terça-feira, 29 de novembro de 2016

As Ambivalências do Pensamento de Mao


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi publicado no livro “História do Marxismo – O Marxismo Hoje”, escrito por Eric Hobsbawn. O texto é de autoria de François Godement, Professor de Ciência Política desde 1992. François Godement recebeu nomeações de ensino na Universidade da Califórnia,  no Instituto Nacional de Línguas Orientais e Civilizações (INALCO) até 2006, no Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI) 1985-2005, e em Sciences Po, Paris.

É graduado pela Ecole Normal e Supérieure de la rue d'Ulm (Paris) , Foi estudante de pós-graduação na Universidade de Harvard  e tem um Ph.D. na História Contemporânea. Sua pesquisa centra-se em assuntos estrangeiros da China, fatores domésticos de concepções estratégicas e internacionais da China.
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Seria o caso de analisar a ambivalência – no sentido da dialética e, ao mesmo tempo, da duplicidade - de Mao. Sabe-se que se justapõem todos os seus escritos oficiais de antes de 1949 – artigos, discursos, conversações gravadas na época da fundação da República Popular -, é possível fazer com ele diga tudo o que quiser. Em 1956, particularmente, Mao se sentiu ameaçado pela onda provocada pelo XX Congresso contra o culto à personalidade e o stalinismo.

Ainda que hostil a Stalin – o qual, de resto, lhe devolvia o mesmo sentimento – Mao distanciou-se, então, no plano ideológico, do caminho soviético e dos erros do Partido Comunista Chinês, utilizando seu próprio prestígio para construir para si uma imagem de corretor dos erros, bem acima da “burocracia” do Partido. Desse modo, ele justapôs a crítica trotskista a um autoritarismo substancialmente stalinista, e pôde defender por algum tempo, em 1956-1957 soluções reformadoras não dessemelhantes das kruschevianas, precisamente ao mesmo tempo em que acelerava a coletivização agrícola e encorajava o produtivismo stakhanovista.

Trata-se de uma duplicidade em parte explicável pela propensão às fintas e às astúcias da política, mas fundada na realidade sobre um controle complexo dos aparelhos de segurança. Os simpatizantes ocidentais do maoísmo teriam podido, na verdade, compreender essa atitude através de alguns textos reveladores sobre o primado do culto da força e do antiintelectualismo bem pouco teórico de Mao. Mas eles não tinham tido a experiência concreta – como os guardas vermelhos – de um chefe que se revoltava contra quem ele mesmo tinha promovido. Assim, até hoje, alguns temas maoístas – como o igualitarismo, a abolição da divisão do trabalho, a luta contra as tendências ao “comando” e à burocracia, a auto-suficiência do desenvolvimento, o direito de rebelar-se sob o socialismo – constituem idéias mais sedutores do que uma homilia sobre as “quatro modernizações”.

Mas seria errado querer atribuir a Mao uma visão profética dos problemas do socialismo, quando cada vez se torna mais claro que ele não fez muito para resolvê-los; seria como, no plano teórico, confundir algumas intuições de Fuerbach com a dialética hegeliana, esquecendo que, para o marxismo, um discurso vale por seu enraizamento na prática. Na realidade, a sociedade chinesa voltou a se mover apenas com o fim do maoísmo, e, se não é possível chegarmos aqui a um quadro exaustivo de paralisia provocada pelo maoísmo, podemos buscar apresentar alguns exemplos significativos:
    
1. o mecanismo de acumulação e a distribuição dos investimentos. A taxa de acumulação jamais diminuiu depois do proclamado abandono da planificação de tipo aoviético. Atingiu 43% em 1939 (no apogeu do “Grande Salto para a Frente”) e permanece certamente em torno de 30% durante os anos 70. O primado da indústria pesada manteve-se rigorosamente estável, representando 76-77% dos investimentos de 1954 a 1977. De modo ainda mais significativo, nesses mesmos anos, por causa da subavaliação dos preços agrícolas, o campo financiou globalmente o desenvolvimento industrial e urbano. Somente hoje, mediante subsídios orçamentários, é que começa a ocorrer uma transferência de investimentos para a agricultura.
    
2. O reequilíbrio geográfico do desenvolvimento. Apesar das transferências de recursos fiscais das regiões costeiras para o interior, a distribuição geográfica da produção industrial é hoje mais ou menos a mesma – percentualmente – que no inicio da planificação. Numerosos projetos idealizados em regiões pouco acessíveis, mal coordenados e mal planificados, foram definitivamente abandonados.
    
3. O igualitarismo das rendas e dos recursos. Os anos de Mao conheceram uma estagnação global dos salários, que não aumentaram nem em valor relativo nem em valor real, de 1957 a 1978. No Ocidente prestou-se muita atenção à progressiva extinção dos salários para os especialistas ou membros da burguesia nacional, bem como ao freio posto ao enriquecimento das regiões rurais mais ricas através da luta contra as atividades privadas e os mercados livres. Não se viu assim “kulakização” numa agricultura que, na verdade, já era coletivizada, ao passo que o consumo privado em cidades permanecia mais um privilégio político do que um fenômeno econômico.

