segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ilusão de Virtude - II


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

Há uma esquerda aberta ao diálogo, que alguns patetas chamam de direita. Mas existe outra esquerda que é incapaz de dialogar, a qual se define - embora costume ocultá-lo - como revolucionária. É aquela que só vai respeitar a Constituição e as leis se lhe convier, ou quando não for possível transgredir. É dessa esquerda agressiva, intolerante, fanática e sectária que se trata aqui.

Entrevistado por Época, Antonio Risério disse bem: "Há anos não temos marketing político no Brasil, mas marketing eleitoral - assim como não temos partidos políticos, mas partidos eleitorais." Com a ressalva de que não só a esquerda se profissionalizou nesse aspecto, a questão é: com as aprimoradas técnicas de marketing de hoje, como se dá e que efeitos produz a insidiosa propaganda ideológica dessa esquerda revolucionária? Com que grau de eficácia ela difunde suas crenças falsas e destrutivas?

Parte da resposta está em como é capturada a ingenuidade do eleitor para o projeto revolucionário. A pregação esquerdista mira na fraqueza das pessoas. Ora, em maior ou menor grau, o ser humano é egocêntrico. E a doutrinação ideológica (hoje com o auxílio do marketing) procura explorar precisamente o nosso egocentrismo, acabando por manipular (eis o mais perverso) o que há de melhor em cada um: para satisfazer o difuso desejo de ser bom e de ajudar a justiça, sentimento que grande parte das pessoas tem, por exemplo, é oferecida a ilusão de uma superioridade moral da esquerda, que se insinua como caminho único de dignidade. Uns quantos, precários de reflexão, agarram-se a tal ideia para ter a sensação de significar alguma coisa.

Em geral é sem malícia: os que caem nessa não têm consciência da manipulação. Aliás, tampouco os marqueteiros a serviço da esquerda costumam compreender a psicanálise da coisa, atuando de modo intuitivo - mais arte que ciência.

Foi assim que "ser de esquerda" acabou tornando-se "elemento identitário", mais ou menos como ser flamenguista ou vascaíno. Desejosos de ter identidade, os "convertidos" sentem-se compelidos à simples adotação de um rótulo: uma escolha estética sem o crivo da racionalidade, sem conhecimento, sem informação. Refletir para quê? O que importa é ter uma bandeirinha - com muito orgulho.

Pergunte-se a um autoproclamado esquerdista o que é "ser de esquerda" e, na quase totalidade dos casos, o que vem é uma resposta patética, desinformada e de baixa retórica. Com um discurso cheio de clichês e vazio de conceitos, ele há de mostrar-se incapaz de sustentar um debate racional sobre a conveniência de uma intervenção maior ou menor do Estado na economia. Mas não seria essa uma questão basilar para definir o que é direita ou esquerda? E será razoável que, sem um esclarecimento teórico mínimo, alguém alegue ter posição definida?


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

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