quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Da Espionagem


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

A espionagem tem sido uma preocupação do homem através de toda história documentada. A Bíblia conta que o Senhor ordenou a Moisés que mandasse homens espiar a terra de Canaã, a fim de julgar a resistência que se encontraria em fazer dela a nova morada dos israelitas. Mais tarde, a Bíblia fala de Josué, que mandou dois homens para espiarem secretamente, dizendo: “Olhem a terra até Jericó”. Foram escolhidos pela prostituta Rahab que, por isso, foi a única poupada entre os habitantes quando os muros caíram.

No Século V AC, o sábio chinês Sun Tzu incluiu um capítulo minucioso sobre o Emprego de Agentes Secretos, em seu livro A Arte da Guerra.
No decorrer dos séculos, os principais países e povos praticaram a espionagem para servir ou defender seus interesses. Mas até aos tempos modernos a espionagem se restringia, em grande parte, aos períodos de guerra. Com poucas exceções, os governos não mantinham grandes e poderosos dispositivos de espionagem.

Através dos séculos, as técnicas da profissão quase não mudaram, e o espião foi considerado um “tipo baixo” da sociedade. Montesquieu disse: “A espionagem seria talvez tolerável se fosse praticada por homens de honra, mas a infâmia que inevitavelmente se liga ao agente é um critério da infâmia da prática”. 

O conceito tradicional dos espiões resultava da compreensão de que a espionagem é a sombra negra lançada por alguns dos instintos básicos, embora não necessariamente melhores, do homem: o de conservação e o de suspeita em relação ao seu semelhante.

A espionagem pode ser antiga, mas o dispositivo de espionem poderoso, bem financiado e superiormente organizado, é um fenômeno exclusivo do nosso tempo. Também o é o espião burocrático e respeitável, com uma casa em Georgetown, uma dacha perto de Moscou e uma casa de campo no Susex.

Vivemos a maior parte do tempo num estado indeciso entre a paz e a guerra. Quanto mais gastamos com a segurança, mas inseguros nos sentimos. Exigimos armas para a nossa proteção e cada vez mais serviços secretos a fim de termos certeza de que essa proteção é adequada. 
Por isso, os vastos serviços secretos que se desenvolveram na II Guerra Mundial foram conservados, ampliados e aperfeiçoados para a execução da Guerra Fria. Alegam ser a primeira linha de defesa na era nuclear e, dentro das interpretações que dão ao interesse nacional, podem sustentar que são mantenedoras da paz, visto que armam seus governos com conhecimento prévio das intenções ou, pelo menos, das capacidades do inimigo.

Ao mesmo tempo, os dispositivos de espionagem criaram graves problemas, especialmente pela capacidade que têm de provocar acontecimentos por meio de atividades clandestinas. Por exemplo: no tempo de Eisenhower, como se pode revelar agora, a política dos EUA se baseava na presunção de que a União Soviética havia marcado uma data específica para um ataque geral de surpresa aos EUA. A presunção nasceu de temíveis informações comunicadas pelo serviço secreto no auge da Guerra Fria.

Ao mesmo tempo, a preocupação com a data, provocou insaciável procura de cada vez mais informações secretas sobre a União Soviética. Foi isso quer fez Eisenhower aprovar o programa soberbamente eficiente, mas arriscado do U-2, que levou o mundo à beira do abismo nuclear. O incidente do U-2 acentuou o fato de que a espionagem, sendo sempre uma ameaça potencial à paz entre as nações, se tornou infinitamente mais perigosa na era termonuclear.

Além disso, os dispositivos de espionagem têm, comprovadamente, criado perigos dentro das sociedades que os estabelecem. O poder secreto nunca é controlado com facilidade – as alavancas desse poder quase sempre ficam ocultas como o resto do mecanismo.

