quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Marx, 100 anos depois


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “História do Marxismo”, de Eric Hobsbawn.Eric John Ernest Hobsbawm (Alexandria9 de junho de 1917 Londres,1 de outubro de 2012, foi um historiador marxista britânico reconhecido como um importante nome da intelectualidade do século XX. Ao longo de toda a sua vida, Hobsbawm foi membro do Partido Comunista Britânico.

Livros publicados
·         A Era das Revoluções;
·         A Era do Capital
·         A Era dos Impérios
·         Era dos Extremos - o breve século XX
·         Sobre História
·         Globalização, Democracia e Terrorismo
·         Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1979 (Segunda Edição)
·         História Social do Jazz
·         Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz
·         Nações e Nacionalismo desde 1780
·         Tempos Interessantes (autobiografia)
·         Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História do Operariado
·         Mundos do Trabalho: Novos Estudos Sobre a História Operária
·         Revolucionários: Ensaios Contemporâneos
·         Estratégias para uma Esquerda Racional
·         Ecos da Marselhesa : Dois séculos revêem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
·         As Origens da Revolução Industrial. São Paulo: Global Editora, 1979.
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Ainda não sabemos qual possa ser o futuro do marxismo. No entanto, cem depois da morte de Marx, é possível avaliar com certa confiança seus extraordinários resultados.
    
Jamais algum pensador sobreviveu com o mesmo sucesso ao seu lema programático: “Os filósofos têm somente interpretado o mundo. Trata-se, porém, de transformá-lo”. As idéias de Marx tornaram-se as doutrinas que inspiraram os movimentos operários e socialistas da Europa. Por meio de Lenin, principalmente, e da Revolução Russa, elas se tornaram a quintessência da doutrina internacional da revolução social no Século XX, universalmente acolhida como tal, desde a China até o Peru.

Através da vitória de partidos e governos identificados com essas doutrinas, algumas versões dessas idéias se tornaram a ideologia oficial de Estados, em que, neste momento, vive algo como um terço do gênero humano, para não mencionar os movimentos políticos de dimensão e importância variada que a elas se referem no resto do mundo. Os únicos pensadores individualmente identificáveis que alcançaram uma comparável são os fundadores das grandes religiões do passado, e, talvez, excetuando-se Maomé, nenhum triunfou numa escala comparável com a mesma rapidez. Sob esse ponto de vista, nenhum pensador laico pode ser comparado a Marx.
    
Em que medida o próprio Marx teria aprovado o que se fez em seu nome, e o que pensava de doutrinas muitas vezes transformadas num equivalente laico das teologias, oficialmente aceitas como incontestavelmente verdadeiras – eis uma questão que pode levar a discussões interessantes, mas acadêmicas. Resta o fato de que, por mais distantes que tais doutrinas possam estar de suas idéias originárias, tais como podemos documentar ou deduzir, aquelas são historicamente derivadas destas, e a derivação pode ser diretamente demonstrada, seja no pensamento, seja na ação, pertencem à história do marxismo.

Em que medida tais desdobramentos estão logicamente implícitos nas idéias de Marx – isto é uma questão distinta e separada, que tem sido objeto de muitas discussões, sobretudo pelo fato de que os governos e os regimes constituídos sob o me de Marx (associado, em geral, até agora, àquele que alguns líderes revolucionários, que a ele sucederam, declarando-se seus discípulos, como Lenin, Stalin, Mao, etc,) têm tido, até hoje, uma certa semelhança de família – ou, antes, compartilharam a característica negativa de serem diferentes da democracia liberal.      
    
Responde a AL problema não é tarefa desta História do Marxismo, mas duas observações podem ser feitas.Na medida em que um conjunto de ideais sobrevive a que as elaborou, deixa de estar confinado ao âmbito do contudo e das intenções originais. Nos limites muito amplos traçados pela capacidade exegética dos homens, ou até pela disponibilidade humana de declarar um nexo com um predecessor amado ou predileto, aquele bloco de idéias está sujeito a uma série imprevisivelmente vasta de mudanças e transformações práticas e teóricas.

