domingo, 18 de dezembro de 2016

A esquerda armada nos meios intelectuais e dados sobre a esquerda estudantil




Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi publicado no livro “O Fantasma da Revolução Brasileira”, escrito por Marcelo Ridenti, professor da UNESP, formado em Ciências Sociais e Direito, e doutorado em Sociologia. Autor do livro “Política para Que? – Atuação Partidária no Brasil Contemporâneo”, publicado em 1992.
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Foi notável a presença de estudantes nos grupos de esquerda em geral (906; 24,5% do total dos 3.698 processados, com ocupação conhecida, por ligação com grupos de esquerda), e particularmente naqueles que pegaram em armas (583; 30,7% dos 1897 denunciados por vinculação com organizações guerrilheiras urbanas típicas). Isso reflete a extraordinária mobilização estudantil, sobretudo nos anos entre 1966 e 1968. Quando se tomam os dados referentes às organizações que atuavam antes de 1964, é possível mostrar que o peso proporcional que os estudantes tinham, então, nessas organizações, era muito menor do que aquele que viriam a representar na composição das esquerdas nos anos seguintes.

Nos Grupos dos 11, eles compuseram apenas 3,2% do total; no PCB, não passavam de 1,1% em 1964, crescendo para 12,3% em 1965/1968, e para 11,1% entre 1969/1974, diminuindo para 4,0% entre 1974 e 1976, quando o Movimento Estudantil ou os seus resquícios já haviam deixado de ter qualquer significação social – organizações como o PC do B, a POLOP e a AP atuavam antes de 1964, mas os dados sobre elas nesse período são escassos, motivo porque não são levados em conta aqui -.
    
Os dados sobre o PCB são significativos de que a adesão às esquerdas foi expressão do conjunto do movimento social de oposição; antes de 1964, o peso relativo do Movimento Estudantil era pequeno no cômputo geral  da mobilização popular; após essa data ele foi notoriamente mais significativo, o que refletiu no número de estudantes processados pelo regime militar por ligação com o PCB e, principalmente, por vinculação às organizações da esquerda armada. Foi para estas últimas que acorreram, em grande parte, os setores mais extremados do Movimento Estudantil.

A proporção em torno de 30% de estudantes é uma constante para as organizações urbanas armadas, como também para os grupos radicais que se opunham à via armada imediata – caso da AP (30,1%) e da POLOP (26,2%) -. Alguns grupos apresentam uma percentagem expressivamente além dessa média de 30%  (válida para o conjunto das organizações armadas): no caso do COLINA (26 processados, 51,0%), tratava-se de uma organização tipicamente de Minas Gerais, com ramificações no Rio de Janeiro (então Guanabara), que surgiu de uma dissidência da POLOP, no seu Congresso de 1967, e foi uma das pioneiras na organização de ações armadas.
    
Os dados sobre o MR-8 (74 estudantes, 49,3% dos 150 processados com ocupação conhecida), na verdade são referentes a duas organizações distintas que se denominaram MR-8 nos processos judiciais, sendo, por isso, seus dados computados em conjunto; tratava-se de duas dissidências estudantis do PCB, a do Estado do Rio de Janeiro (DI-RJ) e do então Estado da Guanabara (DI-GB), que nada tinham em comum, exceto serem dissidências estudantis do Partidão. 

A primeira já havia sido desbaratada pela Polícia, quando a DI-GB resolveu assumir o nome MR-8, para desmoralizar o governo, que anunciava o “fim do MR-8”; como ambas eram dissidências universitárias estudantis, explica-se o referido número de 49,3% dos processados. Aliás, uma das fontes principais de militantes, senão a fundamental, para as organizações que optaram pela luta armada imediata naquela conjuntura, foram exatamente as dissidências universitárias do PCB em todo o Brasil.

Outra Organização com presença estudantil marcante (40,6%), foi o POC, fruto da união, em abril de 1968 do que restara da POLOP, após o Congresso de 1967, com a DI do PCB no Rio Grande do Sul. O POC era inicialmente crítico das ações armadas naquela conjuntura, mas, a partir de certo momento, acabou envolvendo-se com uma ou outra ação. Também no PCBR, outra dissidência do PCB, o percentual de estudantes chegou a quase 40%.
    
Vale notar que duas Organizações armadas, para as quais o total de militantes considerados é estatisticamente significativo, têm número de estudantes inferior à média de 30%: a ALA VERMELHA (l7,5%) e a VPR (19,7%). Note-se também que os grupos armados nacionalistas quase não contavam com estudantes: casos do MAR, do MNR e da RAN.
    
