segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Dilema de Lex Luthor

Lex Luthor Presidente

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Antonio Tabet

Quando li pela primeira vez o conceito “dividir para conquistar”, ainda era criança. Mas não foi no livro de História. Foi nos quadrinhos. A compreensão foi imediata porque a linguagem era a mais simpática do mundo para um jovem nerd como eu e, além disso, o conceito foi minuciosamente explicado pelo vilão, que cumpria bem o papel e, claro, deu-se o tradicional trabalho de detalhar o plano maquiavélico enquanto o colocava em prática.

A ideia era simples: conquistar o controle de um lugar incitando a fragmentação dos rivais, deixando-os mais frágeis e, posteriormente, impedir a união das menores estruturas de poder restantes. Essa fórmula é tão eficaz que já pautou líderes como César, Filipe II, Napoleão, Pinochet, Renan Calheiros e Dhomini no BBB 3. Há quem a use travestida de vitimização tentando encorpar uma resistência desesperada — como Lula, quando subiu no palanque e disse que a crise era causada por “gente branca de olhos azuis” — e há quem a coloque em prática para destacar-se sob o oportuno holofote da alternativa e tomar o poder — como Lex Luthor.

Nos quadrinhos, o arqui-inimigo do Super-Homem, cansado de ser derrotado pelos incríveis atributos físicos do oponente, resolveu mudar a estratégia. Colocou o ego de lado, passou a sabotar anonimamente as boas ações do kriptoniano, criou factoides e, surpreendentemente, passou a praticar boas ações para inverter expectativas, gerar desconfiança no público, ganhar alguma simpatia e... candidatou-se à presidência dos Estados Unidos.

Loucura? Não. Ele venceu. Democraticamente. Isso mesmo.

O Homem de Aço passou então a viver o pesadelo de ter acima de si o maior inimigo e, abaixo, aqueles que jurou proteger mas que o colocaram naquela situação. Luthor, por outro lado, vivia um dilema menor para qualquer ser humano comum, mas brutal para um vilão: o de continuar praticando o bem para perpetuar-se no poder ou o de ceder aos instintos maléficos e dar a brecha que o Super-Homem precisava para mostrar ao público toda a verdade. Nos quadrinhos, como não poderia deixar de ser, ele começou bonzinho, mijou fora do penico e acabou derrotado como sempre.

Na vida real, os fragmentados somos nós. Somos uma sociedade dividida entre petralhas, coxinhas de olhos azuis, bolsomitos, feminazis, isentões e centenas de outras definições simplistas e quase sempre injustas. Uma rejeitando a outra e cada uma sem se enxergar com o rótulo que lhe atribuem. Estamos dilacerados. Divididos. Conquistados. Abrimos o caminho para Lex Luthor, seja ele vilão ou não, seja ele merecedor ou não, seja ele uma grata surpresa ou não, seja ele Temer, Crivella, Doria, Trump ou não.

O dilema, contudo, permanece o mesmo. Ou seja, para o Lex da vez alcançar objetivos maiores e conquistar o que parecia impossível, terá de quebrar paradigmas começando consigo próprio. Lex não sabe, mas só pode ficar no poder com a capa vermelha nas costas. Lex terá de ser herói. Porque se Lex não fizer um belo trabalho e, por exemplo, anistiar um caixa dois da vida, vai unir todos os que o odeiam com aqueles que o toleram.
E aí ninguém poderá ajudá-lo. Nem mesmo o Super-Homem.


Antonio Tabet é Jornalista. Originalmente publicado em O Globo em 27 de novembro de 2016.

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