Os regimes que se disseram cristãos e que derivaram sua autoridade de um corpo específico de textos, variaram do reino feudal de Jerusalém aos Shakers, do império czarista à república holandesa, da Genebra de Calvino à Inglaterra hannoveriana. A teologia cristã, em diferentes circunstâncias, absorveu Aristóteles e Marx. Todos poderiam asseverar que, de algum modo, derivaram dos ensinamentos de Jesus, embora isso habitualmente não provocasse satisfação em outros cristãos igualmente convictos.

Os volumes desta História do Marxismo devem ter mostrado como é amplo o espectro de idéias e de práticas que pretendem derivar dos textos de Marx, ou com eles serem compatíveis, diretamente ou por intermédio de seus sucessores. Se não soubéssemos que todos reivindicaram uma tal derivação, por certo poderíamos considerar as diferenças existentes entre os kibutzim sionistas e o Cambodja de Pol Pot, entre Hiferding e Mao, entre Stalin e Gramsci , entre Rosa de Luxemburgo e Kim ll Song, como mais acentuadas do que suas afinidades.

Não existe nenhuma razão teórica pelaqual os regimes marxistas tivessem de tomar uma certa forma, muito embora haja boas razões históricas para porque aqueles regimes que se constituíram num curso relativamente breve a partir de 1917 – por revolução autóctone, por imitação, por conquista – num certo número de países às margens ou fora do mundo industrializado, tenham desenvolvido características comuns, positiva ou negativamente.
    
Este volume busca examinar o marxismo a partir de quando ele deixa de ser identificado – como havia ocorrido em medida crescente entre 1917 e o apogeu staliniano – com um determinado modelo de revolução e de construção do socialismo e com um determinado movimento internacional, sob a direção centralizada, ou, pelo menos, a orientação preestabelecida do Partido Comunista da URSS. A prática política marxista não mais se conforma, ou tende a não se conformar, ao modelo bolchevique. Por isto, caiu o argumento segundo o qual a teoria marxista implica necessariamente o leninismo e só o leninismo – ou uma outra escola qualquer que pretenda representar a ortodoxia marxista -.
   
Pode-se dizer, contudo, que qualquer outro corpo de idéias – inclusive as de Marx – se transforma necessariamente ao se tornar uma força política significativa, capaz de mobilizar as massas, quer isto ocorra através de partidos, movimentos, governos, quer se realize por outros meios. Do mesmo modo, qualquer corpo de idéias se transforma, ainda que somente por causa da formalização, estabilização e simplificação pedagógica, no momento em que começa a ser ensinado nas escolas primárias e secundárias, ou mesmo só nas universidades.

Interpretar o mundo e mudá-lo não é a mesma coisa, por mais que se trate de duas coisas organicamente ligadas. Se isto acontece por meio da formação de um núcleo informal de crenças, como aquelas como aquelas que distinguiam os homens de negócios do Século XIX e seus cronistas do conteúdo efetivo do pensamento de Adam Smith – em que, de todo modo, acreditavam apoiar-se -, ou – no caso oposto – por meio de dogmas formais, em relação aos quais não se tolera nenhuma divergência, isto é questão secundária. Resta o fato da transformação.

Com efeito, a história das idéias, e particularmente a história das idéias políticas, se ocupa, sobretudo, em desvendar o significado e a intenção dos pensadores, assim como os contextos originais e as referências de seu pensamento, ocultos por interpretações póstumas. Os únicos autores que escapam a esse destino são os que ninguém jamais leva a sério, ou aqueles tão estritamente identificados com uma origem específica no tempo e no espaço que são imediatamente esquecidos. O Adam Smith de hoje não é o Adam Smith de 1776, a não ser para um pequeno grupo de estudiosos especializados. O mesmo vale inevitavelmente para Marx,, ainda que, como mostra este volume, os últimos decênios do Século XX tenham criado diferentes marxismos a partir do Marx original.
    
