segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A canção do homem enquanto seu lobo não vem


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi publicado no livro “O Fantasma da Revolução Brasileira”, escrito por Marcelo Ridenti, professor da UNESP, formado em Ciências Sociais e Direito, e doutorado em Sociologia. Autor do livro “Política para Que? – Atuação Partidária no Brasil Contemporâneo”, publicado em 1992.
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Da conhecida resistência à ditadura militar no meio artístico, destacamos a penetração de grupos da esquerda armada entre pessoas com ocupações artísticas. Pelos dados estatísticos, construídos com base nos processos levantados junto à Justiça Militar, a presença de artistas nas organizações de esquerda era ínfima: 24, dentre 3.698 denunciados com ocupação conhecida. Vale notar que as organizações armadas urbanas, mais que as outras, contaram com “artistas”; nelas, participaram 18 artistas – 0,9% do total de 1.897 supostos integrantes dos grupos armados urbanos típicos -, enquanto nas demais participaram 6 artistas – 0,3% dentre 1.801 envolvidos em processos dos demais grupos de esquerda -.

As organizações que contaram com o maior número de artistas, como era de esperar, estavam entre aquelas com maior penetração nas camadas sociais intelectualizadas, caso da ALN, da Var-Palmares e do MR-8. Isso pode revelar, à época, o apelo relativamente maior dos grupos de guerrilha urbana junto aos artistas, por razões que veremos adiante. De qualquer forma, as cifras são pouco significativas para indicar a efetiva participação direta dos artistas nos grupos de esquerda durante mais de uma década de ditadura militar. 
    
No entanto, os dados não mostram que muitos artistas ligados à esquerda nunca chegaram a ser processados, pois, como militantes de base ou meros simpatizantes, não foram detectados pela repressão, sabe-se, por exemplo, que antes de 1964 o PCB contava com um amplo apoio no meio artístico. Mas não é isso que os dados não mostram. Os artistas tiveram participação política ativa, principalmente nos movimentos sociais de 1968, em São Paulo e no Rio de Janeiro. A “classe teatral” realizava inúmeras assembléias e reuniões para reparar a intervenção conjunta dos atores nas manifestações de massa, nas ruas. Um sem-número de artistas esteve presente nos atos públicos de 1968, em especial na “Passeata dos Cem Mil”, no Rio de Janeiro.

Durante os anos de ditadura militar, em que havia manifestações de massa, os teatros sempre se abriam para militantes de oposição ao regime convocarem a platéia a participar das manifestações públicas contra a ordem vigente. A solidariedade, no meio artístico, aos perseguidos pelo regime evidenciou-se, por exemplo, na doação aos operários grevistas de Osasco de metade da arrecadação obtida em todos os teatros de São Paulo, num domingo de julho de 1968. Sabe-se, também, da ajuda financeira de artistas a organizações clandestinas ou a militantes individuais, além da proteção humanitária a perseguidos pela ditadura, como o fornecimento de esconderijos temporários.  
    
O meio cultural também sofreu perseguição direta, tanto pela censura  - mais branda entre 1964e 1968 e absoluta após essa data -, que impedia a livre manifestação das idéias e das artes, como pela repressão física configurada em prisões  e torturas. Por um ou outro motivo, muitas artistas viram-se forçados ao exílio. Não tem fim a lista de pessoas do meio cultural presas temporariamente, ameaçadas informalmente pela polícia e organismos paramilitares, torturadas ou exiladas. Inexistem evidências de que a maioria delas tenha tido vinculação mais sólida com grupos de esquerda. Qualquer crítica ao regime era tomada, após 1968, como subversiva e comunista, logo, passível de punição.
    
Ainda há mais desdobramentos não aferíveis por dados estatísticos, como a simpatia e a solidariedade aos grupos de esquerda armada que imperavam em setores artísticos e culturais, nacionais e internacionais, mesmo que na maior parte das vezes isso não implicasse militância ou concordância ideológica plena com esses grupos, respeitados por resistirem à ditadura.

Um caso expressivo desse tipo de simpatia e respeito nos círculos intelectuais internacionais, foi a abertura, por Sartre, do seu de seu prestigioso periódico francês Les Temps Modernes, para veicular textos de organizações armadas brasileiras. Por fim, e isso e o mais importante, os dados quantitativos não mostram a presença das e da cultura nos anos 60. Especialmente entre 1964 e 1968, a efervescência cultual contribuiu para a adesão de setores sociais intelectualizados à opção pelas armas no combate ao regime militar. 
    
O golpe de Estado de 1964 não foi suficiente para estancar o florescimento cultual diversificado que acompanhou o Ascenso do movimento de massas a partir do Inal dos anos 50. O Cinema Novo, o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, a Bossa Nova, os Centros Populares de Cultura filiados à UNE – que promoviam  diversas iniciativas culturais para “conscientizar” o povo -, o Movimento Popular de Cultura, em Pernambuco, que alfabetizava pelo método crítico de Paulo Freire, a poesia concreta e uma infinidade de outras manifestações culturais desenvolveram-se até 1964. Após essa data, os donos do Poder não puderam, ou não souberam desfazer toda manifestação cultural que tomava conta do país e só teria fim após o AI-5, de dezembro de 1968.

As artes não poderiam deixar de expressar a diversidade e as contradições da sociedade brasileira da época, incluindo, por exemplo, a reação e o sentimento social ante o golpe de 1964. Seria possível escrever várias teses só sobre a relação de cada uma das artes com a oposição ao regime militar. Sem a pretensão de avançar no debate estético, cabem algumas reflexões sociológicas a fim de evidenciar o clima cultural em que emergiu a opção de certos grupos pela luta armada contra a ditadura, bem como de mostrar uma razão para esses grupos terem encontrado receptividade nos setores sociais intelectualizados.
    
Na verdade, a agitaçao artística e cultural nos anos 60 não se restringiu ao Brasil, mas se deu em escala internacional, da mesma forma que a opção pela guerrilha também não foi específica dos brasileiros, generalizando-se por toda a América Latina e, de forma mais diferenciada, por outros continentes.

Contudo, fugiria aos propósitos estabelecidos ir além de indicar conexões entre os movimentos políticos e culturais brasileiros com os internacionais, pois o que se pretendeu foi abordar a particularidade da guerrilha  urbana brasileira e a conexão que teve com o movimento artístico e cultura específico que se desenvolveu no Brasil entre 1964 e 1968, ambos reelaborando seletivamente as influências externas para darem conta das contradições da realidade social, política e cultural brasileira.    

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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