isso mesmo, não deve ser negligenciado. O caminho revolucionário muitas vezes passa pela ruptura institucional, e não estar preparado política, estratégica e taticamente para essa alternativa pode resultar em um suicídio coletivo.

Lançar-se à luta armada quando as condições objetivas não estão suficientemente amadurecidas pode significar um “salto no escuro” ou uma “loucura coletiva”, mas não estar preparado para o momento em que as trombetas de Marte anunciarem a chegada da hora, pode significar uma irresponsabilidade histórica imperdoável e a tardia constatação de não haver Estado à altura dos acontecimentos.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

A palavra "Estado" no trecho "não haver Estado à altura dos acontecimentos" é grafada em minúscula por se tratar do particípio do verbo "estar".

Anônimo disse...







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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

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