Um serviço secreto”, escreveu certa vez Allen Dulles, “é o veículo ideal para uma conspiração. Os seus componentes podem viajar pelo país e pelo exterior sob ordens secretas livres de indagações. Todos os pedaços de papel nos arquivos do serviço secreto, a sua constituição, as despesas que fez, os seus contatos, até os contatos com o inimigo, são segredos de Estado”.Dulles se referia especificamente à Abwehr alemã. A possibilidade de que um Serviço Secreto se volte contra seu governo é bastante remota no Ocidente.

Entretanto, as democracias não estão isentas de perigos mais sutis que decorrem da criação no seu meio de grandes centros de poder secreto. Um serviço secreto pode desorientar-se e tomar alguma iniciativa, deliberadamente ou não, que embarace os dirigentes nacionais ou até ameace a estabilidade do governo. Alem disso, seria ingenuidade pensar que uma poderosa organização secreta implantada no centro de uma sociedade limite as suas operações ao exterior. Seria difícil apontar um só dos grandes dispositivos secretos que não exerça enorme influência dentro de suas fronteiras. As raízes são profundas.

Um dispositivo de espionagem gera problemas particularmente difíceis para os EUA. O povo americano tem tradicionalmente debandado as suas FF AA em tempos de paz, e até a II Guerra Mundial não tinham um serviço formal de espionagem. A atitude que predominava antes da guerra foi manifestada sucintamente pelo Secretário de Estado Henry L. Stimson, que em 1929 fechou a “câmara escura”, a primitiva seção de decifração de códigos do Departamento de Estado, com a explicação: “Cavalheiros não lêem as cartas dos outros”.

Depois da guerra, esses escrúpulos foram declarados oficialmente anacrônicos. Começou uma Guerra Fria e criaram-se instituições clandestinas para lutar nela. Essas instituições se empenhavam em atos contrários à moralidade convencional e à ética puritana do país. O governo julgou necessário ocultar esses atos e negar-lhes a existência. Isso, por sua vez, determinou posições públicas insustentáveis e a conclusão errônea de que era necessário completar o direito à vida, liberdade e conquista da felicidade com o direito de mentir.

Não se trata de um direito, e sim de um erro.

Grande parte do atual problema de “credibilidade” é uma conseqüência de declarações oficiais distorcidas, com o intuito de proteger atividades secretas. A crise de credibilidade não começou com Lyndon Johnson. Falsidades oficiais, declarações que desnorteiam, rodeios e evasivas para cobrir atividades relacionadas com o serviço secreto, floresceram no governo Eisenhower e continuaram nos governos democratas posteriores.

Já em 1954, o Governo Eisenhower negava qualquer participação na derrubada, pela CIA, do governo da Guatemala. Emitiu declarações desmentindo qualquer ingerência na revolta, apoiada pela CIA, do presidente Sukarno, da Indonésia, em 1958, e negou, a princípio categoricamente, que o U-2 tivesse tido ordem de sobrevoar a União Soviética. O Governo Kennedy fingiu inicialmente que os outros é que estavam invadindo Cuba na Baía dos Porcos e houve novas declarações despistadoras por ocasião da crise dos foguetes, em Cuba.  

Há, hoje em dia, uma impressão cada vez maior de separação entre o Governo e o povo. Tem havido tanta confusão semeada nos últimos anos que grandes setores da população estão propensos a acreditar em quase tudo, por mais absurdo que pareça, e a descrer de tudo, por mais lógico que seja, que lhes diga o líder do país. Não é um clima sadio para os EUA. É em solos assim que o extremismo floresce.

Pode-se perguntar, por exemplo, até que ponto as conclusões da Comissão Warren – que investigou o assassinato de Kennedy – deixaram de ser aceitas pelo público em virtude da corrente secreta que percorria o relatório da mesma.

Nenhum dos teoristas da conspiração mostrou que qualquer agência do serviço secreto, do Leste ou do Ocidente, tivesse relação com Oswald ou com a morte do presidente Kennedy. Mas o fato de que Oswald vacilava entre duas ideologias e entre dois países fez inevitavelmente dele uma figura de interesse secreto. As pessoas sentiam vagamente esse fato e, por isso, estavam talvez mais dispostas a acreditar em algumas das mais disparatadas hipóteses que circularam sobre o assassinato, do que se Oswald tivesse sido, digamos, um fazendeiro de milho, apolítico, de Iowa, que nunca tivesse viajado para Minsk ou para o México, e cujo nome nunca tivesse constado dos arquivos de Langley ou da Lubianka.  

