domingo, 13 de novembro de 2016

De Muito Longe


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant'Ana

O que ora se relata ocorreu na República do Quintaquistão, bem longe daqui. Entre nós, como se poderá concluir, tais coisas não acontecem. Uma das províncias daquela república era governada por um partido que chegou ao poder apresentando-se como detentor do monopólio do idealismo, da honestidade e da proteção aos pobres e desvalidos. Eis a principal circunstância do que aconteceu e a seguir é descrito em linhas muito breves.

Nos esconsos da estrutura burocrática do que por lá se designava como superintendência de serviços penitenciários, havia uma "servidora" com CC (o que naquela república chamam de "cargo comissionado"), a qual, sendo filiada ao partido, tinha uma função de chefia. Subordinada a ela encontrava-se uma "trabalhadora" mui humilde, subalterna, assustada e temerosa de fazer coisas erradas, medo de que era acometida em especial quando se via na presença daquela potestade, isto é, da tal "servidora" com outorga do partido.

E sucedeu o previsível. É que o medo de errar aumenta a probabilidade do erro. Aquela "trabalhadora" assustada e temerosa adotou uma medida equivocada, ou apenas se esqueceu de fazer alguma coisa, ou simplesmente ficou paralisada sem saber o que fazer, o que é reação normal onde vigora o regime do medo. Fato é que, qualquer que haja sido a sua conduta, deixou furibunda a potestade militante, a quem a carteirinha do partido conferia poderes quase ilimitados.

Assim, possuída pela mais desbragada irritação (sempre por razões superiores, claro), sendo-lhe impossível suportar a incompetência da subalterna - ao mesmo tempo que lhe era vedado tomar medida mais drástica -, a "servidora" com CC agiu no limite dos seus poderes. Numa calculada demonstração de "empoderamento" (expressão corrente em seu vocabulário), andou até um canto da sala, apanhou a lixeira que estava lotada, e, sem mais rodeios, entornou todo o seu conteúdo em cima da mesa daquela criatura desprezível e incapaz de conscientizar-se de que uma verdadeira revolução estava sendo construída na província.

Foi um gesto simbólico, naturalmente, sendo que ela agia com o impulso da raiva sob total controle. Com a encenação, a "servidora" (militante, revolucionária e abnegada defensora de pobres e desvalidos) quis dizer: "Nada significas tu senão apenas um parafuso da engrenagem burocrática, e eu, se pudesse, te descartaria como se faz com a peça desgastada de uma velha máquina". Mas tudo isso aconteceu na República do Quintaquistão. Sem chance de ocorrer por aqui, está visto...

Ora, sabe-se que é praticamente impossível ocultar a ignominiosa história das relações de poder, existindo sempre uma testemunha para dar com a língua nos dentes e um narrador para propagá-lo e chocar a humanidade, assim como sempre há também um estudante articuladinho empenhado em desqualificar o que se está contando. Não deu outra! "Como assim?", foi a pergunta do estudante. E logo apedrejou: "Essa república do Quintaquistão nem existe!". Ah, pois é! Mas, como diria João Grilo... Não sei, só sei que foi assim...


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

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