segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Contradições


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

Serão mesmo todos iguais? O Dep. Genecias Noronha, sendo líder do Solidariedade, excluiu da comissão que discute medidas contra a corrupção o seu colega de partido Fernando Francischini: Noronha apoia a anistia ao caixa dois (dinheiro por baixo dos panos), enquanto Francischini é contra. Haverá algum país civilizado em que sequer se discuta se é crime ou não o desvio de verba através de caixa dois?

A nefasta FRENTE PARLAMENTAR PRÓ-IMPUNIDADE, com representantes da maioria dos partidos, não dissimula, mas age às escâncaras: legisla sem pudor para manter a impunidade, na presunção de que "não dá nada!", como dizem os adolescentes. E não dá mesmo! Ou melhor, costuma não dar, por que surgem sinais de mudança.

AGORA, ATENÇÃO! No Congresso Nacional, também existem, sim, parlamentares empenhados em passar o país a limpo. São senadores e deputados que combatem a corrupção, que se desdobram para que o caixa dois não seja legalizado, fazem das tripas coração para preservar a Lava Jato.

A questão é: por que ainda se sentirão tão à vontade para agir, aqueles que lá estão apenas para cuidar do próprio interesse?

Grande parte da população (talvez maioria) ignora que o Congresso Nacional está dividido em dois blocos: de um lado, estão os deputados e senadores da corajosa e combativa Frente Parlamentar Mista de Combate à Corrupção, coordenada pelo Dep. Antonio Carlos Mendes Thame (aliás, primeiro presidente do Capítulo Brasileiro da Gopac, rede internacional de parlamentares para o combate à corrupção no mundo), com a participação de vários políticos, inclusive os deputados Joaquim Passarinho e Onyx Lorenzoni (presidente e relator, respectivamente, da Comissão Especial da Câmara que analisa as "10 Medidas contra a corrupção" apresentadas pelo MP).

Do outro lado, porém, está o infame bloco já identificado como "Pro Corrupcione", um time com vários atacantes: o presidente do Senado (Renan Calheiros, réu em 12 processos no STF), o líder do governo no Congresso (Romero Jucá, das gravações de Sérgio Machado, o que diz "é preciso estancar a sangria" e parar a Lava Jato) e o líder do governo na Câmara dos Deputados, (André Moura, réu no STF em três ações penais e investigado em outros três inquéritos).

Os dois blocos são muito diferentes. Apesar disso, a todo tempo se ouve por aí: "político é tudo igual!". O prezado leitor adivinhe qual dos dois grupos gosta que assim se pense! Ora, quem acredita que "é tudo igual" nivela por baixo e não valoriza quem está agindo corretamente. Será justo? E é curioso ver que a população traz, na ponta da língua, nomes de maus políticos, enquanto tem a maior dificuldade para lembrar-se (às vezes nem consegue) de políticos respeitáveis - que comprovadamente existem.

Não. Não é tudo igual. Existem bons e maus políticos. Além disso, os maus, entre si, não são iguais. E os bons são diferentes uns dos outros. Fato é que não existem almas perfeitas: é infantil a tendência mais ou menos generalizada de classificar algumas pessoas como "do bem" para diferenciá-las das demais. Preconceito que, negando a realidade humana, está na raiz da miopia política. Eis a incoerência: por um lado, é voz unânime admitir que "não há ninguém perfeito"; por outro, porém, o corrente é ignorar que em cada ser humano vigora a contradição: bem e mal, virtudes e defeitos, amor e ódio. Prevalece o que é mais cultivado, inclusive pelo reconhecimento dos outros. (Atire a primeira pedra quem não tiver as suas contradições!)

Pois bem. Será possível compreender a política sem decifrar o ser humano? E sem dominar esses aspectos elementares (e simples), alguém conseguirá acertar em política? Os que lá estão apenas cuidando do próprio interesse decerto se sentem muito à vontade para agir graças à desinformação (nos casos mais brandos) e à presunçosa convicção dos que, pouco ou nada entendendo, não reconhecem as próprias limitações e não buscam qualquer aprimoramento.

Todos iguais, não. Os políticos são, sim, todos contraditórios. Tal como também o são os eleitores, cuja lucidez (ou a falta de) é determinante da política. Ou seja, somos todos contraditórios! E se não o admitirmos, vamos repetir velhos erros.


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

2 comentários:

Sergio Soares disse...

Discordo totalmente desta opinião de que existem "bons "congressistas.O que há são grandes criminosos e uns poucos ladrões de carteiras.Estes últimos são aqueles congressistas que falam pouco e nada resolvem diante do que sabem (padrão tiririca que até hoje não disse o que vê ).Só se resolve parte do problema com uma profunda reforma eleitoral : -eleições facultativas;voto distrital;candidatos independentes;leis trabalhistas aos políticos eleitos iguais aos cidadãos comuns;fim dos inúmeros adicionais que esses parlamentares ganham(até aqueles que o colega chama de "bons" e não reclamam) .E por aí vai.

Fabiane Lacerda disse...

Confesso que estou encima do muro... Não por estar confusa a respeito do carácter da massa política que assola nosso planalto com escândalos milionários, mas, com aquele fundinho de esperança que todo "bom brasileiro" carrega acreditando que possa existir SIM, alguém que faça a "m" da diferença. Se não houvesse, tenho certeza que a situação seria de miséria total nos cofres públicos.
Eu ainda tenha esperança...