quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Moro e sua Imagem


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Antonio Engelke

A foto que flagra o juiz Sérgio Moro conversando de forma descontraída com um risonho Aécio Neves, durante a premiação Os Brasileiros do Ano 2016, da revista “IstoÉ”, despertou duas reações opostas. Para uns, “a foto diz tudo”: seria a prova desavergonhada da parcialidade de Moro e da Lava-Jato, que estaria perseguindo petistas, deixando peessedebistas intocados. Para outros, “a foto não diz nada”: seria apenas o registro de uma conversa, natural naquela situação, entre conhecidos. Não faltaram posts nas redes sociais exibindo fotos em que Dilma aparece confraternizando com Eduardo Cunha, Collor com Lula, Aécio com Fidel Castro e assim em diante.

Dado que fotografias não falam por si, ao contrário, são levadas a falar de acordo com a interpretação que se lhes é dada, resta evidente que cada grupo projetou na foto certezas que possuía de antemão. Ambas as interpretações, no entanto, são falhas. Quem acredita que “a foto diz tudo” desconsidera não apenas os múltiplos atores que compõem a Lava-Jato, e a complexidade da relação entre eles, como também o fato de que o cerco vem fechando sobre políticos do PSDB.

Quem acredita que “a foto não diz nada” se esquece de que há uma enorme distância entre confraternizações protocolares de adversários políticos, algo rotineiro em democracias, e a exibição pública de cumplicidade entre um juiz que lidera uma operação e um senador em vias de ser por ela indiciado. Esquece-se também de que foi o PSDB o principal articulador da manobra que visava a alterar, em regime de urgência, o pacote anticorrupção proposto pelo Ministério Público Federal, como amplamente noticiado pela imprensa.

Ao invés de torturar a foto para que confesse algo, faremos melhor em pensá-la como um sintoma. É razoável supor que, se Moro não se importa com as reações que inevitavelmente se seguiriam à uma demonstração de camaradagem com Aécio, é porque confia na inviolabilidade de sua imagem perante a opinião pública.

Tem razão nisso, aliás: tendo suas ações apresentadas dentro de uma narrativa messiânica, que encontra terreno propício de recepção numa sociedade historicamente afeita a depositar suas esperanças de redenção na figura de um Pai Salvador, Moro já não é visto somente como um juiz, mas como símbolo da Justiça.

Símbolos raramente são arranhados por suas eventuais representações imagéticas; ao contrário, definem a moldura cognitiva dentro da qual tais representações serão recebidas. Voltemos, então, à leitura da foto: antes de “dizer” qualquer coisa, o que a imagem efetivamente faz, aos olhos da opinião pública, é confirmar o lugar de Moro entre as personalidades que ditam os rumos do país.

A fotografia é a mais recente peça do fenômeno de hipervisibilidade midiática que ajudou a transformar o juiz na encarnação da Justiça. Como sabe qualquer criança que tenha teimado em olhar para o sol, o excesso de luz ofusca: é por haver se transformado num símbolo que as contradições da atuação de Moro passam desapercebidas. Moro pode afirmar que “ninguém está acima da lei” e, ao mesmo tempo, agir ao arrepio da lei sem sofrer sanção — como quando da divulgação ilegal do grampo da conversa entre Lula e Dilma. Pode fazer política, ao transformar ações questionáveis do ponto de vista jurídico em espetáculos feitos para mobilizar apoio popular, enquanto afirma apenas seguir os ritos que cabem a um juiz de primeira instância.

Interpretar eventos de modo a fazê-los reiterar certezas já dadas pode até ser moralmente reconfortante, mas atravanca a compreensão mais alargada dos fatos. Mais do que a lente do fotógrafo, são as lentes do leitor, calibradas pela contextualização da notícia, que definem os pontos nítidos e cegos de cada imagem, e que podem tirar de foco as contradições que deveriam, estas sim, ser objeto de discussão política.


Antonio Engelke é Sociólogo. Originalmente publicado em O Globo em 19 de Dezembro de 2016.

4 comentários:

Anônimo disse...

FALOU E FALOU E DISSE NADA, EU FICO COM O VELHO DITADO QUE QUEM SE JUNTA AOS PORCOS COME FARELO... SERIA PRECISO FRAGAR OS DOIS EM UMA LUXUOSA FAZENDA BEBENDO E CHEIRANDO PARA PROVAR QUE OS 2 SÕ DA MESMA MAFIA???

Anônimo disse...

Refrescando a memória do sociólogo: 99% da população brasileira é grata ao juiz Sérgio Moro. Graças a ele a operação "Bessias" foi abortada. Já pensaram ter que engolir Lula como Ministro da Casa Civil? Bravo, Moro!!!!!!!

Anônimo disse...

Refrescando a memória do sociólogo: 99% da população brasileira é grata ao juiz Sérgio Moro. Graças a ele a operação "Bessias" foi abortada. Já pensaram ter que engolir Lula como Ministro da Casa Civil? Bravo, Moro!!!!!!!

Anônimo disse...

Por mais abjeto, vil e repugnante que seja um criminoso, o Juiz NUNCA poderá considerá-lo seu inimigo ou adversário.
Assim como o Juiz NUNCA poderá agravar ou suavizar a pena a ser aplicada ao criminoso, ainda que, na vida privada, seja seu amigo ou seu inimigo.
O réu é uma pessoa que merece tratamento digno, independente de sua culpa e da pena que lhe será imposta.
O Dr. Moro e o Senador Aécio - duas autoridades - participavam de uma solenidade extra-judicial, fora dos autos de qualquer possível inquérito, não havendo qualquer impedimento legal ou moral para que conversassem de forma descontraída, como pessoas civilizadas.