sábado, 24 de setembro de 2016

Peripécias do Sétimo Batalhão Blindado

Josef Skvorecky

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Apesar de outros infortúnios, o Sétimo Batalhão Blindado e seus comandantes foram incluídos na Parada de avaliação diante do Comandante-em-Chefe do Exército Mecanizado e Blindado. Foram distribuídas medalhas aos soldados exemplares dos carros de combate e, numgrand finale, o título de Motorista de Tanque Mestre foi conferido ao Sgt Ocko.

A faixa decorativa estava ali para salvar a alma marcada do capitão Marka para curar os ferimentos causados por ter homens tão ignorantes que e perdiam por trás das linhas do inimigo com um esquadrão completo de tanques, que não sabiam qual era a direção de Praga, ou que só souberam citar alguns dos 37 ministros do governo durante o exame de capacitação política.

O capitão Marka levou Okho ao seu escritório para, com a assistência de Ruzicka e Hospodin, ajudar o Sargento a preparar-se moral e ideologicamente pra a a grande honra. Ele sabia que essa preparação seria especialmente apropriada no caso de Ocko, pois o motorista tinha um palavreado pouco condizente com um novo soldado socialista. Mais tarde, o sargento Ocko fez um relatório lacônico daquela sessão de suas horas no escritório do Capitão.
    
- Porra, cara – disse ele – desenrolando sua perneira de pano fedorenta -, os filhos da puta gritaram comigo durante duas horas, e me disseram, ente outras coisas, que eu devia estar orgulhoso daquela honra de merda, cara; quando eu perguntei se podia usar essa licença, sabe o que os filhos da puta responderam? Que eu tinha que esperar até voltar para a porra da vida civil, cara. Eles que se fodam.

O glorioso dia finalmente chegou. Toda Divisão, com fardas de passeio, reuniu-se para uma avaliação no capo de futebol. Era um típico dia de outono, um vento frio soprava as bandeiras tremulavam no telhado do estande da revista, e os homens do Sétimo Batalhão Blindado perfilavam-se com as fardas imaculadas, distribuídas naquela manhã, as quais haviam sido inspecionadas e consideradas perfeitas por um grupo de generais. No último momento o Cap Marka ficou aflito com o que esperou que fosse o último desastre da avaliação: o coronel descobriu que um dos agitadores políticos do batalhão, o Sgt Macha tinha tatuagens imorais no corpo e que no caderno de anotações do Soldado Mengele havia um esboço de uma viagem inacabada pelo mundo, desenhada com ima linha dupla contra o fundo dos dois hemisférios. A linha dupla era dividida em 730 quadrados, cada um representando um dia no serviço militar. A maioria deles estava preenchida com tinta vermelha. O esboço tinha um significado claramente internacional, pois o general russo entendeu sem que lhe explicassem, e o Major Borovicka condenou Mengele a dez noites de detenção no corpo da guarda.

Mas esses lapsos adicionais dos subordinados do  Capitão Marka não mais o preocupavam. Empertigou-se diante de seu corpo de oficiais, com as nuvens cinzentas refletindo-se nas suas reluzentes botas de montaria. Pássaros circulavam abaixo das nuvens, juntando-se para a viagem rumo ao sul, e abaixo deles, o presidente da banca examinadora fazia um m longo discurso. Com orgulho, afirmou que o Sétimo Batalhão Blindado tivera esplêndidos resultados, pois na avaliação geral tinha conquistado nota três, considerada boa. Mas eles não deviam se esquecer, continuou, que apesar desses resultados, teriam que pensar nos erros a serem corrigidos, e leu uma lista interminável desses erros.

Depois da ordem “Tropas! Atenção! A Divisão  ficou imóvel, e ouviu-se a voz trovejante do general gritar “Sargento Ocko” nos alto-falantes, como uma trombeta, anunciando o Juízo Final. Depois, em contraponto a essa trovoada eletrônica, ouviu-se a voz,sem amplificação, do Sgt Ocko dizer “Presente”, e finalmente a ordem para ele se aproximar.

O Sgt Ocko saiu em sua peregrinação triunfante pelo pátio, marchando com um passo não regulamentar. Subiu ao estande da revista e apresentou-se ao general. O general retirou a medalha dourada da caixa e prendeu-a ao peito de Ocko. Ao fazê-lo, sua voz trovejante ecoou pelo pátio: “Camarada Sargento! Pelos poderes a mim conferidos pelo Ministro da Defesa Nacional, o general doutor Alexej Cepicka, eu o nomeio motorista do Tanque Mestre. 

Seguiu-se um som borbulhante no pátio, possivelmente a resposta regulamentar ‘Eu sirvo ao povo!”, que só poderia ser pronunciada pelo próprio Sgt Ocko. Nesse ponto, o general, que era uma ave rara – um oficial cm experiência no front – perdeu a cabeça. Comovido talvez por aquela cara rural crestada pelo vento que tinha diante de si e lelmbrnao-se de outras caras assim que nos tempos de guerra o rodeavam nos tanques – tão diferentes das caras que o rodeavam agora no Ministério -, cometeu um erro tático. As mãos vermelhas e grandes do Sgt Ocko lhe sugeriram que o domínio da arte de dirigir tanques era real, não apenas teórica, como tantas habilidades que ele presenciara durante os poucos anos de avaliação, e o veterano de guerra emotivo pergutou côo sua voz simpática:
    
- Muito bem, kamarada Sargento, como o senhor aprendeu a guiar um tanque tão bem?

Suas palavras soaram claras ao longo do pátio e foram imediatamente seguias pela voz igualmente clara do Sgt Ocko;
    
- Eu não tive problemas com essa porra, camarada general. Na vida civil eu guiava um carro todo fodido. Por trás deles, nas filas dos oficiais, as pernas do Comandante do Sétimo Batalhão Blindado, o capitão Vaclav Marka bambearam e seu oficial político teve que ampará-lo.

E o bando de pássaros do CE finalmente decidiu-se. Entrou em formação em ouvir qualquer ordem e começou a viagem para o sul, para climas mais hospitaleiros ainda governados pelo inimigo de classe. 
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O texto acima foi escrito em 1968, após a invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas, que esmagaram Primavera de Praga. A República das Putas faz comédia para falar sobre a corrupção e os absurdos durante a preparação do Exército Checo para a “guerra” contra os Estados Unidos. O livro relata a vida no Exército Democrático do Povo em seus momentos mais insanos e rudes. Este é apenas um dos capítulos.

Josef Skvorecky, autor do livro, em 1990 recebeu das mãos do então presidente Vaclav Havel, a ORDEM DO LEÃO BRANCO, a mais alta condecoração da República da Checoslováquia, por seus serviços em prol da literatura do país. O livro foi editado no Brasil em 1999 pela Editora Record. Skvorchy atualmente é professor de literatura e cinema na Universidade de Toronto.    

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...






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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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