O fato é que a Guerra Fria e as distorcidas informações oficiais destinadas a ocultar as atividades de espionagem, criaram uma atmosfera em que se duvida da veracidade do Governo, até quando esteja dizendo a verdade. Os EUA estão a caminho de tornarem-se uma Nação de cépticos. 
Com muita freqüência, como uma sociedade, temos descambado  para a “moralidade superior” da Guerra Fria: que o fim justifica os meios, que devemos adotar os métodos do inimigo para preservar o nosso regime, e que é preciso “combater fogo com fogo”.   

Num ponderado ensaio sobre o espião moderno, Jacques Barzun, historiador da Universidade de Columbia, chegou à conclusão de que “o que é repreensível é que o mundo moderno tenha tornado oficiais os sonhos e os atos dos garotinhos”. O espião, disse ele, “goza de depravação permitida”, porque “em troca de alguns golpes baixos, há também poder e luxo, dinheiro e liberdade sexual. A vantagem de ser um espião como a de ser um soldado é que há sempre uma razão maior – a razão de Estado – para reduzir à insignificância qualquer pequeno escrúpulo de obscenidade”.   

Os atos mais extremados, os feitos mais sangrentos, podem justificar-se sob a alegação da “moralidade superior”. A racionalização comunista a esse respeito é explícita: “A moralidade”, decretou Lenin, “é o que serve para desfazer a velha sociedade exploradora... Um comunista deve estar preparado para todos os sacrifícios e, se for necessário, recorrer a toda espécie de truques e estratagemas, a empregar métodos ilegítimos, a ocultar a verdade...” 

Essa filosofia é inteiramente contrária ao conceito que os EUA fazem de si mesmos. A tradição puritana tem raízes profundas no país, e os funcionários que têm de seguir, na prática, caminhos tortuosos, sentem-se no dever de falar como se a sua orientação fosse o exercício do mais alto propósito moral.

Num discurso na Universidade Católica de Washington, em junho de 1965, o presidente Johnson declarou que não acreditava que fosse “agradável aos olhos de Deus os homens separarem a moralidade do seu poder... A força da nossa sociedade não reside nos silos dos nossos mísseis, nem nas casas fortes de nossas riquezas, porque, sem armas, nem prata são deuses ante os quais nos ajoelhamos. O poder dos EUA consiste na moralidade dos nossos propósitos e no apoio dado aos mesmos pela vontade do povo dos EUA... É essa uma América moralmente consciente, moralmente vigilante...”

Nos seus 75 anos, em outubro de 1965, o presidente Eisenhower fez uma advertência sobre a “decadência moral” dos EUA, e acrescentou: “Estamos afastando-nos muito das velhas virtudes e regras da vida... há certos valores que temos de manter, valores como a decência no nosso procedimento e no trato com os outros, amor próprio, confiança em si, dedicação ao país, respeito à lei e à ordem”.  

Entretanto, o diretor da Agência Central de Informações de Eisenhower, Allen Dulles, não via contradição entre as suas atividades e os ditames da moralidade: “Só posso dizer é que sou filho de um Pastor e fui criado como presbiteriano, talvez como calvinista, talvez como fatalista. Não sei. Mas creio que tenho um padrão moral razoável”.

Richard Bissell, Vice-Diretor de Planos de Dulles, explicou que os homens da CIA “sentem uma lealdade mais alta e agem em obediência a essa lealdade mais alta”.Reconheceu que os agentes, às vezes, exercem atos “contrários aos seus preceitos morais”, mas alegou que “a moralidade do que podemos chamar, em resumo, de Guerra Fria, é infinitamente mais elástica do que a moralidade de qualquer outra espécie de guerra armada, que eu jamais considerei isso um problema grave”.