Quanto mais um pensador consegue mudar o mundo, tanto mais seu pensamento estará sujeito a mudanças póstumas. Sob o ponto de vista da história, o impacto do marxismo é, sem dúvida, o sucesso mais importante de Marx. Decerto, também o impacto intelectual foi quase tão importante, mas não pode ser separado do impacto político, ainda mais por marxistas. Não são muitos os pensadores, cujos nomes, por si só, evocam transformações fundamentais do universo intelectual dos homens.

Marx está entre eles, ao lado de figuras como Newton, Darwin, Freud. Esses nomes, sozinhos, indicam que as transformações com as quais cada um deles se identifica não são comparáveis senão pelo fato de que penetraram muito além dos setores especialistas dos respectivos campos, até atingir todo o mundo da cultura. Não se quer sustentar que Freud ou mesmo Darwin tivessem a mesma estatura e de Newton.

No entanto, quaisquer que fossem suas capacidades e a natureza de seus sucessos intelectuais, os nomes que compõem uma lista semelhante são poucos. A colocação nela de Marx dificilmente pode ser contestada. Mas é peculiar em dois sentidos. Em primeiro lugar, porque aconteceu em termos práticos só depois de sua morte, como esta História mostrou: poucos, na verdade, poderiam prever uma tal fama quando Marx ainda era vivo.

Em segundo lugar, isto foi obtido na presença de um Século de críticas persistentes, maciças, apaixonadas e, sob o ponto de vista intelectual, de modo algum negligenciáveis. Muitas, entre as melhores mentes, dedicaram esforços intensos na tentativa de demonstrar os erros e as lacunas de Marx, inclusive tantos que, tendo sido adeptos do marxismo, mais tarde se tornaram seus críticos. O fato de serem objeto de crítica e de contestação, pelo menos por um certo período, acontece não raramente aos pensadores que transformam o universo intelectual; todavia, o percurso de outras figuras do gênero parece ter sido menos tempestuoso, e as críticas intelectualmente sérias, em outros casos, parece terem se circunscrito aos seus campos de investigação específica.

Marx sobreviveu a um Século de fogo concêntrico dirigido conta suas idéias, por quem tivesse ao alcance da mão uma caneta, uma máquina de escrever, uma tribuna, ou – em certos casos – a tesoura do censor e o departamento de polícia. Ao fim de um tal Século, sua estatura intelectual não é posta seriamente em dúvida. Ainda mais: suas idéias restam importantes mesmo entre aqueles que rejeitam suas conclusões e as atividades práticas de seus seguidores.
    
Existem três razões possíveis para esse notável primado. Sem dúvida, o marxismo tem sido constantemente combatido porque, desde os anos subseqüentes à morte de Marx, sempre foi identificado, por uma parte ou opor outra – mas em geral em amplas zonas do mundo -, com fortes movimentos políticos que constituíam uma ameaça para o status quo, e, depois de 1917, com regimes estatais considerados fatores de subversão perigosa da ordem internacional. O marxismo jamais deixou de representar forças políticas formidáveis. Ainda por cima, ele sempre permaneceu, em teoria, internacional, dando assim a seus críticos a idéia de um perigo ou de um erro potencialmente universais. Sob esse aspecto ,ele difere de doutrinas identificadas com nações ou raças particulares, e, por isso, dificilmente capazes de converter outras, assim como difere de doutrinas teoricamente universais, mas na prática confinadas em regiões específicas, como o cristianismo ortodoxo ou o Islã xiita.
    