A percentagem de estudantes em torno de 30% nos grupos armados, embora alta, provavelmente ainda esteja abaixo de sua presença real nesses grupos, pois muitos deles não se dedicavam ao estudo em tempo integral, trabalhando para, supostamente, dar continuidade à sua formação. Presumivelmente, também eram estudantes muitos dos que aparecem qualificados nos dados estatísticos em outras ocupações (da mesma forma, por outro lado, é de se presumir que muitos dos qualificados como estudantes tivessem uma atividade profissional, podendo ser qualificados, empiricamente, em outros itens ocupacionais aqui propostos).

Sabe-se, por exemplo, do grande número de estudantes-operários, dentre os trabalhadores de Osasco, que aderiram à esquerda armada, o mesmo podendo ser dito estudantes-bancários, estudantes-professores, etc. Entretanto, o fato de ser estudante-trabalhador, apesar da especificidade da situação , não descaracteriza a inserção profissional desses trabalhadores.
    
Alguns dados sobre a escolaridade e a faixa etária dos processados por qualquer tipo de oposição à ditadura militar, sugerem que ia além dos 30% a origem estudantil dos participantes nos grupos armados de esquerda, chegando, provavelmente, a mais da metade, o número dos militantes provenientes dos meios estudantis (fossem exclusivamente estudantes ou não, e independentemente da extração social das famílias a que pertenciam). Dentre os 4.476 processados pelo regime militar, com nível de instrução conhecida, 24,9% (1.113 pessoas) tinham curso universitário completo, e 30,8% (1.378) cursaram parcialmente a Universidade.

Isto é, 55,7% (2.491) dos denunciados perante a Justiça por atividades subversivas tiveram acesso ao ensino superior. Vão na mesma direção as indicações a seguir, que tornam o total de indiciados, denunciados, testemunhas e declarantes: 4.619 (58,7%) dentre as 7.871 pessoas que compunham a “população atingida” nos processos, com instrução conhecida, até o terceiro grau completo (sem contar que uma parte menor das “escolas militares”, que firam computadas como de segundo grau, são, na verdade,também de ensino superior.
    
Os dados sobre a faixa etária dos processados por vinculação a grupos de esquerda, revelam que 1.276 (51.76%) de um universo de 2.465 supostos simpatizantes ou militantes de organizações armadas de esquerda, com idade conhecida, tinham menos de 25 anos de idade quando processados, 1,857 (75,33%) até 30 anos e 2.117 (85,88%) até35 anos. Nota-se que na maioria das organizações predominavam os jovens entre 22 e 25 anos, especialmente nos grupos armados (nesses grupos, 34,56% dos 2.465 processados com idade conhecida, estavam nessa faixa etária; 23,57% tinham entre 26 e 30 anos, 15,42% entre 19 E 21; 10,55% de 3a 35 anos de idade). Algumas Organizações contaram com jovens de 19 a 21 anos numa percentagem tão elevada quanto os de 22 a 25 anos, caso, por exemplo, da CORRENTE (25,81% dos processados entre 21 e 25 anos), FALN (30,44%: nesse agrupamento,, que realizou algumas ações armadas no campo e que atuava na região de Ribeirão Preto, predominavam os estudantes secundaristas, o que o levou a ser chamado de “jardim de infância das Organizações  de esquerda do pós-64”. Outros pequenos grupos: FLNe, MEL e MOLIPO.

Os grupos guerrilheiros nacionalistas tinham, em geral, médias de idade superiores às de outras Organizações. Era o caso do MAR, MNR, MR-26 e RAN, onde a maioria estava na faixa de 26 e 30 anos, ou de 31 a 35, com uma percentagem razoável de supostos militantes de 36 até 40 anos, ou com mais de 40 anos de idade. Na soma dos dados desses grupos “nacionalistas militaristas”, têm-se os seguintes números: uma pessoa até 18 anos (1,1% dos 93 processados por ligação com esses grupos, com idade conhecida); 4 processados entre 19 e 21 anos (4,3%); 10 entre 22 e 25 anos (10,7%); 28 entre 26 e 39 anos (30,1%); 21 entre 31 e 35 anos (22,6%); 16 entre 36 e 40 anos (17,2%); 4 entre 41 e 45 anos (4,3%);9 com 46 ou mais anos (9.7%). Pequenos agrupamentos, como o PCR no Nordeste e o PRT no Centro/Sudeste, tinham a maior parte de seus militantes com idade entre 26 e 39 anos. Na década de 60 costumava-se dizer “não confie em ninguém com mais de 30 anos”.

