quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Dica de livro: presente de Natal

Ken Follet

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant’Ana

O irlandês Ken Follet é um dos maiores autores contemporâneos do que há de mais instigante em literatura, o romance histórico. Mais instigante e mais interessante porque, podendo abranger as características dos demais gêneros (inclusive a elaboração psicológica de personagens), apresenta os fenômenos históricos da época retratada pelo autor. E é o de elaboração mais trabalhosa, precisamente pela árdua pesquisa que o escritor tem de fazer para que a conexão com a história seja fidedigna.

Muitos e grandes autores incursionaram com sucesso no gênero: Victor Hugo, Tolstoi, Roger Martin du Gard, Érico Veríssimo, Umberto Eco, José Luis Corral, entre outros.

Na trilogia "O século", Ken Follet faz um impressionante retrato do complexo e desconcertante século XX - que, como se verá, só termina em 2008, com a eleição de Barack Obama. A narrativa acompanha cinco famílias (americana, alemã, russa, inglesa e galesa) ao longo de três eventos centrais do século 20: as duas grandes guerras mundiais e a Guerra Fria.

Diálogos entre personagens históricos que precederam, articularam ou tentaram evitar as grandes guerras do século; a conquista do sufrágio feminino; o segregacionismo racial e a luta pelos direitos civis nos EUA; o mundo polarizado entre duas potências e a Guerra Fria; a bomba atômica; o cinematográfico ataque japonês a Pearl Harbor. Os grandes acontecimentos do século XX ali estão em uma narrativa fiel aos fatos, mas com o timbre do romancista, o que torna viva a história e captura o leitor.

Rigor e disciplina

Para não esbarrar em incorreções históricas e evitar contradições entre os fatos de um século inteiro condensado em três grandes livros, Ken Follet utilizou ferramentas que não existiam nos anos 1970, quando ele estreou como escritor - com especial destaque para o Excel, programa para criar tabelas e calcular dados no computador. "Tenho de ser mais cuidadoso. Se quisesse dizer que, Na Idade Média, um dia o rei foi ao campo, eu poderia: ninguém sabe bem onde o rei estava na maior parte do tempo. Agora, se quero dizer que o presidente Roosevelt foi a tal lugar tal dia, tenho de ter certeza. Alguém em algum lugar sabe onde ele esteve em cada dia de sua presidência", disse Follet à Folha de S. Paulo (coluna de Raquel Cozer, 10/01/2013).

Atos da maior grandeza, assim como as piores vilanias: a humanidade cheia de contradições está retratada de corpo inteiro em "O século". O que mais deveríamos esperar de uma obra de arte? nada de concessões, nenhum engajamento senão no esforço de ser profundo e o mais verdadeiro possível.

Aliás, por não demonstrar inclinação panfletária e, principalmente, por ganhar dinheiro com seus livros, Ken Follet conta com a antipatia de alguns "intelectuais" convencidos de serem "progressistas". Pontos para ele!

Arte de presentear

Há uma unanimidade: todo mundo fala em defesa da educação e, quase na mesma medida, da cultura. Mas, quantas pessoas já deram livros de presente alguma vez? E quantas terão por hábito fazê-lo? Talvez jamais se haja feito semelhante pesquisa.

Tudo bem. É natal. Distribuição de presentes. Imaginem, ao menos, o jovem que vai fazer vestibular. Eis um presente que lhe pode servir muito. Ao ler o retrato de uma época nas páginas de Ken Follet, ele terá muito mais facilidade para estudar a história do século XX, o que será exigido no exame. Com efeito, sem substituir o texto didático, romances históricos ajudam a resolver o que costuma ser um problema: a enfadonha tarefa de memorizar datas, nomes, fatos, circunstâncias. Ao natural, a literatura estimula a imaginação, a empatia, o pensamento abstrato e a memória - sem exigir esforço. Em suma, é, ao mesmo tempo, diversão e fonte de conhecimento.

Resolvido. Livros na árvore de natal! Presente para filhos, sobrinhos e afilhados, livro é investimento, não consumo. A trilogia de Ken Follet, por sinal, custa menos do que uma roupa de marca...


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

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