Além disso, o marxismo sempre foi uma crítica revolucionária ao status quo dotada de sérias pretensões intelectuais e que logo se considerou como a crítica revolucionária incomparavelmente mais decisiva e importante. Praticamente todos os opositores do status quo que pretendem substituí-lo por uma “nova” sociedade melhor, e mesmo alguns daqueles que querem substituí-lo pelo retorno a uma “velha” sociedade idealizada, descrevem hoje suas aspirações em termos de “socialismo”.

Mas a posição da análise marxista na teoria socialista, ou o que passa como tal, é formada em termos que implicam, em toda a crítica do socialismo, uma crítica de Marx. Um ano depois de sua morte, uma descrição bem informada do “socialismo contemporâneo”, embora sublinhasse a escassa extensão das escolas “utópicas” ou “mutualistas” pré-marxistas originais, ainda podia dedicar a Karl Marx apenas um de seus nove capítulos. Hoje, é mais possível que uma discussão do gênero tome em consideração todas as variantes das doutrinas socialistas, especialmente em sua conexão com as doutrinas do marxismo, que tacitamente é considerado como a tradição central do socialismo.

Analogamente, aqueles que pretendem criticar a sociedade existente, são atraídos pela teoria que domina tais críticas, na mesma medida em que aqueles que pretendem defendê-la, ou que são céticos em face das intenções dos revolucionários, são levados a atacar Marx. Não é assim somente nos países em que a doutrina marxista se identifica com a ideologia oficial do status quo. Todavia, os Estados de regime marxista são uma minoria no mundo de hoje, e, em todo caso, se se excluir a URSS, todos os Estados desse tipo não têm mais de trinta ou quarenta anos, e o elemento de crítica da sociedade – presente na primeira ou nas primeiras gerações pós-revolucionárias – conserva um certo significado, ainda que provavelmente numa medida cada vez menor.
    
Existe, contudo, uma terceira razão que explica a centralidade do marxismo e dos debates sobre o marxismo no universo intelectual das últimas décadas do Século XX: sua extraordinária capacidade de atrair intelectuais de alto nível. Não se quer dizer que os intelectuais tenham sido sempre atraídos em massa pelo marxismo, embora isto às vezes acontecesse; e menos ainda que tal atração tenha sido permanente. Antes, houve épocas, lugares, ocupações intelectuais que foram consideravelmente imunes ao marxismo ou por ele rejeitados. Mas é  verdade que no plano teórico o marxismo foi, entre todas as ideologias ligadas aos movimento sociais modernos aquela que suscitou – de longe – o maior interesse, propiciando o caminho mais amplo não só  aos propósitos e à atividade política, mas também à discussão e à elaboração de idéias. Por isso, é particularmente notável o conjunto de de debates e de elaboração conceitual, por parte das pessoas de capacidade intelectual elevada, que o marxismo foi capaz de suscitar.

Não é casual e nem o mero reflexo de uma moda intelectual, o número de referências sob os verbetes “Marx” e “marxismo”, no índice da Internacional Encyclopédia of the Social Sciences(1968), superar amplamente o de qualquer outro pensador, mesmo sem considerar as referências adicionais sob o verbete “leninismo”. Também, no plano acadêmico, o verdadeiro potencial cultural de Marx foi, e continua sendo, enorme.  


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

4 comentários:

Anônimo disse...

Conversa fiada.Marx uma das figuras mais sinistras da história da humanidade, senão a maior delas. Todos as tragédias do último século remontam a esse sandeu, a ese treçoucado, a esse sociopata. O fato de ser cultuado até os dias de hoje apenas revela o atraso moral, intelectual e espiritual em que se enontra a humanidade.E ponto

Anônimo disse...

O sucesso de Marx e do marxismo está no fato de que, sob a sua influência direta, mais seres humanos foram mortos no seculo XX do que em todos os séculos anteriores, e de que, sob sua influência direta, continuam morrendo mais e mais seres humanos. è uma ideologia criminsoa, genocida. Fico pasmo de ver um texto como esse aqui. É muita vigarice intelectal!

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