quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Quem se omite não forma opinião


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Aileda de Mattos Oliveira

Num dos parágrafos do comentário de José Murilo de Carvalho, na orelha do livro “A imprensa faz e desfaz um presidente” (1994), há esse trecho digno de nota: “Sem negar o lado político e ideológico inerente ao trabalho jornalístico e, sobretudo, à orientação dos proprietários da mídia, os autores salientam a especificidade da imprensa como interlocutor, formador e meio de expressão da opinião pública.”

Os autores Fernando Lattman-Weltman, José Alan Dias Carneiro e Plínio de Abreu Ramos, de fato, analisam a participação ativa da imprensa na eleição e no impeachment de Collor. Mas é suficiente a síntese de José Murilo que nos leva à conclusão de que a posição uniforme dos órgãos, ditos, de “comunicação”, sujeitos “à orientação dos proprietários damídia”, é escolher a diretriz que melhor satisfaça aos interesses jornalísticos particulares e que, convenhamos, está em simbiose aos interesses financeiros.

Se é próprio às atividades jornalísticas o “lado” político e ideológico, já se desvia a imprensa de sua “especificidade”, que é a de informar com imparcialidade os fatos, independente da cor política sem a contumaz interferência sub-reptícia do jornalista. 

Formada por diferentes cabeças, a sociedade não compartilha, de maneira coletiva, da linha imposta por esses ‘senhores da verdade’, portanto, a “interlocução” se transforma num trabalho de condicionamento em forma de pensamento indutivo, na tentativa furtiva de conquistar, aí sim, a unanimidade ideológica. A imprensa torna-se um caldeirão em fogo brando no qual o leitor desatento vai sendo cozinhado sem perceber. O final da história é a sua completa imbecilização e, logo, mais um repetidor de chavões estará em atividade. 

A cirurgia que sofrem as cartas dos leitores com as retiradas das partes em que os saudáveis pontos de vista do cidadão se opõem à unilateral posição ideológica do jornal, é outro exemplo do ‘diálogo’ dos empertigados “comunicadores” com membros conscientes da população. Ou não são publicadas ou são mutiladas pelos guardiões do pensamento único. E essa gente fala, repetitivamente, em censura na “ditadura” militar!

Em paralelo, atua a imprensa em transformar dogmas ideológicos em atitudes de vanguarda, fazendo de seus órgãos insistentes divulgadores de imagens e de opiniões formalizadas sobre elas para que sejam assimiladas como naturais na vida cotidiana do leitor, empenhada como está, em impor a mudança do comportamento social, de acordo com a degradada diretriz de Gramsci. 

Vemos a imprensa perder lastro. Sem peso, ficou sem condições ou coragem de se autointitular “quarto poder”, como costumava afirmar, por não mais atuar como credibilizados fiscalizadores das ‘agremiações’ políticas em que se tornaram os Três Poderes, permanecendo mera dissimuladora dos fatos que acontecem na Cidade Administrativa e no país. O atuante trabalho de informação efetiva cabe, agora, às redes sociais, objetivas, imediatas, opinativas que deixam relegado, a último plano, o jornalismo em leilão.

É intencional a omissão dos meios, que se dizem informativos, na divulgação de notícias de interesse público, principalmente os de soberania nacional, com a ocultação dos fatos que ocorrem na Região Amazônica e na de fronteiras por estarem relacionados à área militar, manifestamente ignorada pelo gesso ideológico que dita a conduta da imprensa na manipulação das notícias ou na sua não divulgação.

Jamais poderá ser “formador e meio de expressão da opinião pública”, enquanto faltar a ela própria liberdade de pensamento e personalidade, ao contrário dos independentes grupos jornalísticos virtuais, que sem a arrogância dos “proprietários da mídia”, informa-nos do que se passa além das grandes capitais, sem filtros, sem crivos, libertos de qualquer acordo que fira os interesses da nação brasileira.


Aileda de Mattos Oliveira é Dr.ª em Língua Portuguesa. Vice-Presidente da Academia Brasileira de Defesa. Membro do CEBRES. 

Um comentário:

O Libertário disse...

Mais um grande artigo da Dra. Aileda. Ontem mesmo recebi um telefonema da Folha de São Paulo me oferecendo assinatura e ao ouvir de mim que não compartilho com a linha editorial do jornal a moça desligou desenxabida.