A grande maioria dos supostos militantes ou simpatizantes das esquerdas, especialmente das armadas, estaria na “faixa confiável”: tinham até 30 anos quando foram levados às barras dos tribunais 2.076 dentre os 4.482 processados, com idade conhecida, por vinculação com as esquerdas em geral (67,52) e 1.857 das 2.465 pessoas acusadas de ligação com os grupos armados (75,33%).
    
Ao se reagrupar, em apenas três faixas etárias, os processados por envolvimento com as esquerdas clandestinas, pode-se ter uma visão mais clara da distribuição etária dos supostos militantes de cada Organização. Observa-se que a maior parte dos processados dos grupos armados era bem jovem, normalmente em idade escolar: 1.276 (51,8%) dos 2.465 denunciados, com idade conhecida, tinham até 25 anos no momento em que foram processados. O número de envolvidos com idade entre 26 e 35 anos também é significativo nos grupos armados: 841 (34,1 % do total). Mas não se imagine que a resistência armada partia só dos jovens, pois 348 pessoas (14,1% dos processados), tinham 36 anos ou mais.
    
Organizações com penetração, sobretudo no movimento estudantil, armadas ou não, foram as que tiveram maiores percentagens de jovens processados. Alguns grupos chegaram, ou quase, a 60% de supostos militantes com menos de 25 anos de idade, casos da ALA VERMELHA, COLINA, FALN, MR-8, PCBR, POC e POLOP. Outros tiveram por volta de 50% de jovens com até 25 anos de idade: ALN, AP, CORRENTE, DVP, FALNe, MEL, MOLIPO, MRM, PORT, VAR-PALMARES  e VPR.
    
Em três agrupamentos foi marcante a presença de pessoas com mais de 36anos: Os Grupos dos Onze, o PCB e a DI-DF (pequena dissidência do PCB em Brasília no ano de 1967, próxima da ALN). Os dados relativos ao PCB e aos Grupos dos Onze, antes de 1964, podem sugerir uma diferença fundamental entre as lutas sociais e o engajamento militante, antes e depois do golpe de 1964, especialmente em 1967 e 1968. Antes de 1964, as esquerdas arregimentavam uma percentagem de pessoas proporcionalmente mais velhas do que na conjuntura imediatamente posterior. Os nacionalistas dos Grupos dos Onze, organizados por Brizola antes de 1964, tiveram 94 processados com idade sabida, dentre os quais 57 (60,6%) com mais de 36 anos de idade e 42 (44,7%) tinham 41 anos ou mais.
    
Os dados sobre o PCB revelam que, em 1964, 4,8% dos processados tinham até 25 anos de idade (7 pessoas); 18.6% estavam entre 26 e 35 anos (27 pessoas); e 76,6% já contavam com 36 anos ou mais (111 denunciados). Dentre os processados do PCB em 1964, 54 tinham mais de 41 anos (57.9%) e 56 (38,6%), mais de 46 anos de idade. No período imediatamente seguinte, entre 1965 e 1968, quando o PCB sofreu diversas cisões, assim como entre 1969 e 1974, aumentou bastante a proporção de jovens militantes em relação a 1964: tinham menos de 25 anos 13 processados entre 1965 e 1968 (25,5%)m, e 43 denunciados entre 1969 e 1974 (18,3%).

Se, em 1964, 76,6% dos denunciados do PCB tinham 36 anos de idade ou mais, esse percentual caiu para 47,1% (24 pessoas) entre 1965 e 1968, e para 50,6% (119 pessoas) entre 1969 e 1974. Isso indica que, inclusive dentro do PCB, aumentou sensivelmente o número de jovens militantes entre 1965 e 1974. Passados os anos de efervescência da juventude, isto é, a segunda metade da década de 60 e início dos anos 70, o número de jovens voltou a baixar no PCB: em 1975 e 1976 só 9 processados (5,2% do total de 174) tinham menos de 25 anos, e 134 (77,0%) já haviam completado 36 anos ou mais, números percentuais bastante próximos daqueles do PCB nos processos de 1964 (respectivamente 4,8% e 76,6% em 1964).    
    