Se não é um problema grave para o agente do ponto e vista individual, é um problema grave para o povo americano. O dispositivo de espionagem se tornou uma instituição permanente. Não é possível voltar a um tempo mais simples em que se podia com mais facilidade ajustar a realidade à moral. 

Não é possível fugir às revoluções”, disse certa vez Disraeli. Não é possível também fugir ao fato da espionagem no mundo atual. A União Soviética e a China Comunista têm um aparelho ativo de espionagem. Nessas condições, os EUA precisam da sua máquina secreta. Mas podem deixar de tratá-la como se fosse uma coisa sacrossanta, separada e à parte dos processos institucionais normais de controle pelo Congresso e pelo Executivo.

Para que a visão americana seja mantida é preciso que o povo americano se guarde contra a fácil racionalização de que tudo pode ser justificado em defesa da Maneira Americana de Viver. Do contrário, poderemos despertar um dia para descobrir que o rosto no espelho não é mais o nosso. Nesse dia, será uma verdade a opinião de Jacques Barzun, que advertiu: “A alma do espião é, de algum modo, o modelo de todos nós”. 

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O texto foi extraído do livro "O Poder Secreto - A História da Espionagem Moderna", escrito por David Wise e Thomas B Ross, Editora Nova Fronteira, '1967,


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

5 comentários:

Anônimo disse...

A espionagem tem sido uma preocupação do homem através de toda história documentada. A Bíblia conta que o Senhor ordenou a Moisés que mandasse homens espiar a terra de Canaã,


Se Deus vê tudo pq ia mandar homens pra espionar

Holly Shitt

Chico Trevas

Anônimo disse...








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acp

Ao lado de apresentar ao povo as barbaridades dos terroristas é necessário permitir e incentivar qiue o povo se arme e se defenda.

Os terroristas precisam enfrentar um povo em armas.

acp

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Anônimo disse...
















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O EB tem, ou teve, a estratégia de resistência.

Em caso de invasão de parte do pátrio território por força não-deslocável por convencionais tropas haveria utilização de reservistas e regulares para atividades de erodição de posições.

O CIGS chegou a testar armas para tal atuação. Escolheu a carabina Puma .38

acp

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Anônimo disse...












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acp

Falso! Inexiste tal decálogo!

Nunca houve catalogação de donos de armas. Os comunas distribuíram armas às mancheias ao povo nas revoluções. Depois, tiveram de pedir que as devolvessem, pois não sabiam quem as tinha!

Ao tempo dos bolcheviques inexistiam meios de comunicação de massa, nada de rádio ou tv.

lenin era um conservador em termos sexuais.

Nunca trataram de democracia.

Nunca desmereceram a Rússia

Greves realizaram.

Eram subversivos, não podiam evitar que os czaristas contivessem a subversão, as greves, as bagunças.

Não se puseram contra a moral. Não derrubaram a honestidade. Inexistia votação de interesse dos comunas.

acp

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Anônimo disse...










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acp

Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

Ou pesquise e publique artigo de outrem.

acp

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Falso! Inexiste tal decálogo!

Nunca houve catalogação de donos de armas. Os comunas distribuíram armas às mancheias ao povo nas revoluções. Depois, tiveram de pedir que as devolvessem, pois não sabiam quem as tinha!

Ao tempo dos bolcheviques inexistiam meios de comunicação de massa, nada de rádio ou tv.

lenin era um conservador em termos sexuais.

Nunca trataram de democracia.

Nunca desmereceram a Rússia

Greves realizaram.

Eram subversivos, não podiam evitar que os czaristas contivessem a subversão, as greves, as bagunças.

Não se puseram contra a moral. Não derrubaram a honestidade. Inexistia votação de interesse dos comunas.

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Escreva um seu artigo seu a desmentir o falso decalogo de lenin que desde que a internet existe engana tolos. Aquele, sobre greves, libertinagem, armas... Nem lenin nem nenhum comuna o escreveu.

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