O internamento obrigatório, em domicílios, dos mendigos, o envio para o campo de mais de 20 milhões de jovens, as restrições à mobilidade (contraditadas pela existência de uma forte população ilegal, mas clandestina, nas grandes cidades), deram a impressão de um país que evitava o êxodo rural e as tensões de outros grandes países subdesenvolvidos, fazendo esquecer que essa política de estabilização ocorria ao preço da conservação de várias zonas de miséria camponesa.

Independentemente das graves desigualdades locais, uma investigação de 1979, relativa a 10% dos distritos chineses habitados por 11% da população rural (88 milhões de pessoas) atestou que a renda anual per capitados mesmos é inferior a 50 yuan (cerca de 40 dólares). Segundo as fontes oficiais chinesas, encontrava-se nessa situação, em 1977, cerca de um quarto dos distritos rurais. A condição dessas regiões era agravada pela oposição de princípio, manifestada desde 1957 até o início dos anos 70, a qualquer política de controle de natalidade. Se é claro que os herdeiros de Mao renunciaram a limitar as desigualdades pelo alto, não é absolutamente certo que a política econômica maoísta se tivesse refreado por baixo.
    
4. Mobilidade social. É difícil falar sobre um problema de um problema sobre o qual dispomos apenas de testemunhos pessoais ou de exemplos casuais. Todavia, os grandes movimentos autoritários – envio de quadros para a produção, ou melhor, para postos de enquadramento da produção, envio de jovens para o campo, troca de experiências, operação “portas abertas” – foram freqüentemente mais instrumentos políticos do que transformações sociais reais. A “literatura dos atingidos”, entre 1979 e 1981, está repleta de narrativas cheias de amargura das vítimas dessas medidas, sem falar naturalmente dos verdadeiros deportados, cujo numero a, mas cuja existência é certa.

Em termos mais gerias, a estabilidade no emprego – para os funcionários e assalariados das empresas estatais -, a ausência de mudanças no pessoal das universidades e dos institutos de pesquisa, a prática generalizada na classe operária do recrutamento de parentes próximos: todos são elementos que indicam como o corporativismo e seus inevitáveis complementos – duplo setor de emprego, corrupção, mercados paralelos – constituíram, durante anos, uma característica essencial do sistema, oculta pelo véu das declarações maoístas.

A legalização do direito de greve não deve fazer esquecer que o uso prático desse dispositivo está ligado a determinadas condições políticas. Por isso, tende-se a ver, nas greves que acompanharam, no início e no fim, a revolução cultural, não a pressão, ainda que manipulada, de um proletariado na ofensiva, mas antes uma instrumentalização do potencial organizativo das grandes cidades industriais por grupos políticos rivais.

A teoria maoísta funcionou, sobretudo, como uma espécie de “Potemkim” para uso do Terceiro Mundo, a ponto de se ter esquecido hoje, quando se tenta refutá-la, de preservar o valor dos progressos quantitativos importantes ocorridos na China Popular – basta pensar na multiplicação por seis do Produto Nacional Bruto -, embora tais programas não apresentem nenhum caráter de inovação teórica. Permanece o fato de que as condições de estagnação real da sociedade, e em particular dos extratos mais modernos, constituíram as premissas do populismo de Mao.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

5 comentários:

Anônimo disse...



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acp

Onde está escrito 1939 o correto é 1969, 30 anos depois. Em 39 os comunas estavam entocados no mato, sem desgraçar a China. Em 69 o genocida estava em grande atividade a massacrar o infelicitado povo.

acp

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Anônimo disse...











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acp

Ao lado de apresentar ao povo as barbaridades dos terroristas é necessário permitir e incentivar qiue o povo se arme e se defenda.

Os terroristas precisam enfrentar um povo em armas.

acp

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Anônimo disse...



















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acp

O EB tem, ou teve, a estratégia de resistência.

Em caso de invasão de parte do pátrio território por força não-deslocável por convencionais tropas haveria utilização de reservistas e regulares para atividades de erodição de posições.

O CIGS chegou a testar armas para tal atuação. Escolheu a carabina Puma .38

acp

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Anônimo disse...















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acp

Falso! Inexiste tal decálogo!

Nunca houve catalogação de donos de armas. Os comunas distribuíram armas às mancheias ao povo nas revoluções. Depois, tiveram de pedir que as devolvessem, pois não sabiam quem as tinha!

Ao tempo dos bolcheviques inexistiam meios de comunicação de massa, nada de rádio ou tv.

lenin era um conservador em termos sexuais.

Nunca trataram de democracia.

Nunca desmereceram a Rússia

Greves realizaram.

Eram subversivos, não podiam evitar que os czaristas contivessem a subversão, as greves, as bagunças.

Não se puseram contra a moral. Não derrubaram a honestidade. Inexistia votação de interesse dos comunas.

acp

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Anônimo disse...













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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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Falso! Inexiste tal decálogo!

Nunca houve catalogação de donos de armas. Os comunas distribuíram armas às mancheias ao povo nas revoluções. Depois, tiveram de pedir que as devolvessem, pois não sabiam quem as tinha!

Ao tempo dos bolcheviques inexistiam meios de comunicação de massa, nada de rádio ou tv.

lenin era um conservador em termos sexuais.

Nunca trataram de democracia.

Nunca desmereceram a Rússia

Greves realizaram.

Eram subversivos, não podiam evitar que os czaristas contivessem a subversão, as greves, as bagunças.

Não se puseram contra a moral. Não derrubaram a honestidade. Inexistia votação de interesse dos comunas.

acp

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Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

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