Ou seja, as evidências são claras : era jovem a maioria dos militantes e simpatizantes das esquerdas após 1964, principalmente das esquerdas armadas, situação contrária àquela anterior ao golpe. Isso não significa que os mais velhos tenham deixado de integrar grupos clandestinos após aquela data. Especialmente militantes veteranos, dissidentes do PCB, tiveram destaque  na liderança de grupos guerrilheiros, casos notórios de Carlos Marighela e Joaquim Câmara Ferreira (ALN), Apolônio de Carvalho e Mario Alves (PCBR), dentre outros, que levaram consigo bases e militantes antigos do PCB. Ao que tudo indica, o PCB ficou com a maior parte dos velhos militantes que continuaram na luta após 1964, mas contou, em seu interior, com m peso relativamente de jovens no mesmo período, embora prevalecessem as pessoas de mais idade.

Os mais jovens acorreram, preferencialmente, para as “novas esquerdas”, únicas alternativas visíveis ao PCB, cuja estrutura arcaica e stalinista não era capaz de dar conta da complexidade da sociedade brasileira, nem da novidade dos movimentos sociais dos anos 60; tampouco da transformação revolucionária na ordem estabelecida, a julgar pelo fracasso da política do Partido em 1964, e, principalmente, pela ausência de resistência do PCB ao golpe, o que abalou moralmente grande número de militantes e simpatizantes, especialmente os mais jovens.
    
Comparando os dados estatísticos sobre a faixa etária das organizações de esquerda com a distribuição etária da população brasileira acima de 15 anos de idade em 1970, constata-se que a concentração de jovens nos grupos armados era acentuadamente maior que na população em geral, urbana ou não. Apenas 14,1% dos processados por vinculação com a esquerda armada, tinham 36 anos ou mais, enquanto 33,6% dos brasileiros jovens e adultos tinham mais de 40 anos; 73,5% dos acusados de envolvimento com os grupos armados tinham entre 19 e 30 anos, ao passo que quase 38% da população jovem e adulta tinham entre 20 e 34 anos em 1970.
    
Os partidos clandestinos, como depois de 1964, não se caracterizavam intrinsecamente pela arregimentação de quadros mais jovens ou mais velhos. As circunstâncias sociais posteriores ao golpe de Estado favoreceram a mobilização de setores sociais jovens, principalmente estudantes, assim como, antes daquela data, a composição social das esquerdas refletia uma participação política e social mais diversificada, com a mobilização mais ampla de vários estratos da população, de todas as idades.

Os anos de 1967 e 1968 assistiram à mobilização política de amplas massas juvenis, universitárias, em grande parte, mas também compostas por secundaristas, bancários e outros assalariados, inclusive operários, especialmente no caso dos jovens revolucionários de Osasco. A destacada militância dos jovens nos partidos de esquerda após 1964 (principalmente nos armados, que surgiam como nova alternativa de luta e intervenção na sociedade), deve ser compreendida em relação direta com a ímpar participação juvenil nos movimentos sociais do período, favorecida pelo clima político e cultural dos anos 60.
    
Combinados com a faixa etária dos componentes das esquerdas com os referentes à escolaridade, presume-se que, pelo menos, cerca da metade dos componentes das organizações armadas era composta por estudantes universitários, ex-estudantes recém-egressos da Escola (tendo completado ou não os estudos), ou, em escala menor, estudantes do ensino médio. Outras fontes confirmam essa asserção. Uma lista da Anistia Internacional com 1081 nomes de vítimas da repressão no Brasil entre 1968 e 1972, indica que eram estudantes 39,8% das 565 vítimas com ocupação conhecida, segundo relata Michael Lowy. Um ex-estudante condenado e encarcerado no início de 197º0 conta que, dentre os cerca de 250 presos políticos, naquele período, no Presídio Tiradentes, em São Paulo, seguramente mais de 50% eram estudantes.

Com certeza, a origem estudantil dos militantes e simpatizantes foi amplamente majoritária nos grupos da esquerda armada. Portanto, a análise da participação dos estudantes na luta contra o regime militar deve ser considerada peça-chave para compreender as esquerdas armadas urbanas, ainda que elas tenham tido inúmeras facetas sociais além da estudantil, com destaque, principalmente, à participação dos trabalhadores intelectuais, dos militantes profissionais antigos, rompidos com o PCB, e dos militares subalternos, que também foram um componente muito significativo dos grupos em armas, ao menos qualitativamente, (sem esquecer que os estudantes, como categoria social, são também cortados por distintas inserções de classe).   

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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