domingo, 9 de outubro de 2016

Mensagem a Cristóvam


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por João Vinhosa

Esta é uma mensagem encaminhada por um modesto professor a quem mais entende de Educação no país.

Depois desta breve apresentação, Senador Cristóvam, devo acrescentar que sou um engenheiro que nos últimos vinte anos tem se dedicado ao ensino de Matemática e de Raciocínio Lógico. Durante mais de dez anos dei aulas em faculdades de Engenharia, Matemática, Administração de Empresas e Sistemas de Informação. Paralelamente, dei aulas em cursos para concursos públicos, em cursos técnicos e em diversos cursinhos de Matemática elementar oferecidos por entidades filantrópicas.

Naturalmente, a convivência com alunos dos mais diferentes níveis de escolaridade (universitários, crianças, adolescentes e adultos que já estavam fora da escola há muito tempo) me proporcionou a oportunidade de ser um privilegiado ouvinte das reclamações contra o ensino da Matemática.

Por ter sido um privilegiado ouvinte, Excelência, depois que li seu artigo “Ouçam as crianças sobre o ensino no Brasil”, eu resolvi lhe enviar esta mensagem.

Apesar de concordar com toda a argumentação contida em referido artigo, com o único objetivo de colaborar no esforço que nosso país terá que fazer para minorar suas deficiências na área da Educação, eu venho fazer algumas observações, no sentido de evitar que uma pequena falha venha prejudicar toda a estrutura.

Por razões didáticas, antes de fazer tais observações sobre o que vai contido no citado artigo, discorrerei sobre o calcanhar de Aquiles de nossa Educação, o ensino da Matemática Básica. Caso providências não sejam tomadas no sentido de promover mudanças na maneira de se ensinar a Matemática Básica, esta matéria poderá ser um gigantesco obstáculo ao sucesso da reforma do Ensino Médio prevista na MP ora em discussão no Legislativo.

Como se sabe, existe uma inquebrantável interligação entre diversas partes da Matemática. Ou seja, para que se entenda determinada parte da Matemática é indispensável que, antecipadamente, a pessoa conheça assuntos a ela interligados. Por causa de tal interligação, alunos que não dominam determinadas partes da matéria não têm a menor condição de entender as aulas de Matemática que estão assistindo.

Por causa dela, à medida que o tempo passa, o aluno despreparado fica mais traumatizado com a matéria, criando um abismo cada vez mais difícil de ser transposto.

Imaginemos, por exemplo, o que é indispensável saber para se entender a resolução de um problema que envolva o conhecimento de equação de segundo grau – assunto que, normalmente, é apresentado aos alunos na faixa de 14 a 16 anos de idade.

Para solucionar o problema, em primeiro lugar, o aluno tem que ter “raciocínio algébrico” necessário para transformar a linguagem corrente na qual o problema é apresentado em sua correspondente linguagem matemática (um sistema de duas equações e duas incógnitas).

Em segundo lugar, após montado o sistema, o aluno tem que saber resolvê-lo por um dos métodos conhecidos, para o que é necessário o domínio de equação de primeiro grau.

No caso em questão, a solução do sistema de equações dará origem a uma equação de segundo grau.

Determinada a equação do segundo grau, assunto que o aluno está começando a aprender, ele é apresentado à fórmula geral que soluciona a equação.

Nestas alturas, para efetuar as operações contidas na fórmula, o aluno deverá conhecer os seguintes assuntos: frações ordinárias, raiz quadrada, potência e operações com números dotados de sinal (números relativos).

Caso o aluno não saiba um desses pré-requisitos, será impossível ensinar-lhe equação de segundo grau. E um aluno que não sabe equação do segundo grau tem o restante de seu estudo de Matemática comprometido.

Acontece que o sistema de aprovação automática (ou facilitação para evitar que o aluno seja reprovado, o nome não tem a menor importância) permite que o aluno vá sendo empurrado para frente sem dominar o conteúdo anterior. E, devido ao fato de não dominar os pré-requisitos, o aluno fica como um autêntico zumbi dentro de sala.

Mostrada esta cruel realidade, Excelentíssimo Senador Cristóvam, passemos às observações sobre os trechos (a seguir enumerados) de seu artigo “Ouçam as crianças sobre o ensino no Brasil”.

1 – “Uma das causas da evasão está na desconsideração da diversidade vocacional dos estudantes para escolher as disciplinas que lhe agradam.”
OBS: Tenho todos os motivos para acreditar que a principal razão da brutal evasão escolar é a incompatibilidade com a Matemática Básica. Forçar um aluno que não domina os pré-requisitos a entender um assunto de Matemática é transformá-lo num inimigo da escola.

2 – “o aluno deve ter o direito de escolher a sua demanda.”

OBS: Concordo plenamente com essa proposta. Acontece que isso não o livra do monstro da Matemática que o persegue.

3 – “adoção do horário integral”.

OBS: No artigo “A reforma do Ensino Médio e o trauma psicológico causado pela Matemática”, manifestei a seguinte opinião:”caso aumentem a carga horária de um aluno que não está entendendo determinado assunto de Matemática sem lhe explicar os pré-requisitos, a emenda será pior que o soneto; afinal, é mais suportável ficar como um alienado na sala de aula durante uma hora do que ficar durante duas horas como um aluno incapaz de compreender o que está sendo exposto.”

Finalizando, Excelentíssimo Senador Cristóvam, informo que, em outros textos, apontei sugestões de como tratar o ensino da Matemática Básica para alunos que não aprenderam a matéria quando lhes foi ensinada na escola.

Parabenizando-o pela coerência e intensidade com que defende a Educação, coloco-me à disposição para ajudar em sua luta.

João Vinhosa é Engenheiro e Professor - joaobatistavinhosa@gmail.com

Um comentário:

Anônimo disse...

Cristóvam Buarque confia que o socioconstrutivismo na alfabetização, trazido por ele, tenha afetado o raciocínio das crianças para facilitar o que a esquerda quer implantar. Quando as pessoas "inteligentes" irão entender o que afirma Olavo de Carvalho: que com comunista é inútil (e ingênuo) argumentar? Somente o estudo sério dos métodos da esquerda e o conhecimento dessa mentalidade impedirão que o comunista zombe veladamente do interlocutor que ignora a atuação estratégica de avanço dessa agenda.