sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Marxismo e Pós-Marxismo




Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Este texto é de autoria de Vittorio Strada, filólogo, crítico literário e acadêmico italiano. Foi publicado no livro “História do Marxismo – O Marxismo Hoje”, escrito por Eric Hobsbawn e editado em 1989 pela Editora Paz e Terra.
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Do marxismo se pode falar de vários modos: torná-lo objeto de apologia ou de crítica, analisá-lo com o distanciamento do estudioso ou usá-lo - mais exatamente, usar uma de suas variantes – com a paixão do militante. E em vários planos: sob a perspectiva de uma sua história geral ou parcial e sob o ponto de vista de uma sua interpretação teórica. Mas qualquer que seja o modo e o plano de um discurso sobre o marxismo, deve-se convir que esse movimento de idéias ocupa um posto mais do que particular, verdadeiramente singular, na realidade contemporânea.

Já a expressão “movimento de idéias”, agora empregada, é imprópria, uma vez que, se confrontado com os outros movimentos de idéias do nosso tempo, o marxismo revela uma saturação de significado que o situa simultaneamente em diferentes esferas culturais: é filosofia, ciência, ideologia, política, teoria, prática; e não é todas essas coisas numa série cumulativa, mas tudo isso numa unidade particular que lhe confere um estatuto específico entre as doutrinas passadas e presentes.

Num certo sentido, a pretensão do marxismo de ser “diferente” é justa, e uma crítica eventual só pode referir-se ao ponto em que o marxismo entra em contato com a realidade. É este o Calcanhar de Aquiles do marxismo, seu lado vulnerável, intrínseco à própria estrutura. De fato, é estéril criticar o marxismo a partir de posições distantes dele, mas, como o marxismo indica seu ponto de honra em sua capacidade de transformar o mundo em orgânica associação com uma força histórica como a classe operária, será este o ponto no qual o marxismo poderá ser julgado iuxta própria principia.

Na história do marxismo, pois, existe uma fratura intrínseca, um ante e um post: a Revolução Russa de 1917, enquanto data inicial de uma aplicação prática do marxismo, antes tão somente organização de forças sociais dentro de uma sociedade – burguesa – baseada em princípios antiéticos, analisados e denunciados pelo próprio marxismo. Essa afirmação suscita inevitavelmente a objeção de que 1917, como data de ruptura do marxismo em seu desenvolvimento, é contestável sob o ponto de vista do marxismo mesmo, e que, de fato, eminentes marxistas – como Kautsky, por exemplo – negaram que a revolução bolchevique tivesse ocorrido no leito do marxismo e do socialismo nele inspirado.

Essa observação não pode ser negligenciada, certamente, e ainda hoje – antes, principalmente hoje – é bastante legítimo discutir se verdadeiramente a revolução bolchevique e, sobretudo o seu resultado sejam autenticamente socialistas. Mas essa discussão está, historicamente, sempre no interior do marxismo, e decerto não seguiremos Lenin, que definia Kautsky como um “renegado”, do mesmo modo como não dirigiremos a acusação contra o revolucionário russo, não obstante este último, entre outras coisas, ter suprimido após sua vitória todo traço de partido socialista na Rússia.

Sob um ponto de vista ideológico e doutrinário se pode discutir, mas sob um ponto de vista histórico Lenin – o leninismo e a revolução bolchevique – é, tanto quanto seus adversários, de Kautsky a Martov, um momento do desenvolvimento do marxismo, e 1917 assinala verdadeiramente uma data de importância epocal para o marxismo e também para o mundo.

Também por isso, porque vivemos, pensamos e operamos post revolutionem natam, o discurso sobre o marxismo hoje se propõe diferentemente do que ante tal data. O marxismo hoje, mais do que uma teoria para defender ou refutar, como se usava fazer ainda no princípio do século, é uma realidade polimórfica que se trata de compreender e, antes ainda, de descrever.

Se se considera o marxismo no plano da diacronia, teremos uma história sua, ou como desenvolvimento de idéias ou como evolução de um movimento, ou ainda uma coisa e outra ao mesmo tempo. Mas é lícito considerar o marxismo também sob o plano da sincronia, investigando aquilo em que o marxismo se tornou, aquilo que ele é.

Obviamente, os dois planos, diacrônico e sincrônico, mesmo aqui não podem ser cindidos, e seria estéril perdermo-nos agora numa disputa sobre a primazia de um plano sobre o outro. Pode-se dizer que falha seria uma história do marxismo que não chegasse a analisar, com base em seus próprios resultados, o marxismo efetivo, assim como seria cega uma noção do marxismo em curso que prescindisse de uma consciência de seu desenvolvimento anterior. Mas não é o bastante.

O estudo sincrônico do marxismo tal como se tornou pode certamente aspirar a uma globalidade que investigue todos os aspectos e todas as articulações de seu objeto, mas também pode, com toda a legitimidade, deter-se em suas partes essenciais, com a condição de que nunca desapareça no investigador o sentido do todo.

Pode-se até formular a hipótese de que, depois de tantas totalizações fáceis e destituídas de qualquer preparação analítica séria, esse caráter parcial da abordagem constitui uma boa propedêutica; ou antes, estaríamos tentados a dizer, uma medida profilática. Não que o todo possa identificar-se com a soma das partes e que as partes possam prescindir do todo, mas a parte (uma parte escolhida) pode constituir um caminho privilegiado para aproximar-se do cerne do todo.

Direi, com toda a simplicidade, que me parece que, para um conhecimento do marxismo real de hoje, seja particularmente produtivo considerá-lo uma espécie de “máquina ideológica” e, portanto, descrever e analisar os mecanismos dessa máquina, além do mecanismo em seu conjunto. Aqui, a objeção óbvia será que, assim fazendo, se negligencia o marxismo como instrumento cognoscitivo (prático cognoscitivo).

A essa objeção rebateria com a afirmação – para cuja justificativa deveria refazer, a meu modo, toda a história do marxismo – de que post 1917, o marxismo se tornou cada vez mais uma “máquina ideológica”, com a conseqüência de que mesmo o estatuto cognoscitivo do marxismo mudou com relação ao ante: não que o momento de “cientificidade” do marxismo tenha desaparecido só porque o marxismo se ideologizou extremamente (sobretudo no quadro de um sistema estatal, o soviético, com ramificações mundiais a partir desse centro estatal-partidário), mas, como o marxismo se tornou predominantemente “máquina ideológica”, seu momento “científico” nessa máquina foi automaticamente destruído e só pode subsistir fora do marxismo, refluindo para o espaço próprio do saber científico em geral e respeitando, portanto, as regras e os procedimentos de quem opera nesse espaço.

Eis a premissa e a reflexão que parte de um não-marxista e se detém na análise de uma sua definição do marxismo. Uma vez que não nos propusemos operar indutivamente, partindo de vários marxistas indiscutíveis e credenciados, mas, antes, fenomenologicamente, ou seja, delimitando um fenômeno cuja análise permite estender os próprios resultados aos outros fenômenos do mesmo campo, pareceu-nos que uma tese de Sartre manifestasse com extrema – e útil – clareza um pressuposto que é próprio (ainda que diferentemente formulado e justificado) de todo o marxismo, de Lenin a Gramsci, de Lukács a Althusser.

E é esse pressuposto que se deve preliminarmente considerar, se se quer entender o marxismo como “máquina ideológica” e, pois, se se quer também achar colocação adequada para o “saber científico” de que o marxismo é eventual portador.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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